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Como é viver com ansiedade: 15 relatos dos nossos leitores sobre angústias diárias

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A ansiedade é um assunto delicado e bastante presente na nossa vida.

Ela está em nossa linguagem rotineira, inclusive na antecipação de momentos que consideramos felizes, como o primeiro dia no novo trabalho, o dia do casamento ou um reencontro importante.

Mas ela também está relacionada ao sofrimento de milhões de pessoas no mundo, para quem a ansiedade representa um sentimento de medo, apreensão e desconforto em relação a algo desconhecido e sem risco real. Ela pode se tornar uma preocupação insuportável, que compromete tarefas do dia a dia e interações sociais, e chega a paralisar.

Quem sofre com essa ansiedade costuma não ver muito espaço ou empatia para conversar sobre quão difícil é se relacionar com as pessoas, ou quão catastróficos podem ser seus pensamentos.

Considerada um transtorno mental, a ansiedade acomete cerca de 33% da população mundial, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Como patologia inserida no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) , ela se desdobra em outros diagnósticos, como fobias, transtorno do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno de ansiedade social ou transtorno de ansiedade generalizada.

Mas nem sempre a ansiedade é uma patologia. Ela é também um recurso biológico necessário e uma reação natural do corpo para se agir perante ameaças reais, uma vez que o problema é encarado antecipadamente.

Geralmente, reações ansiosas que se repetem com frequência e com longa duração costumam apontar para uma angústia bastante difícil de se lidar e, portanto, de se suportar. É importante buscar ajuda ao perceber que a ansiedade parece fora de controle, mesmo que amigos e familiares não deem valor a essa dificuldade (muitas vezes, por falta de conhecimento).

“A pessoa muito ansiosa sente um contratempo como se fosse uma catástrofe; sente que nada está sob o controle dela”, explica ao UOL o psiquiatra Wilson Felício Joaquim, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Esses contratempos podem ser os mais diversos: um telefone que não toca, um e-mail que não chega, um depósito que não cai, uma reação da pessoa ao que você acaba de dizer para ela. Neste mundo contemporâneo em que tudo é pra ontem, que atire a primeira pedra quem nunca se encheu de aflição com o sinalzinho de “lido” do Whatsapp ou com aquela interminável mensagem de “Digitando...”.

Pensar na ansiedade como um diagnóstico também nos leva a questionar: estamos ficando mais ansiosos? Na mesma entrevista ao UOL, o psiquiatra Wilson Joaquim lembra que hoje temos uma sociedade que nos empurra para situações de mais ansiedade. Mas não importa a época: imprevistos indesejados e situações negativas vão sempre existir.

A impressão que se tem é de que a tecnologia atiçou nossa pressa em resolver a vida e atropelar a angústia que é natural a cada um de nós.

Parecemos desesperados por respostas, reações, soluções e veredictos, de maneira que fica inviável darmos qualquer tempo para a reflexão ou a contemplação. É o terreno fértil para nos consumirmos em ansiedade.

Em entrevista ao UOL, o psicanalista Claudio César Montoto destaca nossa dificuldade em viver sem estímulos tecnológicos. "Nós escapamos do silêncio como se fosse um inimigo mortal! Chegamos em casa e ligamos a televisão, entramos no carro e ligamos a música, vamos ao museu e queremos tirar um monte de fotografias em vez de entrar em contato com as sensações e lembranças que a arte produz. Ou seja: a gente se afastou da gente mesmo."
ansiedade

Como são 33 milhões de ansiosos no mundo, fica o pretexto para se pensar em uma epidemia, ou para se considerar a ansiedade como um mal contemporâneo. Mas por trás de números, há pessoas ansiosas, e nelas podemos encontrar histórias bastante particulares e sentimentos sobre uma rotina vivida com muita angústia.

Dar voz e espaço para essa angústia já é um bom começo para entender suas origens e, assim, organizar a vida de uma maneira menos sofrida e com mais autonomia.

Pensando nisso, o HuffPost Brasil convidou os leitores a darem depoimentos sobre momentos em que a ansiedade deixou a rotina mais difícil. Em cada relato generosamente compartilhado conosco, há angústias vividas de modo particular, mas que podem gerar uma identificação universal. Colocar-se no lugar do outro ainda é a melhor maneira de lidarmos com o sofrimento de quem está à nossa volta.

A ansiedade na escola ou no trabalho

1.

“A ansiedade faz tudo na minha vida ser a gota d'água, não consigo discernir o que realmente vale minha preocupação. Atrapalha muito meu rendimento no trabalho e minhas relações interpessoais nesse ambiente. Uma crítica, um cochicho no corredor, uma reunião... Tudo isso me faz passar mal, sentir dores horríveis no estômago e vomitar algumas vezes.”
Mariana A.

2.

“Quando estou muito ansiosa, eu tenho crises, minha cabeça começa a doer muito e fico com muita ânsia de vômito. Tenho insônia também. Mas tudo piora quando eu tenho alguma prova ou trabalho para apresentar; não consigo dormir, meu coração acelera muito, fico sem vontade de comer.”
Cleidiane

3.

“As relações de trabalho e acadêmicas são as que mais tiram meu centro, a ponto de perder totalmente a concentração e a calma.”
Mariana

Na vida amorosa

4.

“Já me rendeu muitas brigas em início de namoro, quando se imagina um milhão de coisas que poderiam estar acontecendo, quando na realidade nenhuma faz o menor sentido.”
Jessica

5.

“A ansiedade me atrapalha na minha vida pessoal e amorosa (tem dias que não quero sair de casa porque está forte, tenho crises de pânico e medo de ficar sozinha)... Em consequência disso, não consigo ter relação saudável com as pessoas (muitas vezes acabo sendo grossa porque estou muito perdida e nervosa. Não é porque eu queira; aí se afastam, sendo que só quero um abraço).”
Heldy

6.

“Às vezes, quando gosto da pessoa, fico muito ansiosa em falar com ela, mas eu fico com receio de sufocá-la; aí, não falo todo dia por conta disso.”
Cleidiane

Na hora de dormir

7.

“Quando estou em crise fico nervosa... coração acelera, minha pressão baixa, não me concentro por mais que eu tente... meu coração acelera, gaguejo... ou seja, é o fim, sinto muito peso... tento dormir, mas é como se passasse um caminhão por cima de mim. Muitas vezes nem dormir, eu durmo. Fico acordada até dar a hora de resolver o que tenho para fazer e finalmente relaxar!!!!”
Heldy

8.

“Deitar na cama, apagar a luz e tentar dormir é meu pesadelo diário. Mesmo quando tudo está em dia, minha mente vai trazer à tona alguma preocupação descabida.”
Mariana A.

9.

“Passei boa parte da madrugada tentando resolver um problema e controlando os sintomas de ansiedade para que não se desencadeasse um ataque de pânico. Consegui, estou bem, mas será um dia pouco produtivo, já que estarei cansada (viram só? Ansiosos sempre pensam na frente tentando se precaver sobre tudo. Eu já pensei que hoje passarei o dia cansada e nas consequências disto no meu trabalho).”
Patricia

10.

“Eu não durmo, é horrível a ansiedade.”
Ana Carolina

Nas interações sociais

11.

“Adoro pessoas, mas cada evento social é um sofrimento!!! Converso com as pessoas medindo cada palavra que digo por medo de me arrepender, ser inconveniente... Isso exige um esforço enorme!!! E depois, quando volto para casa, fico repassando todo o evento, todas as conversas que tive, procurando se fiz algo errado e que possa me prejudicar, se falei algo que não devia para alguém que vá utilizar dessa informação e me fazer mal. Considerando que eu trabalho dividindo uma sala com outras 13 pessoas, esse controle ansioso é diário.”
Patricia

12.

“Eu sempre fui muito incompreendida pelos meus amigos e famílias, só minha psicóloga me ‘entende’ (uma das razões pela qual eu comecei uma terapia). A maioria acha que é ‘frescura’, que é drama, encenação da pessoa para ter atenção. E não é. É sufocante. Paralisador. Dói muito. Uma dor física, até. Por eu não ter esse entendimento por parte das pessoas perto de mim, acabei me fechando, e passei a sofrer meus ataques de ansiedade/pânico sozinha, o que é muito pior.”
Jordana

Na organização da rotina

13.

“Como minha cabeça não para, preciso "esvaziá-la" dos pensamentos menos urgentes (comprar presente de aniversário do Fulano, responder o convite do Sicrano, molhar as plantas, arrumar o ar condicionado, ir na farmácia, costurar minha blusa, procurar receita de suco verde, responder e-mails) para focar nas tarefas que precisam ser feitas naquele momento, como trabalhar e prestar atenção na aula.”
Patricia, que resolveu se organizar anotando as tarefas no seu chamado “caderninho do ansioso” – “anotar me ajuda a relaxar porque sei que não vou me esquecer de alguma tarefa”

No dia a dia

14.

“É não suportar a demora de alguém querido por mais de 10 minutos sem imaginar os piores cenários possíveis.”
Jessica

No corpo

15.

“Já me gastou alguns dentes devido ao bruxismo. Já se foram algumas unhas. É difícil conviver com a ansiedade, mas o maior passo que já dei foi o de assumi-la. Saber que ela existe e saber que ela está ali, presente na vida para atormentar os pensamentos de vez em quando, até o dia que conseguir controlar.”
Jessica

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