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A surpreendente saída de Boris Johnson da corrida pela liderança da Inglaterra pós-Brexit

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BORIS JOHNSON
Boris Johnson foi traído por principal aliado | Toby Melville / Reuters
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O primeiro sinal de que alguma coisa estava acontecendo foi quando Boris Johnson entrou pela porta dos fundos. Normalmente um ímã de câmeras, a maior das celebridades entre os políticos, ele driblou a mídia que o esperava do lado de fora do luxuoso St. Ermin’s Hotel, em Londres.

Era um lugar tipicamente glamuroso, tão cheio de “bling” político quanto a locação escolhida por Theresa May para lançar sua campanha pela liderança do Partido Conservador britânico: um think tank de segurança a um quilômetro e meio de distância, repleto de livros e exalando seriedade. Na suíte Cloisters, sob lustres enormes, fileiras de apoiadores de Boris e deputados como David Davis, Andrew Mitchell, Nadine Dorries, Robert Buckland e James Cleverley.

Mas faltavam várias figuras importantes. Sir Lynton Crosby, o mestre das campanhas que organizou as duas vitórias de Boris para a prefeitura de Londres e a eleição de David Cameron em 2015, estava ao telefone, numa ante-sala. Boris entrou por uma porta lateral e foi aplaudido, mas alguns integrantes de sua equipe sabiam que alguma coisa estava errada. Não houve uma reunião prévia nem um movimento para reunir as tropas antes do evento de mídia.

Ainda assim, poucos tinham ideia do que estava para acontecer. Em um momento tipicamente Johnsoniano, o estudioso dos clássicos parafraseou Brutus em suas primeiras frases, mas nem todos teriam entendido a referência. Ele falou de “um tempo para não lutar contra a maré da história, mas sim para aproveitá-la no dilúvio e navegar rumo à fortuna”. Em Júlio César, de Shakespeare, o homem que o trai diz famosamente: “Existe uma maré nos assuntos dos homens. Que, tomadas com o dilúvio, levam à fortuna”.

Boris deixou de fora as piadas costumeiras, mas disse que haveria um clímax. Quando pronunciou as palavras fatídicas, sua voz tremia de emoção. Referindo-se à perspectiva de ser primeiro-ministro em um Reino Unido pós-Brexit, ele disse: “tendo consultado colegas à luz das circunstâncias no Parlamento... concluí que não posso ser essa pessoa...”.

Eram 11h53, apenas sete minutos antes do fim do prazo para as indicações de candidatos para a liderança dos conservadores.

O choque foi instantâneo, e o ar foi sugado da sala como se uma bomba tivesse explodido. O tempo quase parou para os presentes, que tiveram de lidar com a realidade estarrecedora de que Boris jamais seria premiê. Dorries estava boquiaberta, e deputados durões logo estavam às lágrimas.

Ao deixar o palco, o estrago era óbvio. E as recriminações começaram imediatamente, com o secretário de Justiça Michael Gove, um dos arquitetos da campanha do Brexit ao lado de Jonhson, como alvo principal. Em vez de ser o administrador da campanha de Boris, como planejado, Gove estava se candidatando ele próprio para a liderança. “É uma traição extraordinária”, me disse um deputado conservador.

“Michael nunca vai ganhar essa eleição. Quando as pessoas perceberem o que ele fez, ele nunca vai ganhar nada.”

Outra deputado acrescentou: “O que Michael Gove fez hoje vai ficar na história política por muito tempo. Ele destruiu sua reputação". Outro afirmou: “‘Fazer um Gove’ vai virar sinônimo de ‘gerrymandering’ (influência ilegal nas eleições), uma frase para entrar no léxico. As pessoas vão esquecer de quem se tratava, mas não o ato em si. Isso vai viver para sempre”.

Mas, para muitos na sede do governo britânico, a traição começou com o próprio Boris, naquele momento no fim de um domingo de fevereiro, quando ele decidiu apoiar a Brexit. David Cameron recebeu uma mensagem de texto apenas dez minutos antes do anúncio.

E, numa ironia deliciosa notada com alegria pelos assessores de Downing Street hoje, Boris nem sequer recebeu uma mensagem o avisando que Gove se candidataria à liderança do partido. Ele e sua equipe só souberam da deslealdade às 9h02, quando chegou o e-mail do secretário de Justiça declarando a candidatura dele -- afirmando que “Boris não pode oferecer a liderança ou construir a equipe para a tarefa que temos diante de nós”. O estilete entrou suavemente em suas costas.

A equipe de Gove diz que ele estava agonizando a respeito da decisão, “lutando com sua consciência” na quarta-feira à noite, diante das dúvidas crescentes sobre a falta de um plano por parte de Boris. Fontes próximas a Boris já responderam, apontando que Gove foi subeditor da infame coluna no Daily Telegraph em que ele sugeriu que a imigração não era uma questão essencial àqueles que votaram pela saída do Reino Unido da União Europeia.

O e-mail vazado da mulher de Gove, Sarah Vine, destacou as dúvidas que ele -- e sua esposa -- tinham acerca de Boris. O e-mail, destinado a um assessor de Gove, teria sido enviado por engano para um relações-públicas de saúde e beleza na agenda de Vine (ela escreve um blog de beleza) que teria o mesmo sobrenome do destinatário original.

Fontes próximas a Gove afirmam que seu aliado de longa data e ex-assessor especial Dominic Cummings ficou furioso com o vazamento e que não se tratou de um estratagema para passar a mensagem de que Gove não confiava em Boris.

Até a noite anterior, assessores de Gove estavam enviando mensagens de texto para pedir que os deputados comparecessem ao lançamento da campanha de Boris. Mas, à 1h, alguns integrantes da equipe de Gove receberam uma notícia chocante: a ministra Andrea Leadsom, integrante chave da campanha da Brexit e suposta aliada de Boris, anunciaria sua própria candidatura. “Andrea provou que Boris não tinha controle de seus números”, disse uma fonte. “Percebemos que ele não tem. Nós percebemos que ele não tem domínio, não tem foco.” Circularam rumores sobre novas revelações sobre a vida privada de Boris.

Mas a primeira regra da política é saber contar.
Apesar de meses tentando conquistar deputados da base conservadora que ele não conhecia, a campanha de Boris para obter aliados no Parlamento não correu como o previsto. Alguns afirmam que ele parecia desinteressado nos jantares. Outros disseram que em alguns casos ele simplesmente não apareceu.

Um deputado pró-Gove disse que Boris tinha conseguido o apoio de apenas 30 deputados, e 70 outros foram conquistados por Gove. A lista impressionava, indo da ala mais liberal e pró-Europa do partido até os tradicionais direitistas eurocéticos. Eles sabiam que Theresa May tinha uma liderança nas associações eleitorais, apesar da suposta popularidade de Boris. E Gove, o queridinho de muitos membros, era visto como a chave para fornecer os números de que Boris precisava. Falava-se muito em uma chapa “Bo-Go”, mas amigos do ex-secretário da educação começaram a perceber que na verdade ela se parecia cada vez mais com “Go-Bo”.

Johnson já estava sendo atacado pelos outros pré-candidatos. Em seu lançamento, Theresa May ridicularizou o acordo de canhões de água com a polícia alemã. Antes, ela havia dito: “Alguns precisam ser informados de que o que o governo faz não é um jogo, é um negócio sério que tem consequências reais para a vida das pessoas”. Boris estava se tornando uma piada, ferido por sua própria incoerência e deslealdade para com Cameron.

O ministro candidato à liderança Stephen Crabb, outra peça importante nas eleições gerais de 2010 e 2015, deu uma alfinetada parecida. Ele disse em seu lançamento na quarta-feira: “Nos campos molhados de rúgbi de West Wales eu aprendi que não é uma questão de apenas esperar a bola pular para fora do scrum. Se você quer, faz o que é necessário”. Naquela manhã, Boris não conseguiu nem segurar a bola, deixando-a escapar por entre seus dedos, tropeçando em sua incompetência e empurrado por trás por um de seus companheiros de equipe.

Uma fonte de Downing Street me disse que o anúncio da renúncia de Cameron era “duplamente trágico” e que ele não mudaria de ideia. “Boris f***u tudo. Ele nunca apoiou a Brexit por princípio, ele só o fez para conseguir a liderança e agora não tem os colhões para ficar e lutar contra Gove.” Especula-se que, se Boris apoiar May, ele pode ser indicado para algum ministério de segunda linha, mas o consenso é que sua carreira política acabou.

Logo após o anúncio chocante, um dos amigos políticos mais próximos de Johnson me disse que Gove “colocou uma bomba embaixo das nossas cadeiras”. Mas outros acham que ele mesmo acendeu o pavio, meses atrás. Quem quer que seja o culpado, Boris finalmente implodiu, e de forma espetacular.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.

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