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Do backstage para o centro do palco: Mahmundi fala sobre inspirações, carreira e 'mulheres que fazem'

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“Dedico esse disco aos 5 jovens que foram mortos cruelmente em dezembro de 2015: Roberto de Souza, 16 anos, Carlos Eduardo da Silva Souza, 16, Cleiton Corrêa de Souza, 18, Wesley Castro, 20, e Wilton Esteves Domingos Junior , 20. Estarei sempre torcendo pra que parem de apagar pessoas com sonhos brilhantes. Vou continuar acreditando num mundo melhor.”

A mensagem acima está presente nos agradecimentos do álbum de estreia de Marcela Vale, sob o codinome Mahmundi (“mundo de Marcela”), lançado este ano.

Os jovens citados foram baleados no carro em que estavam, na comunidade da Lagartixa, na Zona Norte do Rio. Após o crime, quatro policiais foram presos em flagrante por homicídio e fraude processual.

Apesar da realidade áspera do Rio (semelhante à de São Paulo e de outras grandes metrópoles brasileiras), é acreditando nos sonhos com otimismo no olhar que a carioca vem construindo sua carreira.

Nascida em um lar evangélico no bairro de Marechal Hermes, ela teve o primeiro contato com instrumentos musicais dentro da igreja — período de que se recorda com carinho. Lá aprendeu a tocar bateria e guitarra e assimilou o que chama de senso de comunidade. “Para mim, todo jovem deveria ter esse tipo de oportunidade”, afirma.

No final da adolescência, período em que estava “rebelde”, Marcela participou de um projeto da ONG Nóis do Cinema, que profissionalizava jovens para o mercado de audiovisual. Passou a ver novos filmes, conhecer os bastidores técnicos de uma produção e, por fim, se interessar especificamente pelo som direto de uma obra cinematográfica.

Depois de colocar a mão na massa de longas-metragens, curtas e documentários, Marcela passou a trabalhar como técnica de som na Fundição Progresso, local de atuação da ONG. Seu bom rendimento na casa rendeu um convite para integrar a equipe de técnicos do Circo Voador.

Lá ela se deparou com a desconfiança de profissionais mais velhos em relação a uma garota na casa dos 20 anos. “Sofri um pouco de preconceito que tinha muito a ver com a idade. As hierarquias desse mercado não estão nem um pouco desconstruídas”, reclama.

Os bastidores lhe proporcionaram muita troca de ideia sobre música e carreira com artistas do calibre de Cat Power e do duo Air. A ideia de ir para a frente dos palcos tomou impulso em um show da cantora Pitty. Ao ver a qualidade de estrutura do espetáculo, Marcela decidiu que a partir de então arriscaria sua própria carreira musical.

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Quando questionada sobre suas referências musicais, ela responde:

“Eu admiro muito artistas que são músicos. Por isso eu falo muito do Phill Collins, Peter Setera, da Nina Hagen. E acabam sendo todas referências oitentistas. Pra mim, os anos 80 foi um período de muito standard. Não tinha essa coisa de festival. Michael Jackson fazia um show aqui. Madonna fazia um show ali. Phill Collins lá. E todas as arenas ficavam lotadas.”

Desse flerte assumido com a sonoridade eletrônica da década de 1980, ela lançou dois EPs, Efeito das Cores e Setembro.

Com o apoio de produtores tarimbados como Lirinha e Miranda, Mahmundi amadureceu o trabalho, combinou novas referências e abraçou o pop - experiências que resultaram neste seu primeiro álbum. “As músicas dele são pra bater no seu ouvido, irem para a estrada e estarem com você, ser trilha sonora das coisas”, descreve.

Recebido sob elogios pela crítica especializada, Mahmundi (o disco) não é um ponto de chegada para Mahmundi (a artista). “A capa desse disco traz alguém que nem eu me reconheço ainda. E isso é um desafio: ser essa mulher envolvida em um fundo infinito de sol. Porque eu vou descobrir. A gente vai se descobrindo junto”, diz.

Essa “descoberta” tem tomado contornos mais rígidos e talvez menos coloridos desde o começo do ano, quando ela trocou o Rio por São Paulo:

“São Paulo tem me proporcionado muitas experiências. Eu ando por aqui e as luzes da cidade me batem de outra forma. O graffiti, a urgência, a violência e a não violência. A forma como as pessoas pronunciam as coisas, sempre com firmeza. Tenho muito a aprender com essa cidade. Ela está deixando mais forte.”

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Apesar de citar nos agradecimentos de seu álbum os cinco jovens fuzilados pela polícia na Zona Norte do Rio Janeiro, Mahmundi diz que não tem compromisso com militâncias. No entanto, acredita que seu trabalho possa se comunicar com diferentes tipos de públicos e minorias políticas:

“As pessoas falam: ‘Mas as sua música não fala sobre movimentos ou minorias’. Claro que fala. Se está na vida das pessoas. Se as pessoas estão tendo romances, se elas estão sofrendo ou se estão chorando... Eu não preciso dizer: ‘Dessa vez, voz da mulher!’. Não preciso. Quando uma mulher, quando um negro, quando um gay, quando um gordo ou quando uma magra. Enfim, quando as pessoas cantam minhas músicas e se sentem vestidas com um ‘edredom’ de palavras, é isto: o que é preciso já está sendo dito.”

Assista à entrevista completa:

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