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Grupo de teatro só de mulheres fala sobre gênero usando peças de Shakespeare

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TAMING OF THE SHREW
John G. Murdoch (1877) | bycostello photography via Getty Images
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O nome de William Shakespeare é sinônimo de atemporalidade. Nossa curiosidade sobre o próprio Shakespeare perde apenas para o fascínio que nos provocam as palavras ousadas que ele nos legou.

Em Ao Farol, de Virginia Woolf, Sr. Ramsay, sempre preocupado com a permanência de seu legado, reflete que a pedra que ele chuta com seu pé vai viver por mais tempo que Shakespeare.

Claro que não se quer dizer com isso que os temas de Shakespeare tenham vida curta; pelo contrário, Ramsay teme que até mesmo Shakespeare, o escritor mais atemporal que o mundo já conheceu, acabe sendo esquecido um dia.

A eloquência e o humor inteligente do bardo inglês iluminam verdades universais e ternas sobre o que significa ser humano. Os escritores frequentemente utilizam seus escritos como subsídio para criar atualizações modernas, algumas mais bem-sucedidas que outras, mas todas para o desgosto dos puristas shakespearianos.

Quando veio à tona que o Festival Shakespeare do Oregon pediu que dramaturgos vertessem as peças do bardo para o inglês moderno, um colunista do New York Times, James Shapiro, reagiu com desgosto. “Shakespeare tomou a maioria de suas tramas emprestada de outros autores e escreveu para um teatro que só exigia um ou dois acessórios, cenário nenhum e nenhuma iluminação artificial”, ele escreveu.

“A única coisa shakespeariana nas peças de Shakespeare é justamente a linguagem”.

taming of the shrew
Pôster de A Megera Domada, de Shakespeare

Então como podemos encarar as peças mais problemáticas de Shakespeare, complexas porque serem imbuídas de preconceitos e papéis de gênero que eram menos questionados no tempo dele?

Uma solução adotada pela companhia teatral The Queen’s Company, de Nova York, consiste em montar produções de Shakespeare com elenco inteiramente feminino, invertendo a opção histórica de apresentar as peças apenas com atores homens. Rebecca Patterson, que já dirigiu mais de 20 peças com a companhia, incluindo Como Gostais, Noite de Reis e Muito Barulho por Nada, disse ao Huffington Post.

“Eu estava farta de ver um palco cheio de homens brancos sempre que eu ia ver uma peça de teatro clássica, então resolvi mudar isso”.

Muitas das peças que ela já dirigiu com a companhia tratam diretamente de questões de gênero – Noite de Reis envolve uma mulher que se disfarça de homem --, mas não é o caso de todas. O objetivo da diretora não é necessariamente marcar uma posição política em relação ao gênero, mas imbuir as peças de um ar novo e diferente das outras versões mais modernas.

“A mulher contemporânea é mais semelhante ao homem renascentista: forte e íntima, com vida interior expressiva e acessível”, disse Patterson.

“Acho que encenar a peça só com mulheres não muda o sentido do texto. O que faz é libertar a peça da política de gênero simplista, para mergulhar em sua humanidade universal mais profunda.”

Lida literalmente, a peça é um comentário sobre o lugar inferior ocupado pela mulher. Mas uma interpretação mais leniente seria que o texto é um olhar complexo sobre como o controle acaba com o amor romântico – uma história cautelar para misóginos em potencial.

Mesmo assim, é difícil ignorar as implicações políticas da produção mais recente de Patterson, A Megera Domada. Vista como uma das peças mais problemáticas de Shakespeare, ela acompanha os pretendentes que cortejam Catharina, uma mulher “brava, teimosa e cabeçuda sem medida”, e sua irmã, vista como meiga e bela.

Se você não leu a peça (ou, ainda pior, não assistiu ao filme dos anos 1990 que atualiza a história, 10 Coisas que Eu Odeio em Você), conheça o resuminho: Baptista, o pai das meninas, decide que sua filha mais jovem e muito cortejada, Bianca, só poderá se casar depois que Katharina o fizer. Então os pretendentes de Bianca procuram um pretendente para Katharina, prometendo a ele um dote polpudo. É quando Petrúquio entra em cena, inicialmente interessado em Katharina apenas pelo dinheiro.

Ele acaba gostando dela, achando a língua ferina dela uma conquista emocionante – mas primeiro ele a manipula e a faz passar fome. São especialmente difíceis de encarar as cenas em que Petrúquio força Katharina a chamar o Sol de Lua e o monólogo final, em que Katharina se ajoelha diante do marido, oferecendo colocar sua mão debaixo do pé dele.

Lida literalmente, a peça é um comentário sobre o lugar inferior ocupado pela mulher. Mas uma interpretação mais leniente seria que o texto é um olhar complexo sobre como o controle acaba com o amor romântico – uma história cautelar para candidatos a misóginos. De uma maneira ou outra, é impossível saber quais eram as intenções do bardo, e por isso a peça é discutida acaloradamente por feministas.

A interpretação feita por Patterson faz uma contribuição importante para as muitas maneiras em que analisamos A Megera Domada. Nela, Katharina fala em tom de flerte de vez em quando, mas, na maior parte do tempo, é calma, autoconfiante e tranquila, destacando o absurdo das críticas negativas.

Quando Hortênsio diz que Katharina é “intoleravelmente brava, teimosa e cabeçuda sem medida, a tal ponto que, embora meus haveres fossem menores, não a desposaria por uma mina de ouro”, já é uma colocação risivelmente agressiva. Mas, quando a descrição é aplicada a uma mulher que faz pouco senão defender-se com humor inteligente, vira calúnia pura.

Uma coisa que ajuda é que o papel de Bianca é representado por uma boneca inflável e muda. Essa e outras variações criativas de Patterson fazem de sua “Megera Domada” uma versão inteligente, atual e divertida, que inclui música contemporânea que complementa a linguagem original de Shakespeare, que a diretora conserva, na maior parte.

“Gosto de usar música contemporânea em minhas produções clássicas porque isso cria uma ponte entre nosso tempo e o de Shakespeare”, diz Patterson.

“Escolho canções que ilustram alguma coisa sobre a história que é contada. Shakespeare tratou de temas humanos e muito atemporais, os mesmos sobre os quais vamos cantar até o final dos tempos.”

Com muitos dos estereótipos tensos expostos pela peça tendo sido eliminados ou então complicados por canções e novas formas de apresentação, o espectador pode ter uma visão mais clara dos temas mais profundos em jogo.

“Considerando a época em que viveu, Shakespeare pôde iluminar a verdade impalatável de nossos maus comportamentos –mas não estava claro como isso podia ser mudado”, escreveu Patterson em suas anotações de direção.

“Shakespeare me ensinou muito sobre o amor. É minha esperança que esta produção leve as lições dele um pouco mais adiante do que ele pôde, iluminando um caminho a ser seguido rumo a algo melhor.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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