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Urso transgênero em livro infantil ensina que todos têm uma história digna de ser contada

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Quando a esposa de Jessica Walton engravidou, Jessica decidiu procurar livros com personagens e tramas diversos para ensinar ao bebê sobre o mundo.

Como uma lésbica que já fez amputação, Jessica tinha passado a vida procurando -- às vezes intencionalmente, às vezes de modo subconsciente -- livros que a representassem.

Mas cinco anos atrás, quando seu pai saiu do armário e se assumiu como transgênero e Jessica descobriu que ela e sua mulher teriam um filho, ela constatou uma ausência grande de livros para criancinhas sobre a experiência trans. Assim, decidiu criar seu próprio livro.

“Canalizei minha ambição de ser escritora para essa lacuna na área dos livros infantis”, ela disse ao Huffington Post UK. “Já que eu não conseguia encontrar o que procurava, resolvei tentar criá-lo.”

Introducing Teddy ("apresentando Teddy", em português) é uma história encantadora sobre alguém que é fiel a si mesmo. O protagonista é um ursinho de pelúcia transgênero que vira ursinha.

introducing teddy

Dedicado ao pai de Jessica, Tina, e ao filho dela, Errol, o livro tem uma trama muito simples: “Eu escrevi para uma criancinha de 1 ano de idade”.

O livro começa com os personagens principais, Errol e seu ursinho Thomas, fazendo várias atividades juntos, como andar de bicicleta e brincar numa balança.

Depois Thomas vai ficando retraído e fala a Errol que, em seu íntimo, ele sempre soube que era ursinha. Ele diz que quer ser chamado de Tilly.

Errol aceita a decisão sem se abalar e os dois continuam a brincar juntos, como antes.

“Eu quis mostrar que Tilly fez a transição para o gênero feminino, mas que nada mudou”, explicou Jessica.

Para deixar claro o que mudou, usando apenas um símbolo visual simples, Tilly tira a gravata-borboleta do pescoço e a coloca no cabelo.

Jessica Walton disse ao HuffPost UK que queria evitar a estereotipagem de gênero e que tomou cuidado para não dar ênfase demais à aparência. Assim, quando Tilly resolveu colocar o laço no cabelo, uma personagem menina, Ava, resolve tirar o laço que usava.

“Quisemos transmitir a mensagem de que as pessoas podem e devem vestir e usar o que quiserem. Devemos vestir o que nos deixa felizes”, disse Jessica.

A história guarda semelhança com o modo como ela própria aceitou a transição de seu pai. Mas Jessica admite que, inicialmente, não foi fácil adaptar-se à mudança.

“No final, você percebe que seu relacionamento com seu pai ou sua mãe não se baseia no que eles vestem, como é a aparência deles ou qual é seu nome: é baseada no amor, na história de vocês e em todo o carinho e atenção que eles lhe deram ao longo de anos. isso pesa muito mais que a identidade.”

introducing teddy

Introducing Teddy foi publicado de maneira independente, por meio de financiamento coletivo levantado no Kickstarter, mas agora seus direitos de publicação estão sendo comprados em todo o mundo. O sucesso do livro demonstra a demanda que existe por diversidade maior nos livros infantis.

É importante que as crianças tenham acesso a livros que refletem sua própria vida. Além disso, a literatura é a oportunidade perfeita para ensinar a elas sobre o mundo maior.

“Sabemos que as coisas que as crianças veem e ouvem na mídia as ajudam a entender como o mundo funciona e perceber quem e o que é valorizado em nossa sociedade”, disse Nick Harrop, gerente de campanhas da YoungMinds, ao HuffPost UK.
“Se as crianças não veem sua própria aparência ou capacidades refletidos na mídia quando estão crescendo, isso pode prejudicar sua autoestima, seu senso de seu próprio valor e o orgulho que sentem em ser quem são.”

Walton conhece de primeira mão o impacto profundo de enxergar-se na mídia.

“Os livros que temos em nossas estantes não refletem a diversidade real da vida. Quando sua própria história não existe, isso transmite uma mensagem forte sobre o lugar que você ocupa no mundo”, ela disse. “Como uma pessoa lésbica e deficiente física, sei bem como é maravilhoso quando me vejo refletida em um livro.”

jessica walton
Jessica Walton, autora de Introducing Teddy

BJ Epstein, professora de literatura na Universidade de East Anglia, sempre procurou livros para sua filha que refletissem a família delas, “com duas mamães”. Ela também acredita que todas as crianças se beneficiam se são expostas a histórias diferentes por meio da literatura.

“No caso das crianças que não têm duas mães, só vai ser benéfico ler sobre outros tipos de arranjos familiares. Se elas souberem que é totalmente normal ter duas mães, terão menos chances de caçoar ou atormentar alguém que tenha uma família diferente da delas”, ela disse ao HuffPost UK.

“As crianças na realidade são bastante abertas. São os adultos que vivem tentando protegê-las e não deixar que elas tenham acesso a certas informações.”

Jessica Walton pensou inicialmente em escrever Introducing Teddy como um livro para pessoas que tivessem um transgênero na família ou para crianças que fossem trans, elas próprias. Mas, depois de montar sua campanha no Kickstarter – que levantou mais que o dobro do valor pretendido, de 10.500 dólares australianos --, ela percebeu que a base potencial de leitores era muito maior do que apenas a comunidade transgênero.

“De repente percebi que mesmo pessoas que não conhecem muitos transgêneros queriam ler o livro”, ela contou. “Foi tudo muito inesperado e maravilhoso.”

Se a demanda é tão grande, por que ainda temos tão poucos livros desse tipo?

Diana Gerald, executiva-chefe da Book Trust, a maior organização beneficente britânica que promove a leitura, explicou: “O mundo editorial tem muita consciência da necessidade de mais diversidade nos livros infantis, e hoje estamos vendo muito mais personagens diversos nas histórias do que havia 50 anos atrás”.

Gerald acha que ainda é preciso fazer muito mais, não apenas para garantir que mais livros desse tipo sejam publicados, mas para divulgá-los e disponibilizá-los ao público.

As escolas oferecem às crianças uma gama grande de livros, mas nem todos os escolares têm acesso igual a livros diversos.
O Departamento de Educação britânico recomenda que as escolas “incentivem entre os alunos o hábito da leitura de uma ampla gama de obras” e subsidia as bibliotecas escolares, mas não define listas de leitura. O currículo da escola secundária define períodos e gêneros literários, e os órgãos que redigem as provas para os certificados de conclusão do ensino secundário definem textos específicos para as provas.

Um porta-voz do Departamento de Educação disse ao HuffPost UK: “Queremos que os alunos aprendam a apreciar todos os livros, e o currículo nacional deixa claro que as escolas devem incentivar os alunos a ler uma gama ampla de materiais.”
“Não prescrevemos listas de leitura para as escolas, porque consideramos que os professores são os que estão mais bem posicionados para escolher os livros e poemas que vão inspirar seus alunos”.

Para Diana Gerald, as recomendações são vagas demais.

“Espera-se que as escolas tenham bibliotecas, promovam a leitura e ‘definam expectativas ambiciosas de leitura’ para os alunos fora da sala de aula, mas não há uma orientação sobre exatamente o que isso é e como pode ser alcançado”, ela explicou.

“O currículo cita escolhas independentes e leitura ampla, mas isso parece não condizer com a mensagem muito clara de preferência aos clássicos da literatura e à literatura de origem inglesa.”

Gerald considera os clássicos “maravilhosos”, mas acha que nem sempre são adequados, especialmente para alunos que não gostam muito de ler.

“Se queremos que os jovens aprendam a gostar de ler, precisamos tornar a leitura o mais acessível, relevante, interessante e divertida possível.”

Por sorte, não faltam muitos recursos fantásticos para ajudar pais, professores e outros que queiram oferecer material de leitura mais diverso às crianças.

A Little Parachutes oferece uma maneira simples de procurar por livros infantis que tratem de situações e questões vividas pelas crianças pequenas. Cada tópico recebe um tag, de modo que, olhando na biblioteca, é fácil encontrar livros que tratam de temas como compartilhar, mudar de casa ou ir ao médico. Também há livros sobre situações mais difíceis, como a perda de um ente querido, a adoção, o divórcio dos pais ou uma doença grave na família.

A Letterbox Library é um banco de dados de livros infantis multiculturais, sobre igualdade de gêneros e questões especiais. Os fundadores dizem que muitos usuários vão ao site à procura de livros que sejam “incidentalmente inclusivos” – ou seja, em que a diversidade não seja a parte principal história, mas que simplesmente um personagem tenha uma deficiência física, por exemplo.

A Book Trust oferece vários recursos de inclusão: a seção de Favoritos é para qualquer pessoa que procure informações, livros ou conselhos relacionados à deficiência física e livros infantis, além de incluir um livro Favorito do mês. A ferramenta Book Finder traz listas de livros inclusivos, e a organização também oferece conselhos a escritores sobre como incluir mais material positivo em livros infantis e como tornar os livros infantis o mais genuinamente inclusivos possível.

Introducing Teddy foi lançado no Reino Unido pela editora Bloomsbury em junho de 2016.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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