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Eu descobri qual é a única coisa que os ativistas 'antiaborto' não suportam ouvir

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Nas manhãs de sábado, eu acompanho jovens que estão muito apreensivas até as portas de uma clínica de saúde da mulher na cidade de Nova York.

Observo as mulheres virarem a esquina, se preparando mentalmente para atravessar a multidão de ativistas antiaborto (!) que seguram cartazes enganosos de supostos fetos abortados.

Vejo namorados protetores (ou amigos ou irmãos) segurarem as mãos das mulheres que estão indo à clínica em um gesto de apoio e solidariedade. Ouço mães e avós dizerem: “Vocês nem sabem que p**rra estão fazendo aqui.”

No fim do meu turno de quatro horas de voluntariado na clínica de saúde da mulher, fui chamada de “bárbara”, “obscena” e “vergonhosa” por um pastor e seus comparsas.

Mais do que tudo, fiquei cara a cara com misóginos cambaleantes inteligentemente disfarçados de protetores da vida humana.

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Manifestantes antiaborto na cidade de Boston, em 2006.

Talvez por causa do fim de semana do feriado do “Memorial Day”, aquele sábado foi calmo na clínica, com longos intervalos entre um paciente e outro. Isso significou muito tempo sem fazer nada, e uma oportunidade para os voluntários conversarem com os manifestantes.

Esses manifestantes, ou “antis”, em frente a esta clínica em particular de Nova York são todos membros da mesma igreja no Brooklyn. Toda semana, chegam de carro para ficar plantados do lado de fora da clínica e gritar com as mulheres.

Há um homem que gosta de ficar em frente à entrada da clínica e gritar — para que seja escutado na sala de espera — o que ele considera serem argumentos lógicos e intelectuais contra o aborto, mas que, na verdade, são fragmentos com informações incorretas e extremamente equivocadas de sua imaginação hiper-religiosa.

Evito ao máximo me comunicar com os ativistas antiaborto — especialmente este. Não estou lá por ele; estou lá pelas pacientes. Estou lá pelas mulheres que estão tentando acessar serviços de saúde constitucionalmente protegidos, e que podem precisar de uma barricada entre seus corpos e as pessoas que aparecem para insultá-las.

Mas, como um grupo de voluntários ficou parado em uma fila em frente à entrada naquele fim de semana, fazendo o possível para abafar o som do clamor incoerente e cientificamente impreciso desse homem, começamos a falar sobre preservativos.

Admito que nunca tinha realmente visto um preservativo feminino, e outra voluntária trouxe à tona o tema dos preservativos aromatizados. Nós usamos? O que vocês acham deles? Alguns sabores são melhores do que outros?

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Curiosamente, foi essa conversa — não as muitas mulheres entrando para fazer abortos, mamografias, colocar DIUs ou receber injeções de Depo-Provera, mas um grupo de mulheres discutindo sexo seguro — que deixou esses manifestantes mais frustrados.

O homem que grita na entrada da clínica, ao ouvir um grupo de mulheres falar sobre preservativos, se voltou para seus companheiros de manifestação para reclamar sobre o tema de nossa discussão. Nós — acompanhantes da clínica, também conhecidas como “incentivadoras de assassinato e barbárie — estávamos agora falando de “OBSCENIDADES e LIXO”.

Uma colega voluntária tentou começar um debate educado com o homem.

“Você não deveria apoiar conversas sobre sexo seguro se é antiaborto?”, perguntou.

“Não me sinto confortável em falar com você sobre isso”, ele respondeu. “Se você quiser falar sobre isso, converse com uma das mulheres", completou.

E minha colega voluntária assim o fez. Aproximou-se de uma manifestante antiaborto e perguntou: “Como você se sente em relação às mulheres que falam sobre educação sexual?”.

A manifestante respondeu: “Acho que as mulheres deveriam manter suas pernas fechadas”.

Pouco tempo depois, à medida que continuávamos conversando sobre preservativos sabor de banana, de certa forma repelimos os manifestantes, que se calaram.

Esses manifestantes antiaborto não têm o menor problema em utilizar uma linguagem medonha quando se trata de gritar nos centros de saúde que, supostamente, “assassinam” ou “esquartejam bebês”.

Mas, a palavra “preservativo”, de certa forma, é mais chocante, talvez porque a discussão sobre a camisinha reconheça que as mulheres podem — e fazem — sexo sem intenção de procriar.

Ironicamente, falar sobre sexo seguro é algo que pode, na verdade, servir à cruzada desses manifestantes para o fim dos abortos. Mas eles se recusam em reconhecer que, sem o acesso a uma clínica como a que eles passam seus fins de semana gritando na porta, as mulheres vão se encarregar de fazer os próprios abortos de formas muito mais terríveis.

É só perguntar às mulheres do Texas, onde cerca de 100 mil a 240 mil tentaram fazer seus próprios abortos depois do impacto da HB2 — lei promulgada em 2013 no estado do Texas, que obrigava clínicas de aborto a equipar suas instalações com os mesmos padrões de mini-hospitais, o que levou ao fechamento de vários centros. Em 6 de julho, a Suprema Corte dos EUA deu parecer favorável a um processo movido contra a HB2).

Quando o acesso ao aborto é limitado, os abortos não desaparecem. Eles simplesmente se tornam muito, muito mais perigosos.

Depois de um pequeno debate sobre preservativos de banana, os cartazes e panfletos foram guardados. O tempo dos parquímetros se esgotou. Os manifestantes antiaborto foram embora, quietos e, aparentemente, contrariados.

As mulheres ficaram livres para entrar na clínica, sem ser perturbadas.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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