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Linchamento, impeachment e escola sem partido: Historiador mostra como está tudo conectado

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LEANDRO KARNAL
Karnal analisa conjuntura política atual e confronta com História do Brasil | WikiCommons
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Historiador e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Leandro Karnal vê a tradição de violência no Brasil como combustível tanto para conflitos pessoais quanto nos processos políticos do País. Para ele, episódios de linchamento têm raiz em um ódio diluído que evita a reflexão e abre espaço para pensamentos extremistas e preconceituosos, como racismo, homofobia e misoginia.

Autor de livros de educação e História, Karnal acredita que o processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff pode ser considerado golpe ou não, dependendo da interpretação legal escolhida.

O HuffPost Brasil separou os principais trechos da entrevista do historiador no programa Roda Viva exibido em 4 de julho.

Linchamento

"O linchamento ocorre de várias formas. Historicamente ele é uma resposta desse ódio diluído, capilarizado, atomizado, quando eu acho que o Estado não está funcionando. Ele significa uma lei do talião, que a Bíblia incorporou, o 'olho por olho, dente por dente', que provavelmente representa a noção mais elementar de justiça entre as pessoas. (…) Essa lei absoluta está na cabeça das pessoas de tal forma que as pessoas acham que é justiça o que é vingança. Toda pessoa que perde um filho num tiroteio vai à televisão e diz 'eu quero justiça'. Ela quer vingança. A justiça é um fenômeno absolutamente secundário."

Violência

"Nossa tradição é de violência. A violência da escravidão, a violência social. É o que ocorreu [na revolta] em Canudos, na Guerra do Contestado. A repressão à Revolta da Vacina mostra uma capacidade de violência no Brasil assustadora. (…) As pessoas são adeptas de uma violência muito grande. Nosso trânsito é um dos mais fatais do planeta Terra. (…) Somos uma sociedade ainda de privilégios que interpreta que a lei só pode ser aplicada quando você não tem força ou quando não é digno de um grande advogado."

A cadela do Fascismo

"Somos um País que ainda precisa construir a luta contra o preconceito, contra a misoginia, contra a violência contra as mulheres, contra a violência do racismo. Ainda temos muitos pontos a construir. Eu sou um otimista melancólico. Sou otimista porque já estivemos piores. Sou melancólico porque de fato, como disse [o dramaturgo Bertold] Brecht, a cadela do fascismo está sempre no cio. Ela está sempre sugerindo intervenção militar. Está sempre dizendo que a mulher apanhou porque merecia, que a fulana foi estuprada porque levava uma vida leviana."

Terra do golpe

"Nós nunca tivemos uma guerra civil. Dez anos de Revolução Farroupilha, Balaiada, Sabinada, Cabanagem, separação de São Paulo em 1932, nada disso foi guerra civil. Todas são revoltas, regenciais, etc, com bons motivos. O Estado brasileiro é uma sucessão de golpes desde 1889 pelo menos. Para não lembrar que a independência foi um golpe. A [declaração da] maioridade [do Brasil] em 1840 foi um golpe. [A proclamação da República em] 1889 foi um golpe. 1881 foi outro golpe, nesse caso [o presidente] Floriano Peixoto. [A revolução de] 1930 foi um golpe. [A ditadura de] 1937 foi um golpe e Getúlio foi derrubado em 1945 por um golpe. Ou seja, nós somos a terra do golpe. Isso é uma tradição. É uma tradição de violência."

Impeachment é golpe?

"Se você quiser, é. Se você não quiser, não é. É uma interpretação da lei. A lei deve ser interpretada porque o julgamento de um presidente ou de um vice-presidente é um julgamento político. Decidir se o que foi feito em relação ao orçamento pela presidente Dilma é suficiente para o afastamento é uma opção política."

'Viva Temer'

"Nesse mundo em que a felicidade pública e a ética publica entraram em colapso, a família e a autoajuda entraram em ascensão. (…) A família é hoje provavelmente o único motivo pelo qual se morre no Ocidente. Aqui no Ocidente ninguém mata mais por religião, não se tem mais o Estado. É inconcebível hipoteticamente numa guerra do Brasil contra um país vizinho alguém se atirar num porta-aviões estrangeiro gritando 'viva Temer' ou 'viva Dilma'. Morrer pelo Estado hoje e uma coisa inconcebível."

Coxinhas x petralhas

"O problema da polarização é que ela não pensa. A polarização adjetiva. No momento que eu digo que você é petralha ou coxinha, eu deixo de pensá-lo como um ser humano dialético, contraditório, orgânico, em evolução, e paro de discutir as suas ideias e apenas te rotulo. A polarização é burra. Mas ela vem acompanhada de uma coisa ainda pior, que é a vontade de eliminar o oponente. Ou seja, nem te escuto. Nem quero saber o que você tem a dizer."

Nosferatus online

"Surgiram nas redes sociais posts de uma extrema direita. Não só conservadores. O conservadorismo é um traço da maioria das pessoas. São posts francamente adeptos à intervenção militar, à diminuição dos direitos sociais. Eles surgiram ou sempre estiveram ali. Eram uma espécie de doença que nós tínhamos controlado. É possível que a internet deu voz a muitas figuras das sombras, a muitos Nosferatus que rastejavam como ácaros e bolores por aí e de repente tiveram chance de se pronunciar."

Escola sem partido

"Escola sem partido é uma asneira sem tamanho, uma bobagem conservadora... Coisa de gente que não é formada na área e que decide ter uma ideia absurda, que é substituir o que eles imaginam que seja uma ideologia em sala de aula por outra ideologia. Não existe escola sem ideologia. Seria muito bom que um professor não impusesse apenas uma ideologia e que abrisse caminho sempre para o debate. Mas [escola sem ideologia] é uma crença fantasiosa de uma direita delirante e absurdamente estúpida de que a escola forma a cabeça das pessoas e que esses jovens saem líderes sindicais. Os jovens têm sua própria opinião. (…) A demonização da política é a pior herança dessa ditadura militar, que além de matar seres humanos ainda provocou na educação um dano que vai se arrastar por mais algumas décadas."

Filhos

"Tem um certo grau de otimismo, mais do que de ingenuidade [para ser feliz]. O mundo tem 7 bilhões de pessoas. Não dá pra dizer, especialmente quando você for ao metrô da Praça da Sé (São Paulo), às seis da tarde, que nós estejamos com carência de pessoas. O mundo está superlotado. Se o mundo fosse reduzido à metade, ainda assim, estaria superlotado. Um filho é uma aposta na esperança, mas a felicidade se define, em geral, por apostas em coisas não racionais. Um filho nunca será um investimento que vai dar retorno. Como capital investido, ele é um desastre. O total de investimento será para que na adolescência ele te acuse de ser um monstro e vá depois para o terapeuta dizer que você estragou a vida dele. Então por que as pessoas têm filhos? É um mistério. Uma aluna me deu uma pista. Ao ter o primeiro filho, ela me disse 'eu não sabia que tinha tanto amor dentro de mim'. O filho se tornou um instrumento de conhecimento do seu potencial de entrega. Não dá certo, mas é bonito tentar."

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