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Ele fugiu do Boko Haram na Nigéria. E morreu num ataque racista na Itália

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BOKOHARAM
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Um homem nigeriano que recentemente escapou a violência do grupo extremista Boko Haram morreu após ser espancado na Itália nesta semana, enquanto tentava defender sua mulher de comentários racistas.

Emmanuel Chidi Namdi, 36, e sua mulher, Chimiary, 24, estavam caminhando nas ruas da cidade de Fermo, no centro-norte da Itália, nesta terça-feira (5) quando um homem chamou Chimiari de "macaca" e tentou agarrá-la, segundo o padre Vinicio Albanesi, amigo do casal.

Namdi interveio e houve então uma briga entre ele e o agressor. O nigeriano entrou em coma e foi declarado morto na quarta-feira (6).

Amedeo Mancini, italiano de 38 anos e membro de uma gangue de torcedores de futebol extremistas, foi preso na quinta-feira (7), sob suspeita de ser o assassino de Namdi. Mancini disse aos investigadores que insultou o casal porque pensou que eles estivessem roubando um carro. Além disso, ele disse que agrediu Namdi em "legítima defesa", segundo o HuffPost Itália.

O relato de Chimiary, no entanto, é bem diferente: Em seu depoimento, ela contou que Mancini espancou seu marido com uma placa de trânsito e continuou a agredi-lo mesmo quando ele estava deitado no chão, já inconsciente.

Os dois estavam casados há apenas seis meses, mas sua história de amor já havia começado há tempos. A ideia inicial do casal era de celebrar a união na Nigéria, mas a igreja que eles frequentavam foi atacada pelo grupo extremista Boko Haram.

Segundo a Cruz Vermelha Italiana, Chimiary estava grávida e pensou que a Nigéria não seria um lugar seguro para dar à luz. Além disso, vários parentes do casal foram mortos pelo Boko Haram.

Durante a jornada até a Europa, os dois precisaram atravessar desertos no Níger e na Líbia, além de cruzar o Mar Mediterrâneo. Eles foram perseguidos e espancados por traficantes, e Chimiary perdeu o bebê.

Em Fermo, eles foram acolhidos por uma igreja católica, e em janeiro deste ano finalmente conseguiram se casar - informalmente, pois não tinham mais os documentos necessários para um casamento formal.

A morte de Namdi repercutiu entre os políticos italianos e pôs em pauta, outra vez, os frequentes episódios de racismo e xenofobia que afetam refugiados e imigrantes.

Durante uma visita à cidade, o ministro do Interior, Angelino Alfano, disse que "a semente do racismo deve ser parada antes que dê frutos". Além disso, ele anunciou que Chimiary vai ganhar o status de refugiada na Itália. "A Itália não é representada por Amadeo Mancini".

"Hoje o governo está em Fermo com o Padre Vinicio e as instituições locais em memória de Emmanuel. Contra o ódio, o racismo e a violência", comentou o premiê Matteo Renzi em sua conta no Twitter.

O prefeito da cidade Paul Calcinaro disse que a morte do refugiado é "um pesadelo" e condenou o "racismo que não pode e não vai, sob hipótese alguma, encontrar espaço na nossa cidade"

Na noite de quarta, centenas de pessoas de reuniram em Fermo para homenagear Namdi. Chimiary cantou uma música nigeriana, que fala sobre luto.

"Deus, onde você está? Por que você me deixou neste mundo mau? É muito doloroso para mim ficar só... É melhor para mim tirar minha vida para que possamos ficar juntos".

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