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Como diminuir suas chances de ser baleado pela polícia nos EUA

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BLACK LIVES MATTER
Pacific Press via Getty Images
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Se você estiver nos Estados Unidos da América, pode acabar tomando um tiro da polícia.

Não importa se você morar num lugar que considera seguro: vítimas da polícia não são necessariamente atingidas em cidades com altos índices de criminalidade. Pode acontecer em qualquer lugar, de Honolulu, no Havaí, a Washington, a capital do país.

Depois de assistirmos Alton Sterling e Philando Castile sendo mortos pelas mãos da polícia esta semana, pensamos em explicar rapidamente como diminuir suas chances de ser baleado pela polícia.

Eis nosso mini guia, em dois passos simples.

1. Não seja negro

O The Washington Post calculou que a polícia matou 990 pessoas a tiros nos Estados Unidos no ano passado, ou uma pessoa a cada oito ou nove horas. Essas mortes superam nossos piores anos de linchamentos (161 negros foram linchados em 1892) ou de execuções de penas capitais. Este ano, vamos alcançar ou passar o número de 2015, com 509 mortos a bala pelas mãos da polícia até hoje.

As vítimas são desproporcionalmente negras. O levantamento do The Washington Post indica que, dos homens desarmados mortos a tiros pela polícia no ano passado, 40% eram negros – apesar de os negros representarem apenas 6% da população. O The Guardian, também analisando dados de 2015, aponta que jovens negros tinham nove vezes maior probabilidade de serem mortos por policiais.

O The Washington Post relata que, “na maioria dos casos em que a polícia matou a tiros uma pessoa que havia atacado outra com uma arma ou tinha exibido ostensivamente uma arma, a pessoa baleada era branca. Mas um número muito desproporcional dos mortos que demonstraram comportamento menos ameaçador – 3 em 5 – eram negros ou hispânicos”. O jornal acrescenta que um quarto dos mortos tinham doenças mentais ou passavam por crises emocionais.

Todas as reportagens sobre violência policial levam muitas pessoas a apontar para as estatísticas que indicam que negros cometem muito mais crimes que brancos – mas a história real tem mais nuances. Estatísticas do FBI sugerem que negros têm maior probabilidade de serem condenados por crimes violentos, mas negros são presos, condenados e sentenciados em números desproporcionalmente maiores. Um levantamento indica que metade dos negros entrevistados, incluindo 6 de cada 10 homens negros, disseram ter sido tratados injustamente pela polícia por causa de sua raça, em comparação com 3% dos brancos. Também há um histórico comprovado de punições mais severas para negros americanos que cometeram os mesmos crimes que brancos.

2. Considere se mudar para outro país

Mais pessoas morreram pelas mãos da polícia americana nos primeiros 24 dias do ano passado que nos últimos 24 anos na Inglaterra e no País de Gales. E este é apenas um exemplo.

Seja por causa da nossa afinidade com as armas, pelo nosso medo de que todo mundo esteja armado ou pela falta de treinamento adequado da polícia, muitos americanos não ficam surpresos ao ver as notícias de violência armada entre civis e policiais.

Em muitos outros países democráticos e desenvolvidos, confrontações violentas entre cidadãos e policiais têm resultado diferente.

Somente um mês depois dos ataques terroristas em Paris, policiais londrinos se viram diante de um homem armado com uma faca. Eles pediram para o suspeito largar a faca e depois o dominaram com um Taser. Naquela mesma semana, num incidente semelhante em San Francisco, o suspeito teve um destino diferente:

Atenção: o vídeo abaixo tem violência gráfica.

Entre 1º de janeiro e 1º de setembro do ano passado, a polícia britânica tinha matado uma pessoa. Nos Estados Unidos, o total era de 776 no mesmo período. Jerome Karabel, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, observou no ano passado

Trata-se de um nível de violência policial que é simplesmente inimaginável em qualquer outra democracia rica; na Alemanha, em 2012, sete pessoas foram mortas pela polícia; na Inglaterra, apenas uma de 2013 a 2014. E no Japão, um país de 126 milhões de habitantes que é tão pacífico como os Estados Unidos são violentos, não houve mortes pelas mãos da polícia nos últimos dois anos.

Se você acha que a polícia tende a atirar em civis em áreas de alta criminalidade, considere este dado: não há correlação entre violência policial e violência na comunidade, segundo o Campaign Zero, grupo que atua no combate à brutalidade da polícia.

“Para nós foi bem simples. Estamos escutando esses argumentos, sem nenhum dado ou evidência, de pessoas que dizem que a polícia está matando tanta gente – negros, em particular – porque dizem que negros moram em comunidades com altos índices de criminalidade e potencialmente estão envolvidos em atividades criminosas”, disse no ano passado Samuel Sinyangwe, membro da equipe de planejamento da Campaign Zero.

Policiais raramente são indiciados pelas mortes, embora nos anos recentes mais acusações tenham surgido ultimamente graças a registros de smartphones. Dos poucos policiais formalmente acusados na última década, apenas um terço foi condenado.

Se você é um negro americano em 2015, tem todas as razões para se perguntar por que virou alvo.

É claro que fácil policiar uma comunidade e carregar uma arma não é tarefa fácil.

“Todo policial aprende que nas ocorrências de rua – seja um furto ou uma multa de trânsito – sempre há uma arma envolvida, pois você está armado. Toda ocorrência é uma situação com armas”, disse ao The Huffington Post Bill Johnson, diretor-executivo da Associação Nacional das Organizações de Polícia. “Esses homens e mulheres não vêm de Marte, eles são vizinhos, são jovens com quem você cresceu. Eles tentam fazer o melhor em um emprego muito difícil.”

Pode ser verdade, mas não justifica a morte desses dois homens – e de tantas outras pessoas – pelas mãos de pessoas que juraram protegê-las.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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