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Antidepressivos tomados por crianças são ineficazes, sugere estudo

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Os antidepressivos, quando receitados para crianças, são em grande medida ineficazes, sugere uma pesquisa.

Uma revisão das evidências obtidas em ensaios clínicos concluiu que, de 14 medicamentos antidepressivos, apenas um, a fluoxetina – vendida com o nome de marca Prozac – teve efeito melhor que um placebo no alívio de sintomas de crianças e adolescentes com depressão grave.

Outro fármaco, venlafaxina, teria sido associado a “um risco aumentado de pensamentos suicidas e tentativas de suicídio”.

O professor Peng Xie, membro da equipe de pesquisadores da Universidade Médica de Chongqing, na China, disse, segundo a PA: “Quando se pesam os riscos e benefícios dos antidepressivos no tratamento da depressão grave, esses fármacos não parecem oferecer uma vantagem clara no tratamento de crianças e adolescentes, com a exceção provavelmente única da fluoxetina”.

Mas os autores do estudo destacaram que “a verdadeira eficácia e segurança dos antidepressivos” tomados por crianças ainda é incerta.

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Os pesquisadores fizeram uma revisão de todos os ensaios clínicos publicados e não publicados que analisam os efeitos de 14 antidepressivos sobre crianças e adolescentes com depressão grave, até o final de maio de 2015.

A análise de 34 ensaios envolvendo 5.260 pacientes com idade média de 9 a 18 anos concluiu que apenas no caso da fluoxetina é que os benefícios pesaram mais que os riscos, em termos de eficácia e tolerabilidade.

A nortriptilina se mostrou menos eficaz que sete outros medicamentos e que o placebo, enquanto a imipramina, venlaflaxina e duloxetina foram os antidepressivos menos bem tolerados.

Comparada ao placebo e a cinco outros fármacos, a venlafaxina foi vinculada a um risco maior de tentativas de suicídio ou pensamentos suicidas.

Devido à ausência de dados confiáveis, os pesquisadores disseram não ser possível realizar uma análise abrangente do risco de suicídio e pensamentos suicidas envolvendo todos os fármacos.

Apenas 65% dos ensaios clínicos foram financiados por empresas farmacêuticas. Dez ensaios foram considerados como tendo alto risco de viés, enquanto em 20 deles esse risco foi avaliado como moderado. Apenas no caso de quatro ensaios é que o risco de um resultado enviesado foi avaliado como sendo pequeno.

Os pesquisadores recomendaram que crianças e adolescentes que tomam antidepressivos sejam monitorados de perto, independentemente dos medicamentos que lhes tenham sido receitados, especialmente no início do tratamento.

Comentando o estudo, Nick Harrop, gerente de campanhas da organização Young Minds, disse ao Huffington Post UK: “É crucial que as crianças e seus pais disponham de informações completas sobre os possíveis efeitos dos antidepressivos, para que possam tomar decisões fundamentadas sobre o tratamento.”

“O ensaio diz que a fluoxetina pode ser eficaz no alívio dos sintomas da depressão em crianças e adolescentes, e, seguindo as diretrizes do NICE (Instituto Nacional de Excelência na Saúde e no Atendimento Clínico), ela é o principal antidepressivo que os médicos devem prescrever para menores de 18 anos.

“Quando antidepressivos são prescritos, eles nunca devem ser o único recurso. O tratamento sempre deve incluir terapia psicológica ao lado da medicamentosa, para assegurar que a pessoa tenha as melhores chances de recuperação.”

Nitin Shori, diretor médico do serviço de médico online da Pharmacy2U, disse ao HuffPost britânico: “A saúde mental de crianças e adolescentes é uma questão carregada de emoções que afeta muitas famílias e muitos menores, e esta pesquisa reforça a necessidade de um entendimento melhor da questão.

“O consenso atual entre os profissionais médicos que tratam de crianças e adolescentes com problemas de saúde mental é que os antidepressivos podem ser úteis para dar apoio a pacientes com depressão moderada a grave.

“Diferentemente do tratamento de condições físicas, como por exemplo a hipertensão, é difícil medir os benefícios do uso de antidepressivos por pacientes individuais com problemas de saúde mental.

“Recomendo a qualquer pessoa que tenha alguma dúvida sobre o regime medicamentoso seguido por ela ou por um membro de sua família que procure orientação médica.”

Em janeiro de 2016, pesquisadores dinamarqueses descobriram que crianças às quais determinados antidepressivos são receitados podem apresentar o dobro do risco de suicídio e comportamentos agressivos, sugeriu um estudo novo.

Pesquisadores recomendaram que seja reduzido ao mínimo o uso de inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRSs) e dos inibidores seletivos da recaptação da serotonina e noradrenalina (ISRSNs) para combater a depressão em crianças, já que os possíveis efeitos prejudiciais podem pesar mais que os benefícios.

Mas os pesquisadores também ressaltaram que não existem dados disponíveis suficientes sobre pacientes para avaliar plenamente o risco real de todos os efeitos colaterais graves associados.

Na época, Stephen Buckley, diretor de informações da entidade beneficente de promoção da saúde mental Mind, disse ao HuffPost Reino Unido que os pais precisam lembrar que medicamentos sempre devem ser tomados conjuntamente com terapia.

“As diretrizes atuais do NICE sobre o tratamento de depressão moderada a grave indicam que os antidepressivos só devem ser oferecidos em conjunto com terapia falada e com salvaguardas adicionais para averiguar quaisquer reações adversas aos medicamentos, incluindo o surgimento de sentimentos agressivos ou suicidas”, ele disse.

“Os pais ou cuidadores devem participar das discussões sobre a escolha de tratamentos e devem ser informados sobre quaisquer riscos.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo The Huffington Post UK e traduzido do inglês.

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