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Escola municipal Nelson Mandela fala de racismo com as crianças e inspira ensino transformador

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ESCOLA NELSON MANDELA
Diretora Cibele Araújo incentiva debate sobre racismo | Reprodução/Facebook
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Existe idade para se discutir questões étnico-raciais? E preconceito?

Para Cibele Araújo Racy, diretora de uma escola municipal para crianças de 4 a 5 anos de São Paulo, localizada no bairro do Limão, na zona norte, racismo se discute desde criança.

A unidade de ensino, chamada anteriormente de Guia Lopes, teve o nome mudado para Nelson Mandela, em homenagem ao ativista e ex-presidente da África do Sul, morto em 2013.

A mudança de nome, feita neste ano, foi resultado do empenho de Racy, que conseguiu quase 20 mil assinaturas em um abaixo-assinado criado na plataforma Change.org, e convenceu os vereadores e o prefeito Fernando Haddad a homenagear o líder negro.

A alteração foi uma importante reafirmação da proposta pedagógica da escola. Em 2011, a unidade foi alvo de racismo ao intensificar as atividades de ensino de História e Cultura Africana. Em um dos ataques, o muro foi pichado com a frase "Vamos cuidar do futuro de nossas crianças brancas". Em 2012, foi pichado "preserve a raça branca".

"Há, entre as crianças e os adultos uma formação que nos torna racistas e preconceituosos por natureza. Resolvemos iniciar o projeto para discutir isso", ela conta ao HuffPost Brasil.

Em 2003 foi instituída a lei federal Nº 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas públicas e privadas do país. A existência da norma, segundo Cibele, "nos fez pensar em como qualquer pessoa pode ser racista".

"A pichação veio como resposta a esse projeto. A gente tinha receio de como abordar isso com as crianças. No dia seguinte a quando escreveram aquilo no muro, fizemos uma reunião com os professores para pensarmos em como explicar a elas o que estava escrito, mas as próprias crianças vieram falar com a gente horrorizadas sobre a mensagem."

Foi aí que o projeto pedagógico da escola ganhou forças, conta a diretora.

“Em vez ficarmos desestimulados com as pichações, ganhamos mais força para pensar em como combater o preconceito com as nossas crianças.”

Como exemplo das ações pedagógicas, a unidade tem um príncipe africano chamado Azizi Abayomi, chamado por todos de “figura de afeto”. O avô do príncipe é o 'Vovô Madiba', em referência ao apelido de Mandela.

"Em 2014 nós começamos a trabalhar a vida de Nelson Mandela com as crianças. O texto da Carta da Liberdade que ele escreveu é muito forte. Os pais também começaram a se envolver em discussões riquíssimas. Descobrimos o quanto era necessário que as pessoas entendessem mais sobre o que representou o Mandela."

A escolha do novo nome surgiu de forma espontânea. Segundo a diretora, aliado ao simbolismo de Mandela, outra questão importante foi levada em consideração:

"Em um dos encontros, um dos pais me perguntou quem era Guia Lopes. A gente começou uma pesquisa junto com a comunidade para perguntar se alguém conhecia essa pessoa. Ninguém no Limão sabia quem era ele. Como diretora, eu sabia, mas a comunidade, não. Então, começamos a discutir se a historia dele correspondia ao que ocorria na escola. Surgiu em uma conversa com os pais a proposta de mudar o nome para Nelson Mandela. Isso conquistou não só as crianças, mas as famílias do bairro."

A partir de agosto de 2015, a equipe da escola e os moradores do bairro começaram diversas mobilizações para que a mudança ocorresse de fato, entre elas manifestações nas ruas, blocos de maracatu e o abaixo-assinado virtual.

"Eu comecei a ir em eventos da Secretaria Municipal de Educação para entregar a proposta de mudança de nome e nunca ouvia nenhuma resposta contrária, sempre foi de apoio. Mandela é um nome que carrega consigo um responsabilidade e um legado de combate ao racismo. Conseguimos as assinaturas físicas que eram necessárias para o documento ser encaminhado. O abaixo-assinado virtual atingiu tantas pessoas e nos surpreendemos com isso. Isso nos garantiu que não estamos sozinhos nessa batalha contra o preconceito. O virtual trouxe a grandiosidade e a divulgação que a gente precisava para continuar com as mobilizações."

Orgulhosa, ela conta que a escola se tornou um ponto de referência para a comunidade.

"Dizer que não tenho orgulho seria uma falsa modéstia. Já recebemos vários prêmios e homenagens. É um histórico que não dá para dizer que nossas atividades impactam só o bairro. Grande parte do meu dia é dedicado a formação de professores e a escuta das crianças. Eu preciso ouvi-las para saber o que elas precisam, assim como eu escuto os professores pra entender as dificuldades enfrentadas nas salas de aula."

Existe racismo na infância?

Nas fichas de matrícula dos alunos da escola, a autodeclaração de cor, raça ou etnia é obrigatória, comunica a diretora. Por esse recorte, Cibele afirma que a maioria de seus alunos é branca. Porém, entre os não declarados, ela considera que a maioria é negra. Para ela, há ai um problema de reconhecimento.

"A negação do tipo de cabelo, o não reconhecimento da cor da pele, são coisas que afetam a autoestima da criança e é preciso um trabalho de, no mínimo, 2 anos para que ela, e até mesmo a sua família, comecem a se aceitar. Durante estes anos de projeto, é perceptível a elevação da autoestima dessas pessoas. Reconhecer a beleza dos próprios filhos cria um vínculo afetivo que só se forma em um espaço em que você é reconhecido pelo que se é – e isso não se desfaz tão facilmente."

E esse espaço, para Racy, só pode ser construído se existir liberdade e diálogo. Para ela, ao ser implementado o projeto, toda a relação de trabalho com as crianças mudou.

"O racismo é um tema que perpassa e transborda em todas as atividades da escola. Desde a decoração, que traz referências afros para todos os espaços, como nas conversas em roda, nas histórias que lemos, nos filmes que apresentamos aos alunos. Além de trazer a cultura africana pra dentro da escola, nós queremos tratar de relações humanas.

Nós construímos um ambiente em que é possível falar do preconceito e da discriminação. Já ouvi de professores que as crianças são incapazes de ser racistas. Mas não é bem assim. Quando se cria um ambiente livre e seguro você começa a trazer essas questões à tona. As crianças se sentem seguras para falar porque sabem que não serão reprimidas – não só elas, como os adultos passam a discutir francamente as relações humanas. É o único jeito de melhorar e ultrapassar isso que nos é colocado de forma tão nociva. O racismo entra em você sem você notar."

Uma das preocupações da equipe de Cibele era entender como os temas étnicos-raciais poderiam ser abordados para crianças de 4 e 5 anos.

Para ela, não existe uma receita, mas há duas características que tornam este tipo de trabalho tão importante: o fato de ser um projeto coletivo, que envolve não só os alunos e os professores, como também as famílias, a comunidade e todos os funcionários da escola; e a formação pedagógica, que permite entender que cada aluno tem a sua história e a sua identidade.

"É preciso olhar e ouvir quem são essas crianças com quem a gente trabalha diariamente, da onde elas são, que história de vida elas têm. Porque, no final, com todo esse projeto, a gente não faz outra coisa que não aperfeiçoar a escuta das crianças. É preciso reconhecer o estudante da escola pública. E ao reconhecer esses jovens, não tem como fugir ou negar a importância da discussão sobre o racismo."

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