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A amizade entre esta menina e uma fotógrafa virou um ensaio tocante sobre prostituição

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A bela história de amizade entre a fotógrafa Mary Ellen Mark e sua musa, Tiny

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“Lembro-me da primeira vez que encontrei Tiny”, disse a fotógrafa Mary Ellen Mark, já falecida, em uma entrevista à Leica News. Ela estava visitando Seattle, em 1983, para um trabalho para a revista Life, documentando a vida dos jovens moradores de rua e fugitivos da cidade. Mark esperou do lado de fora de um clube, chamado Monastery, que meninos de rua costumavam frequentar.

“Um táxi parou e duas meninas saíram”, disse Mark na entrevista. “Eram adolescentes muito jovens. Parecia que estavam brincando de se produzir com maquiagem e saias curtas. Estavam vestidas como sedutoras prostitutas. E uma daquelas garotas era Tiny.”

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Tiny, cujo nome verdadeiro é Erin Blackwell, tinha 14 anos quando conheceu Mark e trabalhava como profissional do sexo para bancar um vício em drogas que estava apenas começando. No círculo de crianças de rua com as quais andava, todo mundo tinha um apelido. Havia o Rat, Lulu, Smurf, Munchkin e Tiny, que ganhou o apelido porque, em suas palavras, “eu era excepcionalmente pequena [“tiny” significa minúsculo em inglês]”.

Mark foi em direção à Tiny, com a esperança de fotografá-la. A menina, com medo de que Mark fosse uma policial, gritou e fugiu. Mas Mark conseguiu localizar Tiny e foi visitá-la na casa da mãe. Assim começou uma relação que durou até a morte de Mark, em maio de 2015. Uma exibição realizada em junho, em Nova York, intitulada Tiny: Streetwise Revisited (Revistada Nas Ruas) abordou a trajetória da garota, desde a época em que ganhava a vida como profissional do sexo nas ruas de Seattle até sua rotina atual como uma mulher de meia-idade, com dez filhos.

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Em suas fotografias, Mark captura Tiny com inflexível honestidade e compaixão. Tiny, como tema central das imagens, não esconde nada. “Sou atraída por sua franqueza e capacidade de contar sua história da forma mais honesta possível”, disse Mark. As imagens em preto e branco capturam uma jovem mulher ao mesmo tempo durona e vulnerável, entediada e ingênua, aflita e otimista.

O ensaio fotográfico inspirou um documentário, também chamado Streetwise, que detalhou as vidas desses magnéticos jovens moradores de rua. O marido da fotógrafa, Martin Bell, foi o diretor do documentário, e o compositor Tom Waits contribuiu com a trilha sonora do filme, que foi indicado ao Oscar. “Quando você está fazendo um documentário, o que está procurando são pessoas que, de certa forma, sejam estrelas — como estrelas de cinema”, Bell disse em entrevista à ABC News. “E Tiny era exatamente isso, era como uma estrela de cinema.”

“Quero ser muito rica e morar numa fazenda com muitos cavalos, que é o meu melhor, mais importante animal, e ter três iates ou mais”, Tiny diz no documentário. “E diamantes e joias e todo esse tipo de coisa.”

O premente conforto de fantasia é evidente na foto “Halloween” tirada por Mark, mostrada acima, na qual a fotógrafa joga sobre ela um véu escuro e luvas pretas. De repente, ela parece ter sido arrancada de um editorial de alta-costura. Mark explicou que Tiny estava vestida como uma “prostituta parisiense”.

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Mark nasceu em 20 de março de 1940, na Filadélfia, Estados Unidos. Ela se formou pela Universidade da Pensilvânia, em 1962, com licenciatura em pintura e artes, e, dois anos depois, concluiu o mestrado em fotojornalismo. Depois de formada, Mark viajou à Turquia com uma bolsa Fulbright, capturando as imagens que, posteriormente, fariam parte de seu primeiro livro, Passport. Foi quando Mark capturou a fotografia que, a seus olhos, solidificou seu destino como fotógrafa.

A foto era de uma menina chamada Emine, posando nas ruas de Trabzon em um vestido de babado e com um enfeite branco no cabelo. Há algo desconcertante sobre a maneira que ela se comporta, uma adulta sensual em um corpo de criança, desafiando o espectador a continuar olhando. “Não gosto de fotografar crianças como crianças”, Mark disse sobre uma imagem. “Gosto de vê-los como adultos, como eles realmente são. Sempre gosto de olhar para o lado de quem eles podem se tornar.”

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Inspirada pela fotógrafa Diane Arbus, Mark foi atraída por aqueles que vivem à margem, explorando representações de beleza totalmente diferentes daquelas das capas de revista ou da maioria das paredes dos museus. “Estou interessada nas pessoas que não tiveram todos os golpes de sorte na vida”, Mark disse ao site American Suburb. “Pessoas que são deficientes emocionalmente, fisicamente ou financeiramente. Boa parte da vida é sorte. Ninguém pode escolher nascer em uma casa rica, privilegiada ou na extrema pobreza.”

Mesmo quando Streetwise chegou ao fim, Mark e Tiny nunca perderam contato. Por 32 anos, Mark continuou a fotografar Tiny à medida que ela tinha filhos, se apaixonava, se livrava das drogas. Em um dado momento, Mark e o marido, Bell, ofereceram que Tiny os acompanhasse a Nova York, com a condição de que ela fosse à escola, mas ela recusou, dizendo que a escola não era para ela. “Você pode tentar ajudar, mas existe uma linha que você tem de traçar para [saber] até onde pode interferir”, Mark explicou ao blog PetaPixel. “É o quão longe você pode ir. Às vezes, você pensa que está ajudando e não está, mas sabe que está lá para observar. Está lá para contar uma história.”

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A vida que Tiny vive agora não tem a ver com diamantes e iates. Mas Tiny tem sim uma vida, confortável e segura, algo que ela nunca menospreza. Quando Mark entrevistou Tiny em 2005, ela explicou: “Eu ficaria orgulhosa se meus amigos vissem que venci. Que não acabei morta ou drogada. Estou surpresa.”

Mark faleceu em 2015, deixando para trás um vívido retrato de uma vida humana, transbordando de dor e luta, liberdade e sobrevivência. Através das lentes de Mark, os espectadores são colocados face a face com a realidade brutal da pobreza, que aflige as vidas dos filhos de Tiny assim como marcou a sua. Vemos os efeitos da miséria, das drogas e da prostituição, as marcas que deixam em sua carne e em seus olhos. E vemos a vitalidade do espírito que permite ao indivíduo seguir em frente, sonhar com cavalos e lutar para ser visto.

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Rat e Mike com uma arma, 1983


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Tiny com Mikka, fumando na cama, 1999


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Keanna e LaShawndrea, 1999


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Pat, Julian, and Tiny in Pat’s trailer, 2003

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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