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Os danos psicológicos do terrorismo e o medo que não vai embora

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TERRORISM CRYING
Mohsin Raza / Reuters
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Bruxelas, Orlando, Jacarta, Istambul, Ancara, Nice. Poderiam ser destinos turísticos, rotas que apresentam diversidades culturais em um mundo plural. Mas são todos palcos recentes de atentados terroristas.

Drama, tragédia, destruição, perplexidade. Quantas vezes essas palavras apareceram nos noticiários recentemente, em uma tentativa de se descrever os efeitos imediatos de uma ação terrorista?

O que se tenta nomear ou definir em meio a vidas rompidas, corpos destroçados, territórios fragmentados e relações conturbadas?

De quantas vítimas estamos falando ao se falar do terrorismo? O que se perde na violência planejada, e o que se "herda" sem qualquer tipo de autorização ou aviso prévio?

Quando estava prestes a encerrar o estado de emergência iniciado após os ataques de novembro de 2015, a França foi alvo de mais um atentado. Na última quinta-feira (14), o Dia da Bastilha, o mais importante feriado francês, um caminhão avançou em direção a uma multidão que participava das comemorações em Nice, no sul do país. Pelo menos 84 pessoas morreram. Entre as vítimas, há muitas crianças e muçulmanos.

O motorista do caminhão foi identificado como um homem de 31 anos, franco-tunisiano nascido em Msaken. Ele foi morto por policiais enquanto dirigia o veículo - testemunhas contam que ele fazia o caminho em zigue-zague, para atingir o máximo possível de vítimas. Nenhum grupo reivindicou responsabilidade pelo ataque, o terceiro na França desde 2015.

Morrer é um dos lamentáveis destinos quando falamos de vítimas do terrorismo. É o efeito mais extremo, que ganha mais destaque na mídia, e que dá a dimensão mais irremediável das perdas. Sobreviver ao terror também contabiliza vítimas e denota uma vivência trágica.

A conta referente à produção de vítimas por atentados terroristas não encerra tão cedo: há também as vítimas secundárias, assim definidas pelo Manual de Apoio a Vítimas do Terrorismo:

- Familiares, dependentes, amigos e colegas das vítimas diretas;
- Pessoas cujos nomes aparecem nas listas de mortos, mas estão vivas;
- Pessoas que têm motivos para temer a possibilidade de serem vitimadas no futuro;
- Profissionais que precisaram dar respostas de emergência, como bombeiros, médicos e policiais, e que ficaram traumatizados ou adquiriram a síndrome de Burnout;
- Pessoas que sofrem perdas de rendimento ou danos patrimoniais causados pelos atos terroristas;
- Pessoas cujo estilo de vida normal foi alterado devido a ameaças de terroristas, ou à aplicação de medidas de luta contra o terrorismo.

O apoio psicológico às vítimas é fundamental, especialmente logo após o ocorrido, explicando as reações normais que uma pessoa pode ter depois do ocorrido, e identificando padrões de vida saudável para que ela possa colaborar com a própria recuperação.

Segundo o Manual, o choque vindo do acontecimento traumático gera efeitos que incluem comprometimento da aprendizagem e da memória, afetação da imunidade, da tolerância ao estresse, da formação da identidade, da integração da personalidade e da fantasia.

"Uma pessoa traumatizada vive em sofrimento, sentindo-se insegura e dependente. Experimenta, então, sérias dificuldades numa multiplicidade de áreas da sua vida: nas relações pessoais e/ ou afetivas, na família, no emprego, na estabilidade económica, na conservação da saúde física e mental etc. O trauma implica o desequilíbrio persistente na existência da pessoa."

Além do trauma, o medo

No terrorismo, o medo triunfa sobre as vítimas em longo prazo: se há sobrevivência, permanece o temor de que o atentado se repita. Frequentar locais públicos parece perigoso, e o corpo reage com ansiedade a ameaças constantes e invisíveis.

A integridade física e emocional é mais ideal do que direito. A relação de confiança em um outro que possa proteger fica abalada, assim como a sensação de pertencimento a um local que muitas vezes é destruído ou sofre abalos a ponto de ficar irreconhecível.

O ato de terror subtrai de suas vítimas a noção que elas tinham de paz; a sensação de segurança e independência; e a relação de cidadãos com locais públicos que até então eram acessíveis e não representavam risco. O corpo que se movimenta em uma sociedade supostamente livre se vê obrigado a frear e a se recolher, intimidado.

No lugar das subtrações provocadas pelo terrorismo, transbordam pesadas consequências: Desamparo (real e na sensação), paranoias, isolamento provocado pelo medo, quebra da confiança em autoridades, uma vivência em sofrimento, dificuldade nas relações pessoais, solidão, silêncio e traumas cumulativos, conforme consequências apontadas pelo Manual.

O terrorismo produz e fala sobre ódio, humilhação, deslocamento, perda de raízes, anulação e desumanização do outro, desejo de retaliação e intolerância extrema.

Um resultado facilmente identificável é a instituição da alteridade (o outro) como inimiga ou ameaçadora, uma vez que o terrorismo suscita choque, em alta voltagem, com o diferente. É uma autorização, concedida a si mesmo(a), para se eliminar esse outro e, assim, enviar uma mensagem, de acordo com o Manual de Apoio a Vítimas do Terrorismo:

"No terrorismo, as vítimas são alvos imediatos da violência exercida, geralmente escolhidas de modo aleatório (são alvos ocasionais, ou de oportunidade), mas que também podem ser escolhidas de modo simbólico (são alvos certos grupos dentro da sociedade), servindo como mensagem que o grupo terrorista pretende transmitir à sociedade em geral, ou a um governo ou a uma organização internacional."

"Não é importante vencer. É importante assustar", como destaca a filósofa e psicanalista francesa Hélène L'Heuillet.

Mais entendimento, menos vítimas

No livro Violência ou diálogo? Reflexões psicanalíticas sobre terror e terrorismo (Editora Perspectiva, 2008), psicanalistas de diferentes partes do mundo refletem sobre o terrorismo, usando como ponto de partida os atentados do 11 de Setembro. Uma das propostas é encarar o "inexplicável que reside no comportamento do outro". Em outras palavras, entender o terrorismo e sua natureza de aniquilar o outro.

A lógica do terrorismo é dramática, destaca a psicóloga e psicanalista Carla Maria Pires e Albuquerque Penna, a partir dos ensaios presentes no livro.

"A violência coletiva não é uma novidade e desde a Revolução Francesa o terror é mais do que uma mera expressão de violência e agressão. O ato terrorista não é apenas um gesto destrutivo, é um ato político baseado em uma lógica que expressa de forma dramática ou teatral uma mensagem de justiça ou de redenção coletiva."

Para o psicanalista Sérgio Telles, do Instituto Sedes Sapientiae, compreender a gênese do terrorismo é crucial para se combatê-lo:

"Além da indignação contra a violência, além da comiseração pelos inocentes mortos, além da solidariedade com todos que perderam entes queridos, além do luto a ser elaborado por tudo o que se perdeu nesse momento, além dos imprescindíveis trabalhos de investigação, prisão e punição dos responsáveis, além da reconstituição material dos bens atingidos, além de tudo isso fica um trabalho a fazer - entender a origem dos atos terroristas, coisa imprescindível para viabilizar a própria prevenção de tais atos."

Telles diz que a própria existência do terrorismo precisa ser entendida como um sintoma e não pode ser descontextualizada.

"Se o terrorista se julga o dono do bem e da verdade, e considera que o 'establishment' é o mal que precisa ser combatido e eliminado, não podemos compartilhar deste mesmo raciocínio equivocado. Ou seja, não podemos achar que o 'establishment' é o bem e a verdade, e os terroristas são o mal a ser combatido e eliminado", escreveu ele em um artigo logo após os atentados do 11 de Setembro, em 2001.

A questão, portanto, vai muito além do que a luta do bem contra o mal proclamada pelo presidente George W. Bush e usada como pretexto para guerrear com outros países. Nessa abordagem polarizada, o interessado fica com o "bem" e o "mal" é projetado no inimigo.

Acontece que essa situação de heróis e vilões é simplista e ignora nossa própria constituição como humanos: "Somos todos irremediavelmente uma mistura de bem e de mal", afirma o psicanalista.

Outra maneira de abordar o terrorismo é falar que há um embate entre "civilização" e "barbárie".

"Fosse a 'civilização' tão 'civilizada', teria como prioridade máxima a superação do estado de 'barbárie' de grande parte da humanidade através da educação e da mais justa distribuição da riqueza econômica e cultural. Não é isso o que ocorre. O que vemos é que a tal 'civilização', para manter seus interesses, explora e mantém a 'barbárie'."

Ao se pretender ou estimular uma leitura maniqueísta do terrorismo, as vítimas se tornam secundárias no debate, meramente consequências de inúmeras tragédias dolorosas e paralisantes. O simplismo anula a perspectiva de que o que se deve combater vai muito além do rompimento de regras civilizatórias e acordos entre países.

É preciso convocar a palavra, a cultura e a complexidade humana, que abriga, mesmo que resistamos à ideia, destrutividade, agressão e violência em sua natureza. Seres humanos têm suas atitudes predeterminadas por um motorista desgovernado, imprevisível e indomável chamado inconsciente, cujo funcionamento ultrapassa qualquer tipo de lógica racional. Ultrapassa, principalmente, nossas ações conscientes.

Enquanto pensarmos que vítimas do terrorismo foram atacadas pelo Mal, menores as chances de se impedir o surgimento de mais vítimas e de se combater os rastros que cada tragédia deixa. O que se convencionou chamar de Mal é humano; suas ações são feitas por homens, mulheres e crianças. Não podemos pensar a realidade sem jogar luz sobre os seres humanos e suas questões mais profundas.

Enquanto o terrorismo for tratado como abstração (O TERRORISMO) que encarna, e não como fruto direto da humanidade, mais simplistas serão nossas perguntas, mais insuficientes serão as respostas, e mais vítimas serão contabilizadas.

LEIA MAIS:

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