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Quem são os Donalds Trumps mundo afora?

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DONALD TRUMP
Trump faz campanha em Westfield, Indiana, em 12 de julho | John Sommers II / Reuters
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Donald Trump não foi o primeiro. E não é o único. Sua mensagem não vai desaparecer, mesmo que ele sofra uma derrota retumbante em novembro.

No Reino Unido, Trump é Nigel Farage, defensor do Brexit; na França ele é os Le Pen, pai e filha. Na Áustria, é Norbert Hofer. Na Alemanha ele comanda um movimento que tem nome enganosamente suave, Alternativa para a Alemanha. Na Hungria, ele é Viktor Orban. E na Rússia, é claro, está o paradigma original de Trump, Vladimir Putin.

Os Trumpianos ascenderam em um país após outro, instrumentalizando os mesmos medos: que a globalização financeira, digital, logística, política, étnica e religiosa vai destruir a capacidade da “pátria mãe” de proteger os empregos, a cultura e até as vidas locais.

De que vale uma “nação”, indagam os Trumpianos, se ela não é capaz de proteger seus trabalhadores, cidadãos e tradições contra tsunamis de imigrantes, terroristas seguidores do Estado Islâmico, capital de Wall Street, códigos de computador do Vale do Silício, redes sociais e produtos chineses?

Se o final do século 15 trouxe a ascensão dos Estados-nações na Europa, o início do século 21 assiste a uma inevitável crise de confiança nesses mesmos estados –e um esforço desesperado para preservar sua relevância em uma nova ordem emergente.

O sentimento nacionalista e antiglobalista está em ascensão em países de todo o mundo, especialmente em democracias ocidentais.

O especialista americano em pesquisas de opinião Frank Lutz, que já fez diversas sondagens de opinião na Europa, constatou que os eleitores europeus e os americanos tendem cada vez mais a enxergar a política como uma escolha do tipo “tudo ou nada”: ou engajamento global ou isolamento.

“Mais e mais pessoas estão rejeitando a teoria e ortodoxia partidárias tradicionais”, escreveu Luz este mês, “semeando o caos entre os políticos e as estruturas políticas.”

Essa ortodoxia, o alvo do escárnio dessas pessoas, tem um nome: é o Consenso de Washington, um conjunto de ideias políticas e econômicas que ganharam força entre a elite e os ocidentais comuns após o fim da Guerra Fria.

O comércio global e a integração social foram vistos em todo o mundo como elementos positivos para todos, gerando prosperidade crescente por meio da criatividade compartilhada desencadeada por novas liberdades democráticas.

De Davos a Downing Street e a Cannes, as elites ainda creem nessas ideias. Mas o suposto consenso está morrendo entre a população trabalhadora da América e em muitos bairros e cidades da Europa.

O crescimento econômico está estagnado. Em toda parte, pessoas nascidas no exterior concorrem por empregos. Os ricos estão mais ricos que nunca. Os recém-chegados aos países têm aparência diferente, falam idiomas estranhos e praticam suas religiões de maneiras que muitos habitantes locais acham pouco religiosas ou até perigosas.

Os moradores desses lugares se perguntam com urgência: “Quem vai nos proteger?”

Donald Trump e outros de sua laia oferecem uma resposta clara e reconfortante: é tudo culpa dos estrangeiros. E este é o país de vocês, em primeiro e último lugar, sempre.

Embora suas propostas políticas (na medida em que existem) possam diferir, os líderes têm determinados métodos e características em comum: a sede de acumular poder através da divisão, não da soma. O dom de soltar frases grosseiras, mas que transmitem muito. A utilização astuta e obsessiva das mídias sociais. A reivindicação de algum tipo de status purista de “outsider”, muitas vezes com base em sua família, sua riqueza ou as duas coisas. O desdém pelos intelectuais, uma atitude de escárnio em relação ao jornalismo e à liberdade de expressão. Um autoritarismo nascido de seus próprios egos gigantescos. E a capacidade de fazer uso cínico da nostalgia por uma época em que as coisas eram mais simples – um tempo que nunca existiu realmente, a não ser na cabeça de seus seguidores.

O teor das mensagens desses líderes varia um pouco. O sentimento anti-imigrantes é uma constante em todo o mundo, mas o resto da mensagem é moldada pelas peculiaridades da economia, demografia e história de cada país.

O fim dos impérios

nigel farage
Nigel Farage, do Ukip (Partido da Independência do Reino Unido), aplaudido por seus partidários no lançamento do manifesto eleitoral de seu partido, em Thurrock, Inglaterra, 15 de abril de 2015

Osama Bin Laden atacou o World Trade Center porque, tanto quanto o Capitólio ou o Pentágono, o edifício era um símbolo do império americano.

Nenhum país, incluindo os Estados Unidos, jamais exerceu ou exercerá controle total sobre seu próprio destino, seus recursos, sua economia, nem mesmo suas fronteiras.

Mas depois da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria, os EUA chegaram perto disso, tendo dominado o mundo, como a China dominou o antigo (e hoje moderno) Oriente; como fez Roma, dois milênios atrás, e como fez a Grã-Bretanha no século 19.

Hoje, uma convergência de fatores – desde o 11 de setembro até o declínio da ética política, passando pela distribuição desigual da renda e o recrudescimento econômico da China – está levando os americanos a abandonar sua fé no futuro. Para muitos de nós, é a primeira vez que isso acontece.

Embora muitas das empresas mais valiosas do mundo tenham suas sedes nos Estados Unidos, pesquisas de opinião revelam que os próprios americanos, em grande parte, duvidam que seus filhos vão beneficiar-se disso.

Eis que chega Donald Trump, com suas promessas de riqueza fácil e seu dom, próprio de um vendedor exímio, de fazer as coisas boas soarem simples e as coisas más parecerem que são culpa de algum estrangeiro.

Quando Trump declara sua intenção de “fazer a América voltar a ser grande”, ele está, na realidade, expressando um desejo e uma fantasia: fazer os EUA voltar a um tempo em que o país tinha certeza de exercer controle absoluto sobre seu destino nacional.

Seu misto nocivo de racismo, xenofobia e propostas econômicas populistas é costurado pela histeria dos americanos brancos diante da ideia de perder seu lugar, não apenas no mundo, mas também dentro da cultura dos próprios Estados Unidos.

Numa ironia familiar da história, imigrantes vindos dos confins de um império que desabou (especialmente do Paquistão e da Índia) estão chegando ao poder na velha cidade imperial que é Londres.

Tudo isso alimenta o movimento pela remoção do Reino Unido da União Europeia, e tudo isso vem reforçando o perfil do antes obscuro Nigel Farage, líder do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip).

Farage passou dez anos falando sem parar que quem mandava de fato no Reino Unido era a União Europeia. E ninguém lhe deu ouvidos de verdade.

Então, em 2004, ele começou a falar de imigração, e milhões de eleitores começaram a prestar atenção.

Deputado do Parlamento Europeu, Farage, que tentou sete vezes ser eleito deputado do Parlamento britânico, sem conseguir, acha que a política da União Europeia de permitir a livre movimentação de trabalhadores entre os países do bloco é o sinal mais claro visto até agora de que os parlamentares britânicos perderam o controle sobre o país.

A tática de falar constantemente da imigração tirou o partido de Farage das margens do discurso político, onde até então atraía unicamente antigos eleitores do Partido Conservador preocupados com a soberania nacional, e o projetou para o centro das atenções, conquistando o apoio de grande número de pessoas da classe trabalhadora que sentem que os políticos convencionais não estão fazendo nada em relação às suas preocupações com a migração crescente.

Com uma caneca de cerveja em uma mão e um cigarro na outra, Farage cultivou uma imagem de um homem comum, frequentador do pub da esquina, alguém que não hesita em colocar em palavras aquilo que “o povo” está pensando.

Farage não tem medo de falar do papel do Reino Unido na Segunda Guerra Mundial ou dos supostos perigos de se viver em uma “Europa dominada pela Alemanha”. Sem evidência nenhuma para fundamentar o que diz, ele não hesita em declarar que migrantes que têm o virus HIV estão vindo para o Reino Unido para fazer uso do sistema de saúde pública nacional.

As pressões sobre setores como moradia, escolas e o NHS (o Serviço Nacional de Saúde) são todas atribuídas à imigração descontrolada. Mesmo quando confrontado com a realidade de que a contribuição dos migrantes para a economia britânica supera de longe o que eles custam à economia, Farage não recua de sua posição.

Ele não hesita em lançar mão de tópicos polêmicos para divulgar sua agenda. Farage afirma que haverá risco maior de agressões sexuais em massa nas ruas do Reino Unido se a Turquia entrar para a EU, apontando para os ataques lançados na Alemanha por migrantes na véspera do Ano Novo.

Embora muitas pessoas se revoltem com o fato de Farage estar jogando com o lado sombrio da política para sua vantagem pessoal, há quem sinta que ele representa uma lufada de ar fresco que veio dar uma sacudida na elite.

Quase 4 milhões de pessoas votaram no Ukip na eleição geral do ano passado, e foi apenas graças às peculiaridades do sistema eleitoral britânico que o partido acabou colocando apenas um deputado na Câmara dos Comuns.

Ideais versus realidade

A França e a Alemanha são os motores gêmeos do chamado “projeto europeu”, um esforço para forjar uma entidade democrática próspera formada por 500 milhões de pessoas e que se estende da Irlanda até a costa do Mar Negro.

Sob muitos aspectos o projeto vem funcionando – a União Europeia é a maior unidade comercial econômica do planeta --, mas os governos da França e da Alemanha sofrem as consequências de seu próprio idealismo.

Os franceses se enxergam como os guardiões dos ideais dos direitos humanos, e os alemães, em sua maioria, continuam determinados a provar ao mundo que Hitler foi uma aberração medonha no meio de um povo cujas realizações artísticas e científicas praticamente criaram a modernidade (Hitler nasceu na Áustria, mas os alemães sabem que ele será associado eternamente ao país deles).

Mas o projeto nobre de construir a UE sobre as bases morais mais elevadas está sendo contestado pela reação de uma parte do eleitorado contra imigrantes e refugiados.

Na França, isso significou a ascensão da Frente Nacional, ou FN, partido reacionário que tornou-se uma força importante, conquistando a lealdade de mais de um quarto de todos os eleitores, em um país dotado de uma gama fragmentada de opiniões.

A FN apoia a campanha “anti-establishment” de Donald Trump. Mas sua presidente, Marine Le Pen, hoje está se deslocando mais em direção ao centro, para tentar chegar ao segundo turno da eleição presidencial de 2017. Por isso, ela rejeita qualquer comparação com o bilionário americano.

“Não sou americana. Defendo todos os franceses, seja qual for sua religião”, disse Le Pen, para fazer um contraste entre ela própria e Donald Trump, que tem demonstrado hostilidade aberta aos muçulmanos.

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Marine le Pen, líder da Frente Nacional francesa, de extrema direita, gesticula durante reunião na sede do partido, em Nanterre, a oeste de Paris, em 2014

Trump e suas provocações são ligadas mais frequentemente ao antigo presidente da Frente Nacional: o pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, que minimiza a significado do Holocausto e já declarou que, se pudesse, votaria em Trump.

Mas há outros que procuram assumir o manto trumpiano, sobretudo o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy.

Este, o candidato menos cotado na primária de direita que terá lugar em breve, espera passar à frente de Alain Juppé, mais clintoniano. Ele tentará reduzir sua desvantagem, liderando uma campanha voltada à imigração e à identidade francesa.

Embora possa desaprovar o comportamento vulgar e as ideias incendiárias de Trump, Sarkozy enxerga algum valor na estratégia geral do empresário americano.

“Vejam os candidatos americanos que têm o apoio do establishment e da mídia: eles são superados de longe pelos candidatos do povo”, disse Sarkozy. “Veremos (nas primárias de novembro) como as coisas vão ficar na França.”

Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel apostou sua carreira – e o futuro da União Europeia – na obrigação moral de receber refugiados da Síria e de outros países devastados por guerras.

A reação negativa inevitável deitou raízes no Estado alemão da Baviera, com políticos como Joachim Herrmann, deputado do Parlamento estadual que quer fechar a porta aos imigrantes, em geral, e aos refugiados, especialmente.

Em lugar de um único Trump, a Alemanha hoje tem um punhado de pequenos Trumps espalhados por seus Estados, e eles fizeram avanços históricos nas eleições estaduais deste ano. Sua estratégia de mídia será reconhecida por qualquer pessoa que tenha acompanhado a campanha de Trump, carregada de calúnias indiretas e declarações equivocadas intencionais: primeiro eles fazem uma declaração provocativa, para fazer manchetes, e então tentam colocar panos quentes.

Na vizinha Áustria, que tem sua própria história nazista virulenta – mas não conta com nenhum líder da estatura de Angela Merkel --, o avanço na “trajetória tipo Trump” foi mais longe. O Partido da Liberdade, que combate a imigração, chegou ao primeiro lugar, e no mês passado seu líder, Norbert Hofer, fez algo estarrecedor, chegando a um ponto percentual de conquistar a Presidência.

E agora?

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Heinz-Christian Strache, líder do Partido da Liberdade austríaco, à esquerda, felicita o candidato presidencial Norbert Hofer durante festa em Viena, em maio. Hofer perderia a eleição presidencial por margem estreita

Apesar de sua ascensão rápida, a vitória dos Trumpianos não é garantida.

No Reino Unido, parece cada vez mais provável que os partidários da permanência na União Europeia prevaleçam, especialmente depois do assassinato chocante de uma de suas vozes principais: a popular deputada trabalhista Jo Cox, do norte da Inglaterra.

Na França, é possível que Le Pen, Sarkozy e outros não consigam avançar a não ser que se desloquem tanto para o centro que acabem perdendo suas características trumpianas.

E nos Estados Unidos, parece que o desprezo egomaníaco de Trump pela decência e até pelas leis está finalmente cobrando um preço do candidato.

Trump cometeu uma quantidade impressionante de gafes gratuitas ao longo de dez dias desastrosos. Ele acusou um juiz federal nascido nos EUA de viés, pelo simples fato de ser de origem mexicana. Acrescentou o Washington Post, um dos jornais mais respeitados do país, à sua crescente lista negra de veículos de imprensa aos quais se recusa a falar. E, após uma chacina hedionda numa boate gay em Orlando, Flórida, Trump foi reprovado em seu primeiro teste real como candidato presidencial: em vez de fazer declarações unificadoras ou tranquilizadoras, tentou semear ainda mais discórdia.

Quando a história for escrita, Trump e os políticos de sua estirpe provavelmente serão vistos como nada mais que um adendo final, não uma abertura: não como um sinal de algo que está por vir, mas como um grito de desespero.

A tecnologia deixou claro e também inevitável: não há como fugir do fato de que somos todos, afinal, um só planeta, uma só raça humana.

Mas a história da transição ainda não foi escrita, e, por enquanto, os Trumps do mundo não querem parar de falar deles mesmos.

(Com reportagem de Owen Bennett no Reino Unido, Geoffrey Clavel na França e Reuter Benjamin na Alemanha e com contribuições de outras edições internacionais do HuffPost.)

(Nota do editor: Donald Trump regularmente incita à violência política e é mentiroso em série, xenófobo declarado, racista, misógino e proponente da teoria conspiratória segundo a qual Barack Obama não teria legitimidade como presidente dos EUA porque não teria nascido no país, de modo que não seria cidadão americano. Já prometeu várias vezes proibir a entrada de qualquer muçulmano – 1,6 bilhão de pessoas de toda uma religião – nos Estados Unidos.)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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