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Crianças e jovens com problemas mentais esperam 10 anos por tratamento no Reino Unido

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As crianças e jovens com problemas de saúde mental no Reino Unido precisam esperar, em média, dez anos entre o aparecimento da doença e o início de qualquer tipo de ajuda, segundo novos dados do Centro para a Saúde Mental.

O relatório, intitulado “Missed Opportunities” (Oportunidades Perdidas) e divulgado em junho, revela que os problemas de saúde mental são muito comuns entre os jovens, ainda assim, a conscientização sobre a questão é baixa.

A análise constatou que a maioria das tentativas dos pais de buscar ajuda para os filhos não é bem-sucedida, resultando em um atraso médio de dez anos para o recebimento de tratamento.

Este atraso faz com que os casos de jovens com problemas de saúde mental se multipliquem e se tornem progressivamente piores, que acabam escalando para uma crise, segundo o relatório.

Lorraine Khan, diretora associada para crianças e jovens do Centro para a Saúde Mental, afirmou que os problemas mentais são “extremamente comuns” na infância e podem ser muito sérios.

depressão
O relatório revelou que os problemas de saúde mental são muito comuns em jovens, mas a conscientização sobre a questão é baixa

Ela disse que os problemas mentais podem afetar 10% das crianças todos os anos, lançando “uma longa sombra sobre a vida adulta”.

“A boa saúde mental é moldada muito cedo, na primeira centelha de vida. As experiências da infância e a exposição aos riscos [que podem levar a] problemas mentais tornam algumas crianças especialmente vulneráveis, tanto a problemas emocionais quanto comportamentais”, disse Khan.

Segundo ela, “quanto mais elas são expostas a riscos tais como negligência, abuso, ‘bullying’ e os efeitos da pobreza, maiores são as chances de suas vida serem prejudicadas”, disse Khan.

“Os problemas de saúde mental mais comuns podem ser tratados de forma eficaz. A ajuda precoce é vital para obter as melhores chances de sucesso”, afirma Khan.

A especialista destaca que “há boas evidências de que uma série de intervenções para melhorar a saúde mental das crianças e o quanto mais cedo uma ajuda eficaz for oferecida” aumentam a probabilidade de o tratamento funcionar.

O atraso em tratar os jovens com problemas de saúde mental pode custar à sociedade mais de 105 bilhões de libras esterlinas por ano (cerca de R$ 460 bilhões).

Isso significa um número estimado de 900 mil crianças entre 5 e 16 anos que estão sofrendo, e a maioria continuará assim por anos antes de receber qualquer tipo de apoio.

Uma adolescente, agora com 18 anos, que preferiu não se identificar, contou ao Huffington Post UK como teve de lutar para receber ajuda.

“Só queria que alguém se importasse e se preocupasse”, disse a adolescente em entrevista ao Huffington Post UK, como parte da série “Young Minds Matter” (Mentes Jovens têm Importância).

“Para dizer que ‘você não é inútil, não é feia, incapaz. Que você não deveria ser tratada assim’. Se alguém tivesse me dito isso, teria feito muita diferença.”

Ela tinha 6 anos quando apresentou os primeiros sintomas do que agora sabe era uma doença mental.

O relatório divulgado revelou que os problemas mentais mais comuns entre crianças são relacionados a transtornos comportamentais, que afetam gravemente uma criança em cada 20.

Os meninos são mais propensos a ter problemas de saúde mental na infância, mas, na adolescência, as meninas têm mais probabilidade de apresentar transtornos emocionais, revela o estudo.

Khan disse: “As escolas têm um papel particularmente importante na proteção da saúde mental das crianças”.

“Isso pode ser feito de forma mais eficaz por meio de uma ‘abordagem escolar integral’, incluindo o desenvolvimento de habilidades em salas de aula e sensibilização, programas contra o ‘bullying’, aumento do conhecimento sobre saúde mental entre profissionais, e rápido acesso à ajuda para crianças que dela necessitam”, afirma Khan.

Crianças que foram submetidas à negligência e abuso, as que sofrem ou praticam “bullying” e crianças cujos pais têm problemas de saúde mental correm um alto risco de enfrentar transtornos mentais.

Grupos com maiores taxas de problemas mentais incluem lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros jovens, os que são monitorados pelo sistema de justiça juvenil, e os que estiveram sob a guarda de autoridades locais.

O relatório revelou que as crianças e pais continuam a enfrentar grandes barreiras para encontrar auxílio para problemas de saúde mental.

Ao mesmo tempo, adolescentes e jovens raramente buscam ajuda em fontes formais, e são mais propensos a procurar amigos ou informações on-line.

“Precisamos aproveitar todas as oportunidades para apoiar as famílias e escolas e construir bases firmes para a saúde mental das crianças”, disse Khan.

“Precisamos aumentar a conscientização sobre os primeiros sinais de saúde mental debilitada e reforçar a importância de receber ajuda precoce”, acrescentou.

“E precisamos oferecer aos jovens e crianças uma ajuda eficaz nos primeiros sinais de dificuldade”, disse Khan.

“Esperar que a saúde mental de uma criança se deteriore até atingir um ponto crítico causa um sofrimento incalculável e um prejuízo às suas vidas, além de carregar um pesado custo social e econômico.”

“Precisamos agir agora para oferecer ajuda de alta qualidade rapidamente para crianças e jovens em todos os lugares.”

Andy Bell, diretor do Centro para Saúde Mental, disse em um blog no Huffington Post UK que pode existir um estigma em torno da saúde mental, o que cria a “conspiração do silêncio” para os que mais precisam de ajuda.

“Existem muitas razões para esse atraso em conseguir ajuda”, disse Bell.

“O conhecimento precário sobre saúde mental é uma enorme barreira para os pais, crianças, professores e outros profissionais, causando incerteza sobre a necessidade ou não de procurar ajuda.”

Segundo ele, “para os adolescentes, o estigma pode criar uma ‘conspiração do silêncio’ que os impede de revelar o conflito. E, mesmo quando os jovens conseguem ajuda, eles relatam que os serviços são pouco convidativos, desagradáveis, assustadores”.

Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são instituições públicas que visam o atendimento de distúrbios psiquiátricos. Já o Programa de Volta para a Casa, do governo federal, também oferece apoio a crianças e adolescentes em situação de risco pessoal.

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV - Centro de Valorização da Vida. O atendimento é gratuito. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar uma base de dados com redes de apoio disponíveis.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The Huffington Post UK e traduzido do inglês.

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