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Capitã, bicampeã olímpica e exemplo de luta contra o racismo: Fabiana é gigante - e não só no vôlei

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fabiana volley

"Como mulher e como negra, esse momento representa muito para mim. Mostra como temos evoluído em relação ao machismo e ao racismo que, infelizmente, são situações que ainda existem. Eu me sinto honrada principalmente por ser negra e ter uma oportunidade de mostrar ao mundo que estamos ali, fazendo parte da História e construindo algo maior. De mostrar a todos que nós, negros, somos capazes, mas às vezes nos faltam oportunidades. Estar ali representando as mulheres, estar representando as negras brasileiras, significa muito pra mim".

Fabiana Claudino era só felicidade após descer a rampa do Palácio do Planalto para ser a primeira atleta a carregar a tocha olímpica em território brasileiro. Também pudera: bicampeã olímpica, capitã de uma das seleções mais vitoriosas da História de sua modalidade e com longa estrada no empoderamento feminino e negro e na luta por tornar o profissionalismo regra dentro do esporte brasileiro. Todas as batalhas, convenhamos, das mais complicadas. O 1,93 metro fica pequeno perto do vitorioso currículo, mas também da sua personalidade.

“Querendo ou não, passa um filme da sua vida, desde pequenininha, quando comecei no esporte e tinha aquele sonho de me tornar atleta e, hoje, estar aqui nesse momento histórico, carregando essa tocha”, disse ela, ao site oficial do governo braslieiro naquele 3 de maio. Foram só 200 metros de percurso, mas a missão fez os olhos brilharem de felicidade.

O filme, no caso da Fabiana, começou bastante cedo no Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte (MG), ainda na equipe infantil. Pouco tempo depois, e ela já era convocada para a seleção mineira e a brasileira sub-18. Fabiana foi promovida pelo Minas ao time adulto em 2001 e logo foi campeã da Superliga 2001/2002, com apenas 16 anos.

fabiana volley

“Eu, já na 8ª série, não conseguia frequentar a escola todos os dias. Também não consegui concluir nem o supletivo. Mas estudar é uma coisa que eu gostaria de continuar.” E que curso de graduação gostaria de fazer a capitã brasileira? “Psicologia infantil”, disse em entrevista à revisa Raça.

Nas categorias de base da Seleção, Fabiana foi vice-campeã do Mundial Sub-18 de 2001, na Croácia, e eleita melhor jogadora e melhor bloqueadora do torneio. Também, ainda antes de estrear na equipe principal, levantou o caneco do Mundial Sub-20, em 2001, na República Dominicana. Em 2002, aos 18 anos, começaria o estrelato no time principal do Brasil.

Agora, aos 31 anos, Fabiana chega à sua quarta Olimpíada com sete medalhas de ouro no Grand Prix - a última vencida neste ano -, ouro nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara 2011 e duas pratas em Mundiais de vôlei, em 2006 e 2010. Com tantos títulos, é bem provável deixarmos escapar alguma vitória.

Eu não preciso ser respeitada por ser bicampeã olímpica ou por títulos que conquistei, isso é besteira! Eu exijo respeito por ser Fabiana Marcelino Claudino, cidadã, um ser humano.

Fora do padrão do atleta brasileiro, a central brasileira opina, critica, reclama. Fabi não faz apenas o jogo dos patrocinadores. Nem joga para a torcida. Afinal, ninguém seria capitã de uma das mais talentosas seleções da história se não fosse assim, certo?

Em fevereiro deste ano, a atleta usou sua página pessoal do Facebook para falar algumas verdades sobre a falta de respeito com as atletas do vôlei nacional.

“Somos o país das próximas Olimpíadas! Somos o país que ganha tudo no vôlei, seja na quadra ou na praia. Mas, uma equipe pede socorro para se manter vivo os sonhos de jogadoras e de uma treinadora competente e dedicada. Pode isso? Está certo isso? Estou falando da equipe de Araraquara [no interior de São Paulo]. Estou falando do líder invicto da Superliga B! Patrocinadores abandonaram o projeto no meio do caminho, deixando a equipe, treinadora e comissão na mão. E essas meninas estão honrando seus compromissos, mesmo com todos os problemas, dando aulas de profissionalismo!", escreveu.

O sucesso, o posicionamento e as conquistas de Fabi despertam o incômodo de algumas pessoas. No ano passado, já bicampeã olímpica, ela relatou ter sido ofendida enquanto jogava em Belo Horizonte. Fabiana relatou que um "senhor" na arquibancada proferiu expressões racistas como "macaca quer banana" e "macaca joga banana" em sua direção. "Eu não preciso ser respeitada por ser bicampeã olímpica ou por títulos que conquistei, isso é besteira! Eu exijo respeito por ser Fabiana Marcelino Claudino, cidadã, um ser humano", escreveu ela.

"A realidade me mostra que não fui a primeira e nem serei a última a sofrer atos racistas, mas jamais poderia me omitir. Não cabe mais tolerarmos preconceitos em pleno século 21. A esse senhor, lamento profundamente que ache que as chicotadas que nossos antepassados levaram há séculos, não serviriam hoje para que nunca mais um negro se subjugue à mão pesada de qualquer outra cor de pele. Basta de ódio! Chega de intolerância!"

Fora das quadras, o sonho de Fabi sempre foi ser modelo. “É claro que aceitaria trabalhar como manequim, como modelo. Na verdade, adoraria. E acho que dá pra conciliar as coisas”, disse em entrevista certa vez.

Que tal então realizar o sonho em ensaio para a Vogue com Naomi Campbell clicada pelo fotógrafo Bob Wolfenson? Fabi, claro, foi ao céu: “Uma das raras mulheres negras a atingir um patamar tão alto no mundo fashion, além de uma grande inspiração. É uma emoção indescritível! Vou guardar pra sempre no coração!”, comemorou o ensaio-dueto.


A Fabiana é daquelas pessoas capazes de conquistar absolutamente tudo o que quiser. A sorte é toda da nossa Seleção.

Títulos conquistados pela Seleção Brasileira

Bicampeã Olímpica, em Pequim 2008 e Londres 2012
Heptacampeã do Grand Prix (2004, 2006 , 2008, 2009, 2013, 2014, 2016)
Campeã do Torneio de Voleibol Final Four 2008 - Melhor Bloqueadora
Campeã do Sul-Americano 2007
Campeã do Pan Americano de Guadalajara 2011
Campeã da Copa dos Campeões 2005
Campeã e melhor jogadora do Mundial Juvenil 2003

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