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#EuEmpregadaDoméstica: Página no Facebook divulga relatos que escancaram preconceito

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QUE HORAS ELA VOLTA
Regina Casé interpretou a doméstica Val em 'Que horas ela volta?' | Reprodução/IMDV
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Ela, empregada doméstica. Eu, todo o serviço que não quero fazer.
Ela, empregada doméstica. Eu, toda a opressão que não quero assumir.
Ela, empregada doméstica. Eu, todo o racismo que finjo não existir.

Joyce Fernandes é mulher, negra, rapper e militante. Hoje também é formada: é professora de História. Mas durante uma fase de sua vida ela foi empregada doméstica. Na última terça-feira (19) Joyce decidiu falar sobre a profissão e passou a compartilhar coisas que ouviu ou viveu. Surgiu a hashtag #EuEmpregadaDoméstica.

Joyce passou a colher também diversos relatos de pessoas conhecidas, desconhecidas ou anônimas que vivenciaram situações similares à sua. Dois dias depois a tag virou página e em menos de 12 horas de existência já tinha mais de 3 mil curtidas.

Atualmente, são mais de 73 mil pessoas lendo e escrevendo relatos sobre a figura "empregada doméstica" que assume um papel tão ambíguo na sociedade brasileira.

Em sua grande maioria, as domésticas são mulheres e negras. Elas deixam seus filhos sozinhos para cuidarem dos filhos de outras famílias. Cuidam da casa de terceiros, preparam a comida deles, mas não podem usar os mesmos talheres. Organizam os sofás, as roupas e as camas. Acompanham os patrões para 'ficarem de olho', mas não podem ser vistas. E, se forem notadas, melhor que esteja bem claro o papel que cumprem ali.

São 6.439 milhões de trabalhadores domésticos, de acordo com o Pnad 2014. Ainda segundo o relatório, 17% das mulheres inseridas no mercado de trabalho são empregadas domésticas. Apesar de ser uma das profissões mais antigas do País, só foi regulamentada em 1972.

Mas até a aprovação da PEC das Domésticas, em 2013, essas trabalhadoras não tinham acesso a direitos básicos, como jornada de trabalho de 8 horas diárias e 44 horas semanais, pagamento de horas extras e adicional noturno, fundo de garantia por tempo de serviço e seguro-desemprego.

E não é a toa que a regulamentação do serviço veio tardia. Os relatos da página do Facebook revelam as regras sociais naturalizadas que mantêm as empregadas em posição inferior. Há na palavra empregada por si só uma carga simbólica forte que mostra quão desigual é esse tipo de relação. "Todo empregado é trabalhador, mas nem todo trabalhador é empregado", escreveu a autora Daniela Lima.

"Empregada tem um valor simbólico da passividade: aquela que foi empregada por alguém. Já trabalhadora indica ação: aquela que trabalha."

Em Que Horas Ela Volta?, a diretora Anna Muylaert tirou essas questões do quartinho da cozinha e trouxe o incômodo para as salas de cinema lotadas nos grandes centros. O filme, lançado no começo de 2015 no Festival de Sundance, tem Regina Casé interpretando uma doméstica que trabalha há tempos em uma casa de família, com a qual desenvolveu um vínculo emocional. A relação estremece quando sua filha chega para morar com ela, e a garota passa a questionar toda a relação construída entre patrão-empregada.

E, assim como o filme, os relatos colhidos na #EuEmpregadaDoméstica escancaram a situação, algumas vezes bastante tensa, outras vezes ilusória sobre a realidade das empregadas nas residências: parece da família, mas não é.

Em entrevista à BBC Brasil, Joyce Fernandes conta ter se surpreendido com a repercussão da hashtag e disse estar feliz, pois está cumprindo seu objetivo.

"Meu objetivo é provocar e dar voz a quem não tem. Esse tipo de tratamento desumano acontece entre quatro paredes e essas mulheres, a maioria negras, não têm com quem desabafar. Quero expor o que está sendo varrido para debaixo do tapete. É preciso humanizar a relação entre patrões e empregados. Muitas vezes, naturalizamos agressões e opressões. Isso está errado."

A solução, para ela, seria se a profissão de empregada doméstica acabasse, pois considera o serviço um "resquício da escravidão".

"Mas enquanto isso não acontece, temos de lutar por um tratamento mais humano e igualitário. Não queremos ser da família. Também não queremos desrespeitar hierarquia. Queremos apenas um tratamento justo. Infelizmente, para nós, mulheres negras, ser empregada doméstica é algo hereditário. Minha mãe, minha tia e minha avó foram empregadas domésticas. Não é possível dissociar isso da nossa história de escravidão."

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