Huffpost Brazil

Octavia E. Butler previu slogan da campanha de Trump em romance de 20 anos atrás

Publicado: Atualizado:
Imprimir

octavia butler

Há algo irritantemente vago sobre a genérica campanha de Donald Trump, “Tornar a América grande de novo”.

Talvez seja a falácia flagrante do “de novo”, aludindo a imaginados dias pacíficos. Ou talvez seja a falta de especificidade da palavra “grande” — se você fizesse uma pesquisa com dez americanos sobre o que é grandeza para eles, provavelmente receberia uma miscelânea de respostas, e certamente nada prático.

Seja qual for o caso, parece que a escritora de ficção científica (e rainha não oficial da galáxia) Octavia E. Butler previu o slogan quase duas décadas atrás.

Antes de Trump registrar o termo, ela escreveu sobre o personagem Senador Andrew Steele Jarret, um prenúncio para a violência em seu romance Parable of the Talents, de 1998 (os livros da autora ainda não foram publicados no Brasil).

Leia um trecho que destaca o uso da frase “Tornar a América grande de novo” abaixo:

"Os simpatizantes de Jarret ficaram conhecidos, de tempos em tempos, por formar aglomerações e queimar pessoas na fogueira por serem bruxas. Bruxas! Em 2032! Uma bruxa, na visão deles, tende a ser uma muçulmana, uma judia, uma hindu, uma budista ou, em algumas partes do país, uma testemunha de Jeová ou mesmo uma católica. Uma bruxa também pode ser uma ateia, uma “cultista” ou uma excêntrica endinheirada.

Excêntricos endinheirados normalmente não têm protetores ou muitas coisas que valham a pena roubar. E “cultista” é um ótimo termo genérico para qualquer um que não se encaixe em nenhuma outra categoria abrangente, e, ainda assim, não esteja totalmente de acordo com a versão de Jarret sobre o cristianismo.

Dizem que os seguidores de Jarret espancam ou expulsam os unitários, em nome de Deus. Jarret condena a queima de pessoas, mas o faz em uma linguagem tão amena que sua gente é livre para escutar o que quer escutar. Em relação aos espancamentos, humilhação pública e a destruição de “casas pagãs de adoração do diabo”, ele tem uma resposta simples: “Junte-se a nós! Nossas portas estão abertas para qualquer nacionalidade, qualquer raça!

Deixe seu passado pecaminoso para trás e se torne um de nós. Ajude-nos a tornar a América grande de novo”. Ele tem tido um sucesso notável com sua abordagem da cenoura e do bastão. Junte-se a nós e prospere ou qualquer coisa que aconteça com você como resultado de sua própria teimosia pecaminosa será problema seu.

Seu adversário Edward Jay Smith o chama de demagogo, de agitador e de hipócrita. Smith está certo, claro, mas Smith é uma sobra cansada, cinzenta de homem. Jarret, por outro lado, é um homem grande, bonito, com cabelos negros e profundos, límpidos olhos azuis, que seduz as pessoas e as envolve.

Tem uma voz que é uma experiência de corpo inteiro, como meu pai. Na verdade, sinto dizer, Jarret chegou a ser ministro batista, como meu pai. Mas ele deixou os batistas para trás há um ano para lançar sua própria denominação “América Cristã” (AC). Ele já não faz sermões AC com frequência nas igrejas AC ou nas comunidades, mas ainda é reconhecido como o líder da igreja."

Segundo o Fusion, a bola de cristal de Butler “não estava inteiramente correta; ele não tinha o cabelo alaranjado de Trump”. Mas seu antagonista de fato disputou as eleições em um período de isolamento, intolerância religiosa e coação. Soa familiar?

Embora a empresa The Donald tenha registrado o slogan, o lema existia antes dele, como apontado por alguns escritores durante sua surreal ascensão. Tentando atrair os afetados pela inflação no fim dos anos 1970, Ronald Reagan defendeu uma plataforma de retorno da promessa econômica, imprimindo o “Torne a América grande de novo” nos broches.

Mas a frase de efeito não teve a mesma força como hoje, proliferando no Twitter, espaço propício aos mantras, e, claro, em alguns chapéus exibicionistas.

Depois de Regan, mais obras da cultura pop previram que a frase seria a favorita de algum candidato particularmente nocivo.

O videogame Metal Gear de 2013 mostrava um CEO transformado em candidato presidencial em 2020 que, em certo ponto, diz: “Os fracos serão exterminados, e os fortes irão prosperar — livres para viver como bem entenderem. Eles tornarão a América grande de novo!”

parable of the talents

Não é surpreendente que Butler, entre todos os autores distópicos, tenha antecipado o slogan da campanha de Trump com exatidão. Ela tem um dom para determinar o futuro com precisão — inclusive o seu próprio, tendo escrito uma vez na capa de um caderno que seus livros “serão lidos por milhões de pessoas. Que assim seja! Confira!”

Ela não é a única escritora a empunhar a caneta contra uma campanha. Neste ano, mais de 450 escritores, incluindo Stephen King e Michael Chabon, assinaram uma petição contra Trump, declarando que “a história da ditadura é a história da manipulação e divisão, demagogia e mentiras”.

Portanto, a grandeza, pelo que parece, é um conceito altamente interpretável.

(via Fusion)

(Nota do editor: Donald Trump regularmente incita a violência política e é um mentiroso compulsivo, xenófobo desenfreado, racista, misógino e que duvida da nacionalidade de Barack Obama, que tem repetidamente prometido proibir a entrada de todos os muçulmanos — 1,6 bilhão de seguidores de toda a religião — nos Estados Unidos.)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- Quem são os Donalds Trumps mundo afora?

- Meryl Streep faz paródia de Donald Trump e prova que nenhum papel é impossível para ela

- Este é 'Donald Trump da Roma Antiga', um populista demagogo que ajudou a derrubar a república

Também no HuffPost Brasil:

Close
11 livros escritos por mulheres que BRILHARAM na Flip 2016
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção