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Após três abortos, Marina Abramovic não nega que a maternidade seria 'desastrosa' para a sua produção artística

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MARINA ABRAMOVIC
Reprodução/Facebook
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Talvez a melhor palavra que a defina é resistência.

Para Marinha Abramovic o "não" é o começo. É da negação, da violência, do perigo - que às vezes chega a se tornar medo - da dificuldade física e mental que nascem suas obras.

"A mídia é o corpo", ela diz.

Em uma galeria da cidade de Belgrado, em 1974, ela disponibilizou 72 objetos sobre uma mesa e convidou o público a usá-los da maneira que preferisse.

"Havia uma pistola, carregada, lá. Eu estava pronta para morrer", comentou sobre a performance em entrevista ao The Guardian.

Outra vez, ela ocupou por oito horas ao dia, durante três meses, uma cadeira no centro de uma sala do Museu de Arte Moderna de Nova York (Moma). Ela estava impassível. A artista estava completamente presente.

"Jamais vi tanta dor em minha vida", disse ao Guardian. "Não havia para onde ir a não ser para dentro de você mesmo. Chocante. Mas simples".

Sua arte passa longe do exibicionismo ou materialismo. São experiências. E se hoje Abramovic tem se aproximado cada vez mais de um ícone quase pop é o resultado de mais de 40 anos de pura disciplina.

Em uma recente entrevista ao jornal alemão Tagesspiegel, que foi traduzida pelo site Artnet, Abramovic não hesitou em afirmar que ter filhos seria "desastroso" para o seu trabalho e que sempre teve esse pensamento, mesmo quando mais jovem.

"Eu tive três abortos porque eu estava certa de que ter filhos seria um desastre para o meu trabalho. Uma pessoa tem uma energia limitada, e eu não queria ter que dividi-la".

Abramovic, em vésperas de completar 70 anos, foi além.

"Na minha opinião essa é a razão por que as mulheres não são tão bem sucedidas quanto os homens no mundo da arte. Há uma abundância de mulheres talentosas. Por que os homens assumem todas as posições importantes? É simples. Amor, família, crianças. A mulher não quer sacrificar tudo isso. [...] Eu não sei se conseguiria viver diferente. Eu não tenho marido ou família. Eu sou totalmente livre."

A fala da artista sérvia incomoda. À primeira vista, parece simplificar um problema que na verdade é estrutural.

Ao apontar que a mulher que deseja ter uma família consequentemente deverá abrir mão de seu sucesso profissional, Abramovic parece "culpabilizar" estas mulheres e não faz menção as complexidades do sistema em que a desigualdade de gênero, um dos pilares de nossa sociedade, ainda faz com que a maioria das situações coloquem estas escolhas como excludentes.

Mas a realidade é que historicamente a vida doméstica foi apresentada como a opção natural para o sexo feminino.

E o fato de a artista sérvia não se preocupar em negá-la é também mais uma de suas transgressões. Afinal, o papel que Marina ocupa ao dizer que ter uma vida familiar seria um obstáculo ao seu sucesso é o mesmo ocupado por inúmeros homens, direta ou indiretamente.

Ela já afirmou não ser uma artista feminista. Mas desde que ela passou a ocupar espaços conservadores e majoritariamente masculinos, como as galerias de arte e museus, a sua performance é capaz de provocar, oferecer novas possibilidades, subverter aquilo que é dado como natural e correto.

Não se poderia esperar algo de diferente quando se trata de temas comuns, porém ainda difíceis, como a maternidade.

Marina Abramovic é difícil de ser rotulada. E é daí que toda sua resistência é construída.

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