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Artistas com deficiência de desenvolvimento exploram a beleza que envolve os alimentos

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sem título de hiro medina
“Sem título” de Hiro Medina, circa 2016, Creativity Explored Licensing, LLC, tinta e aquarela em papel, 12.25 x 18 in.

Houve uma época na história da civilização humana em que a comida era apenas uma questão de sobrevivência e sustento e nada mais. Caçar, reunir-se, ficar com fome e estar satisfeito. E a repetição disso.

Hoje, a comida não é somente um dos aspectos mais essenciais da vida humana do nosso dia a dia, mas é um dos mais carregados. O conceito de comida como algo suculento e ligado a família, lembranças, trabalho, amor, meio ambiente, economia, imagem corporal, classe, patrimônio, história, nostalgia — e uma lista sem fim.

Em São Francisco e, em particular, na Bay Area, a cultura em torno da comida tornou-se algo como uma religião secular ou, no mínimo, um fetiche.

Como você come — um hábito frequentemente temperado com palavras de impacto como orgânico, artesanal, vegano, fusão, cru, autêntico — comunica até certo ponto quem você é, produzindo uma sociedade obcecada com o que está acontecendo dentro de suas barrigas, como isso vai soar na conversa e aparecer na câmera.

Talvez seja por isso que entre os possíveis temas para a próxima exibição no Creativity Explored, em São Francisco, a ideia de expor sobre a comida incomodou.

sem título de james miles
“Sem Título” de James Miles, circa 2016, Creativity Explored Licensing, LLC, técnicas mistas no papel, 11 x 15 in.

Creativity Explored é um estúdio e galeria de arte onde adultos com deficiências de desenvolvimento fazem, exibem e vendem suas obras. Wright e Graham estavam trocando ideias sobre temas amplos e marcantes pelos quais a ampla variedade de artistas do Creativity Explored se interessaria — quando chegaram na ideia de comida.

“Falamos sobre grandes temas como o amor e vida e também a morte e o tempo”, contou Wright ao The Huffington Post. “Coisas que muita gente poderia se identificar. Quando chegamos ao tema da comida, aconteceu um momento engraçado, havia mais energia ali. É difícil descrever”.

Graham sentiu algo também. Mas no início, esse algo era uma ressoante aversão à ideia. “Eu disse imediatamente não”, explicou Graham. “Parecia fácil demais, até comercial, de certa forma. Comida é algo que é meio um fetiche na Bay Area e nós não queríamos participar de algo assim”.

essa é minha bike por comida de melody lima
“Essa é minha Bike por Comida” de Melody Lima, circa 2006, Creativity Explored Licensing, LLC, aquarela no papel, 10 x 11 in.
Mas Graham e Wright eventualmente desfizeram suas reações e as diferentes racionalizações que as justificavam. Tornou-se claro que havia algo interessante ali. Algo implorando por ser explorado.

“Os artistas com quem trabalhamos, o seu relacionamento com a comida é tão diferente”, disse Graham. “É uma parte tão pessoal da sua identidade. Representa como eles se cuidam, a sua dieta. Eles lidam com o coração da comida, em um nível mais profundo. Como somos conectados a isso através de nossos corpos e estilos de vida econômicos”.

Os artistas do Creativity Explored são às vezes referidos como artistas autodidatas, fora da cultura influente ou o termo sempre controverso, artistas de fora.

O que isso significa, simplesmente, é que eles não são artistas que receberam um treinamento, no sentido mais tradicional, embora trabalhem como instrutores no estúdio Creativity Explored. Suas técnicas, são frequentemente pouco ortodoxas, altamente pessoais e tangivelmente cheias de paixão.

Observar sua obra de arte pode dar a impressão de estarmos olhando diretamente em suas mentes, sem o filtro do ego, autoconsciência, ou ambição, dando uma olhada nas formas particulares em que o caos e a ordem, memória e imaginação coexistem.

Quando oficialmente decidiram que a comida seria o tema escolhido, Graham e Wright estabeleceram que não tinham interesse algum em mostrar o feed artesanal do Instagram com culinárias esteticamente agradáveis. “Não tínhamos que ter um show com fotos de comida bonitinhas”, enfatizou Wright. Eles apelidaram a exibição “Ripe” (Maduro, em tradução livre).

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“Sem título” de Camille Holvoet, circa 2016, Creativity Explored Licensing, LLC, técnicas mistas no papel, 6 x 8 in.

Alguns dos artistas do Creavitiy Explored já tinham explorado o tema da comida pois fazia parte comum de sua prática. Camille Holvoet, por exemplo, passou anos interpretando camadas de bolo decadentes com espirais de cobertura açucarada e cereja no topo, seu gosto doce artístico destravando uma vida inteira de ardentes desejos e memórias amargas.

“Eu gosto de desenhar sobremesas porque elas são saborosas”, Holvoet explicou em uma entrevista anterior.
Entretanto, para muitos artistas, a comida era um tema novo.

Graham e Wright, que atuam tanto como instrutores quanto curadores, trabalhando bem próximo e ao lado dos artistas preparando-se para o evento, ajudaram cada artista a explorar o seu relacionamento com a comida, encontrando uma forma apropriada para abordar o tema enquanto trabalhavam ainda com sua linguagem artística estabelecida.

“Eu descubro um ponto de acesso tangível”, explicou Graham. “Para muitos artistas era a hora de almoço. Nós observávamos a comida que eles já comiam no almoço e usávamos isso como ponto de partida”.
Richard Wright para Creativity Explored.

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“Sem título” de Thomas Pringle, circa 2010, Creativity Explored Licensing, LLC, marcador no papel, 28.5 x 22.5 in.

Para o artista Richard Wright, seu almoço foi uma fonte de inspiração. Wright, cujo trabalho frequentemente retrata monstros de cinema famosos em ásperos retratos em carvão, seleciona sua nutrição diária de forma bem particular.

“Quando ele vai para o mercado compra comida com super-heróis no pacote”, explicou Graham. “Seus almoços são como gibis cortado em pedaços e abertos. Para eles, a comida é como se fosse um acessório, uma camiseta ou chapéu. O sustento é secundário, é o pacote o que importa”.

Uma das obras de Wright, centrados na comida, e disponíveis na loja web da Creativity Explored, é uma obra pintada a lápis chamada “A Very Interesting and Fantastic Indeyin Corn” (“Um Bem Interessante e Fantástico Milho Recolhido”, em tradução livre).

O artista disseca um milho em um abstrato geométrico, os grãos castanho-avermelhados que parecem tijolos em uma parede ondulada, ou células em um retrato de Chuck Close. Wright, obviamente interessado em retratos, trata o milho como assunto sério, dando a mesma atenção meticulosa e ponto de vista estilístico como se estivesse interpretando o mostro de Frankenstein.

Outro artista que se destacou para Graham e Wright foi Thomas Pringle. Quando sozinho, Pringle usualmente cria fotos de mulheres belas. No entanto, suas contribuições ao “Ripe” são duas obras de texto, escrito em marcador no papel. Em uma obra chamada “My First Job” (Meu Primeiro Trabalho) Pringle lembra-se de colher frutas quando criança em Sonoma, no Norte da Califórnia.

“Eu fui trabalhar à uma e meia”, começa o texto. “Na época eu não sabia que era trabalho. Eles me enganaram. Eles me perguntaram, ‘Você quer ir a um picnic?’, e depois descobri que era trabalho. Eles deram à todas as crianças baldes cinzas. E daí eles chacoalhavam as árvores e nós catávamos frutas. Nós esquecemos que vivemos em cidades, mas para a maioria das pessoas a comida é sinônimo de trabalho”, notou Graham.

“Nada vem para a mesa sem trabalho para colocá-lo ali”.

Outro artista mencionado por Wright é Yukari Sakura, cujas obras de desenho animado em acrílico frequentemente fazem tributo para seus heróis pessoais e eventos icônicos históricos. “Ela faz dedicatórias memoráveis, essas tortas e bolos como pequenas ofertas de lembrança das pessoas”, explicou Wright.

A contribuição de Sakura para o “Ripe” chama-se “Dave’s Goblin King of the Labyrinth Pie” (algo como “Dave na Torta do Labirinto de Goblin King”, em tradução livre) aparece, à primeira vista, como um cupcake de chocolate decadente e sobrecarregado.

No entanto, após atenta observação, o icônico relâmpago de David Bowie emerge no meio do bolo. Essa sobremesa serve como atributo para o defunto glamoroso, imortalizando na forma de bolo seu papel icônico como Jareth e Goblin King em O Labirinto.

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“Dave's Goblin King of the Labyrinth Pi", de Yukari Sakuri, circa 2016, Creativity Explored Licensing, LLC, acrílico no papel, 9 x 12 in.

A lista continua, com cada artista radicalmente reinterpretando as muitas memórias, ideias e visões que aparecem na sua mente quando a comida está na mesa. A artista Allura Fong usou o chocolate como meio no seu quadro abstrato.

O turbilhão de visão de tons marrom, amarelo e dourado relembra o rio de Willy Wonka de chocolate borbulhante, uma visão tão sedutora que tentamos mergulhar nela. Gabriel Maduena faz uma escultura de pizza gigante e misturada, reminiscente de coisas e comidas gigantas e ternas de Claes Oldenburg.

E Marilyn Wong traduz a leveza crocante do frango frito com uma enxurrada de bordas laranja não pictórica e com toques marrons.

Para cada artista que faz parte do “Ripe”, a comida não é só uma fonte de nutrição nem um suculento prato atualizado na rede social para quem ama comida. Ao contrário, é um portal arrancado diretamente do mundo e saído bem no interior dos seres humanos.

Através das lentes da comida, os artistas do Creativity Explored revelam muito mais — suas infâncias, heróis, desejos e aversões, sonhos, desejos e sim, seu apetite elevado.

“Ripe” estará em exibição até 20 de julho, 2016 no Creativity Explored em San Francisco.

  • “Sem título” de Valerie Jenkins, circa 2016, Creativity Explored Licensing, LLC, mixed media on paper, 10.5 x 15 in.
  • “Abacaxi, batatas fritas e pickles” de Andrew Bixler, circa 2016, Creativity Explored Licensing, LLC, pincel de aquarela e marcador no papel, 4 x 6 in.
  • “Sem título (Donuts)” de Ka Wai Shiu, circa 2016, Creativity Explored Licensing, LLC, aquarela e grafite no papel, 15 x 22 in.
  • “Repolho Roxo” de Musette Perkins, circa 2015, Creativity Explored Licensing, LLC, tinta no papel, 11.5 x 11.75 in.
  • “Sem título” de Laron Bickerstaff, circa 2015, Creativity Explored Licensing, LLC, aquarela e grafite no papel, 24 x 18 in.
  • “Bebidas Refrigerante” de Gabriel Maduena, circa 2014, Creativity Explored Licensing, LLC, aquarela e grafite no papel, 30 x 22 in.
  • “Prato de Sushi” de Caitlyn Quibell, 2016, Creativity Explored Licensing, LLC, técnica mista, 2.75 x 17.25 x 6/25 in.
  • “Yoplait” de Jesus Huezo, circa 2016, Creativity Explored Licensing, técnica mista escultura, 12 x 9.5 x 9.25 in.
  • “Frango Frito” de Marilyn Wong, circa 2015, Creativity Explored Licensing, LLC, técnica mista no papel, 19.5 x 25.5 in.
  • “Melancia” de Kaocrew Kakabutra, circa 2016, Creativity Explored Licensing, LLC, técnica mista escultura, 15.25 x 21.75 x 3.75 in.
  • “Pizza” de Gabriel Maduena, circa 2016, Creativity Explored Licensing, LLC, técnica mista, 2.25 x 21.5 x 18.5 in.
  • “6 Ovos” de Josua Izquierdo, circa 2016, Creativity Explored Licensing, LLC, lápis colorido e grafite no papel, 8.5 x 11 in.
  • “Hambúrguer” de Jay Herndon, circa 2016, Creativity Explored Licensing, LLC, acrílico em cartão, 27 x 33.5 in.
  • “Chocolate” de Allura Fong, circa 2016, Creativity Explored Licensing, LLC, tinta, chocolate e acrílico, cada painel 14.5 x 5.5 in.
Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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