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Copa UPP: PMs e moradores de comunidades do Rio fazem do futebol um caminho para a paz

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"O futebol é a coisa mais importante das coisas sem importância." A frase clássica do técnico vice-campeão mundial pela seleção italiana na Copa do Mundo de 1994, Arrigo Sacchi, cai feito uma luva para várias situações proporcionadas pelo esporte mais popular do planeta. A Copa UPP é, sem sombra de dúvidas, uma delas.

O que poderia servir melhor para pavimentar a historicamente tumultuada relação entre policiais militares e moradores das comunidades carentes?

Neste ano, para a segunda edição do torneio, são 35 comunidades representadas por 1.050 atletas ocasionais — policiais e moradores. Todas foram incluídas no projeto de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), do governo estadual, que também é o criador da Copa UPP.

No futebol de favela saem os salários milionários e entram as premiações com bolsas de estudo em universidades, artigo de luxo nas comunidades. Os 90 jogadores das três equipes mais bem colocadas receberão bolsas de ensino à distância. Outras seis oportunidades de graduação ou pós-graduação na Universidade Estácio de Sá serão sorteadas entre os três melhores times em campo.

O HuffPost Brasil esteve em junho no Morro dos Macacos, na Vila Isabel, zona norte da capital fluminense, para ouvir quatro dos melhores atletas da primeira edição do torneio. Em campo, seus sonhos, derrotas, vitórias, aprendizados e aspirações para suas comunidades.

O campo de terra batida e raros punhados de grama palco para as entrevistas e para as fotografias guarda um momento trágico: a queda de um helicóptero da Polícia Militar (PM) provocada por traficantes, no dia 17 de outubro de 2009. A aeronave foi alvejada por muitos tiros de alto calibre, enquanto monitorava um protesto na favela, e pegou fogo no ar.

No lugar da trágica recordação, hoje a união de polos geralmente opostos por meio do futebol abre caminho para a paz.

Anselmo da Silva Nascimento, 27, técnico de segurança do trabalho e morador do Caju. É meia-atacante e joga com a camisa 10 (ou com a 767). Diz que é o fuzil da equipe, 'o mais perigoso'

"Com certeza a minha vida seria diferente sem o futebol. Com certeza. O futebol abre a cabeça para várias coisas, não te deixa limitado com as situações e te desvia do mau caminho. Nascido e criado na comunidade do Caju, tive vários amigos que cresceram comigo jogando bola e largaram e se envolveram em situações erradas. Uns estão presos, outros morreram, outros se envolveram com o tráfico e tiveram uma vida interrompida. Com o futebol na vida deles, poderia ser diferente.

Quando envolve o futebol, é apaixonante. Choram quando ganham. Choram quando perdem. Em junho, o Chelsea do Caju [nome que surgiu como homenagem ao time londrino, um dos mais ricos do planeta] foi campeão em cima de um time muito tradicional lá na comunidade, e os jogadores choravam. Para tu ver como é o futebol: as pessoas se envolvem de verdade com esse espírito.

O Caju é uma comunidade boa, alegre, cheia de crianças com talento e com pouco recurso para aproveitá-las. Não é um lugar com muito investimento. É uma comunidade como as outras, cheia de pessoas que lutam por seus ideias, por ser alguém na vida, como qualquer outro cidadão de classe média e alta. A diferença mesmo é só o nome: comunidade.

Independente de raça, cor ou onde você mora, ninguém pode julgar. As pessoas do Caju são como as outras, elas têm estudo, tem advogados, engenheiros e até pessoas com doutorado que moram lá."


Cleiton da Silva Carvalho, 28, microempresário de área de informática. Morador da Vila Kennedy. Joga como zagueiro e já deu de bico com o preconceito

cleiton

"Sou um cara família, batalhador, e que voltou a estudar, cursando graduação de Direito. Acredito que seja um bom pai. Ganho uns elogios (risos). Tenho duas filhas, a Ana Clara, de 4 anos, e a Maria Eduarda, de 10. Ser pai de meninas tem suas particularidades, mas tendo compreensão e paciência, você consegue. Tem hora que aborrece, tem hora que está difícil que parece que não vai dar, mas você consegue contornar. Mas é mais prazeroso. É nas crianças que a gente busca a força.

A vila nasceu de um projeto do governo. O pessoal foi remanejado de uma área da Tijuca e fundou a Vila Kennedy, que é por conta do presidente dos Estados Unidos mesmo. Com a expansão e os problemas sociais que tem o Rio de Janeiro, acabou se tornando uma comunidade violenta, como é o Rio de Janeiro praticamente inteiro.

A Vila Kennedy é muito grande. Ela ocupa os dois lados da Avenida Brasil e tem mais de 100 mil habitantes. Mas temos posto de polícia, clube, baile, Vila Olímpica, Clínica da Família e gente talentosa. De lá saíram jogadores de futebol e artistas. O local acabou tendo uma atenção do Estado, mesmo com toda deficiência. É o lugar onde nasci, tenho muitos amigos e me formei como homem.

O que mais me dá raiva são os próprios moradores deteriorarem a comunidade; ao invés de fortalecer os pontos positivos, eles enaltecem os negativos sem ser construtivos. Uma coisa é criticar e ajudar a arrumar, outra é dar visibilidade para os problemas. Isso não acrescenta em nada.

Desde muito cedo vivo em várias regiões diferentes. Trabalhei seis anos no Centro, trabalho há seis na Tijuca, que é uma área de classe média. E quando a gente fala com orgulho que mora na Vila Kennedy, as pessoas até se espantam. Parece até que se
espantam: 'Você mora lá?'. Porque eles veem minha conduta, meu trabalho, como trato as pessoas, e elas se assustam. E você acaba escutando algumas coisas, comentários relacionados aos moradores de comunidades.

Teve um episódio em que estava fazendo umas impressões e eram retratos de crianças de escola, de 6 ou 7 anos. E o pai da cliente, que é uma professora, disse assim: "Que pena que são todas sementinhas do mal". Eram crianças! Alunas da filha dele! Naquela hora, mermão... Eu disse assim: "Não são, não. Você conhece as crianças?". Ele disse que não. Ou seja: para as pessoas que têm preconceito com as comunidades, eu não tenho nada para falar. Elas precisam nascer de novo, se reciclarem, se encontrarem primeiro dentro delas e ver quem realmente elas são. Porque eu não tenho conselho para elas. Elas precisam se reinventar. Não tenho nada concreto para elas."

Leandro Bouzan Lessa, 31, marinheiro-auxiliar de convés e morador da Mangueirinha. Meia-direita que quer atacar de empreendedor. Foi campeão da Copa UPP em 2015

leandro

"Eu era o único que não era policial e que jogou um torneio organizado pelos policiais na Mangueirinha no ano passado. É impactante ter uma equipe com moradores e policiais. Não vou falar que não é. Mas hoje dá para dizer que é uma família. Não tem diferença entre policial e morador. É uma equipe só.

A Mangueirinha é um comunidade, hoje, pacificada e em crescimento em termos sociais. No meu caso, que sou morador, é uma comunidade que, comparada com outras, é boa. Os moradores são bem receptivos, com garra, pessoas que acordam muito cedo, que dão duro pelos ideais e buscam o melhor sempre. Um excelente lugar para viver, tem nome de comunidade, mas não trato como tal.

A política não chega. Estamos num ano eleitoral e sempre tem aquele monte de promessas que não são cumpridas. Isso traz um desgosto para a comunidade.

Não existem pessoas que vivem às margens da sociedade. Pelo simples fato de morar numa comunidade, não quer dizer que são pessoas de má índole. Não é porque moro na comunidade e um outro mora na Zona Sul que eu sou diferente. Fui abençoado com uma faculdade e vou ser um engenheiro como um engenheiro da Zona Sul."


Marcos Vinícius de Jesus, 33, policial militar e morador da Mangueirinha. É lateral-esquerdo e luta pelo bicampeonato da Copa UPP

pm futebol

"Primeiro é preciso conhecer as comunidades de dentro. É de dentro para fora, não de fora para dentro. Quem tem preconceito precisa entrar para ver como é a comunidade, como são as pessoas que vivem lá, não julgar por aquilo que um, dois ou três falam.

Moro no Corte 8, próximo à Mangueirinha. Todas as comunidades têm problemas, têm soluções, têm gente de bem e gente do mal. Mas a Mangueirinha é uma família. Ali aprendemos a viver, a nos unir. Não tem esculacho (quando policiais batem ou maltratam moradores), não tem vacilação. O comando da UPP da Mangueirinha é o que me dá mais orgulho. Estamos pacificados há três anos, e o índice de mortes é o menor que tem em todas as UPPs. Não tem confusão, desatino entre policiais e moradores e não tem manifestação com fogo em ônibus. Todo mundo aprendeu a viver junto. A Mangueirinha é casa de família. É paz, graças a Deus.

Se não fosse o futebol, de repente eu não estaria vivo agora. Por ser nascido e criado numa comunidade, vi muitas pessoas se perderem por não terem oportunidades. Mas o futebol me deu essas chances.

Fui estudar num colégio particular sendo bolsista por jogar bola. Estudei no Colégio Flama e no Colégio Educandário Cruzeiro do Sul, um dos melhores de Caxias. Joguei campeonatos, ganhei, fui bolsista e me formei. E hoje estou aí... Ganhei uma bolsa pela UPP para estudar Direito na Estácio.

Independente da faculdade ou não, não me vejo fora da PM. A vontade de ser policial veio de familiares e amigos que são policiais. Sempre gostei da farda. Eu sou polícia não pelo poder, mas para ajudar as pessoas. Meu filho de 7 anos tem orgulho do pai PM.

Ele fala para mim: 'Pai, vou ser policial militar'. 'Pai, vou ser polícia, vou ser policial igual ao senhor.' Ele se amarra porque eu vou trabalhar numa profissão que eu gosto. Acordo todos os dias, peço que o Senhor que me guarde, vou para meu trabalho e volto".



Fotos: Mauro Pimentel/Especial para o HuffPost Brasil

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