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Esta é a sensação de ser alvo de homofobia

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LGBT
LUCY NICHOLSON / REUTERS
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Quando desembarquei do avião e percorri o aeroporto na Carolina do Norte, meu Estado natal, aquela sensação tão conhecida bateu em cheio, de imediato.

O mal-estar. Os olhares fixos. A ansiedade. A dor.

Menos de uma semana após o massacre de 49 membros de minha família LGBT em Orlando, Flórida, muitos de nós já voltamos a enfrentar aquela velha e conhecida dor de nos sentirmos inseguros em espaços públicos, e esse sentimento passou a dominar nossa vivência no mundo.

Mas o que significa você se sentir inseguro quando caminha na rua, passa por um aeroporto, anda no metrô, entra numa mercearia?

Como explicar esse sentimento a pessoas que nunca tiveram que sentir-se incomodadas ou reprimidas devido a como manifestam seu gênero ou expressam seu caráter LGBT?

Não existe uma experiência que seja universal. A experiência que cada pessoa tem do mundo é influenciada por vários fatores que se entrecruzam – especialmente se você é uma pessoa de cor.

Mas a homofobia geralmente desperta um mal-estar muito específico naqueles que são seus alvos.

As pessoas LGBT têm mais chances de ser alvos de crimes de ódio que qualquer outro grupo minoritário. Por isso, a sensação provocada pela homofobia é basicamente a de conviver com o medo constante da violência.

É a sensação de entrar em um espaço e imediatamente avaliar o grau de ameaça que as pessoas em volta representam para você.

É ter que calcular, quando você se veste pela manhã, quanto assédio você vai aguentar sofrer na rua e basear sua escolha das roupas que vai vestir nessa decisão consciente.

É viver com medo constante da violência.

É ter consciência de como seu corpo e seus quadris se mexem quando você anda na rua – e ter consciência de onde você decide andar.

É ter hiperconsciência do tom e da inflexão de sua voz e do jeito como você diz coisas quando fala com desconhecidos.

É viver com medo constante da violência.

É ver parlamentares politizar seus direitos fundamentais como ser humano e destituir você desses direitos.

É ter que procurar no Google como cada lugar trata sua população LGBT quando você planeja qualquer tipo de viagem.

É viver com medo constante da violência.

É se perguntar se você talvez não consiga aquele emprego para o qual foi entrevistado porque você foi visto como “gay demais”.

É se preocupar com assédio quando você quer simplesmente ir ao toalete, porque você é visto como gay, transsexual ou alguém que não se enquadra nos papéis tradicionais de gênero.

É viver com medo constante da violência.

É temer pelos jovens LGBT que chegam à maioridade num mundo onde acabam de assistir â chacina de seus irmãos e irmãs pelo simples fato de serem quem são.

É preocupar-se com a população LGBT mais velha, muitos de cujos membros são obrigados a voltar para o armário para poderem sobreviver em lares de idosos, enquanto muitos vão envelhecer e morrer sozinhos porque suas famílias lhes deram as costas.

É viver com medo constante da violência.

É sentir medo de ter um simples gesto de afeto em público por uma pessoa que você ama.

É sentir medo de ser abatido a tiros no meio da noite – quando você está dançando, bebendo ou amando – simplesmente por ser quem você é.

É viver com medo constante da violência.

Para falar com toda franqueza, minha própria situação pessoal não é tão ruim assim, especialmente quando comparado a meus irmãos e irmãs transsexuais e pessoas de cor. Sou branco, alto e moro em Nova York, onde desfruto o privilégio de viver em uma bolha LGBT.

Mas ainda sinto medo e ainda fico paralisado com o medo constante da violência que acompanha o fato de ser gay e de ter que ficar atento e vigilante o tempo todo – mesmo que eu não deixe esse estado de alerta afetar minhas ações.

A homofobia é insidiosa; ela colore todas as experiências que temos como pessoas LGBT quando andamos em espaços públicos. Mas não podemos ter medo –e não podemos deixar que um mundo violento e odioso atrapalhe ou ofusque nossa singularidade, nossa magia ou nosso amor uns pelos outros.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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