Huffpost Brazil
Rafael Nardini Headshot

A elite do tênis brasileiro fica na favela da Rocinha

Publicado: Atualizado:
Imprimir

mateus

Matteus com a Rocinha ao fundo. O tênis já não é de elite

O tricampeão de Roland Garros Gustavo Kuerten é o responsável por traduzir a linguagem do tênis para gerações de brasileiros. Ele não usava branco, não tinha os cabelos ou barba milimetricamente aparados, sofria nas vitórias e nas derrotas e se jogava ao chão para comemorar os títulos. Um brasileiro legítimo, afinal. Bem longe do antigo ritualismo do tênis. Foi Guga quem plantou a semente do tênis para além dos bairros mais abastados e condomínios de apartamentos milionários das grandes cidades brasileiras. Foi ele quem mostrou que o tênis é, sim, um esporte nacional.

O mesmo Gustavo Kuerten esteve pessoalmente na inauguração da primeira quadra pública de saibro de tênis do Rio de Janeiro, em 2012, na favela da Rocinha. Lá estava o brasileiro lado a lado com o atual número um do mundo, Novak Djokovic (a grande estrela do tênis masculino nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro). Além de Guga e Djokovic, o lançamento da quadra da Rocinha teve a presença de Fabiano de Paula, tenista da Rocinha que já despontava no cenário nacional.

Quatro anos depois, e a quadra agora funciona como sede da Escolinha de Tênis Fabiano de Paula, fruto do desenvolvimento do tenista no circuito internacional. O menino da periferia se voltava para o seu bairro no sonho de ajudar outros tantos a ter uma chance como ele teve.

Para fazer o sonho do tênis prosperar, Fabiano iniciou sua trajetória como boleiro - o gandula do tênis - aos 11 anos. "Comecei [como boleiro] para ajudar em casa com as despesas. Na época, minha família estava com dificuldade e podia ajudar trabalhando no hotel. Tudo que eu ganhava, eu entregava para minha mãe", contou o tenista carioca, hoje número 638 do ranking da ATP, em entrevista ao SBT.

tenis rocinha

Exatamente como Fabiano, sete jovens, de 14 a 18 anos, foram escolhidos para serem boleiros durante as Olimpíadas deste ano. São todos da Rocinha. É deles a missão de ajudar na reposição rápida da bola em jogo durante as partidas disputadas no Rio de Janeiro.

Christian Torres, 14 anos, um dos boleiros da Olimpíada e uma das grandes apostas da escolinha, só começou no tênis por acaso. "Eu jogava futebol e a quadra alagou. Pedi para fazer aula de tênis e estou lá até hoje", conta. "Hoje, o tênis é tudo [pra mim]. Não faço mais nada além do tênis. De dez meses para cá, só faço isso."

Filho de um garçom e de uma ajudante de serviços gerais, Christian agora é nome fácil na Tênis Route, escola com pompa e circunstância no Recreio dos Bandeirantes, uma das regiões cariocas mais elitizadas. A gratidão de Christian é com o treinador Felipe Farias. "Ele ficava trocando bola comigo quando eu não sabia nada. Ele me deu minha primeira raquete também", lembra. "Se eu for profissional, ele vai ser meu técnico."

tenis rocinha

Christian e o sonho de se tornar profissional

Christian diz que seu golpe de direita é um dos pontos fortes. E não lista Djokovic nem Federer tampouco Nadal como favoritos da modalidade. "Gosto muito do [Milos] Raonic (tenista canadense). Ele é mais tranquilo na quadra, mais parecido com o que tento fazer em quadra", explica.

Matteus de Oliveira Vieira, 15 anos, é um dos outros boleiros. São quatro anos de tênis que deram para ele a certeza de querer seguir carreira profissional. Ele conta como o esporte ajudou sua vida fora das quadras. "O tênis me fortalece em muitas coisas. Antes ficava na rua, desrespeitava minha mãe, gritava com ela. Hoje eu penso melhor." Sem o tênis, Matteus diz que "não estaria em um lugar legal".

Da mesma forma como Christian, Matteus comemora o intercâmbio fora da Rocinha. "Só de ver o Marcelo Demoliner (tenista 71 no ranking da ATP) treinando lá na Route, eu fico mais animado". Mas, na volta para casa, quebrar preconceitos daqueles que não frequentam a comunidade também é um ponto importante para o menino. "A Rocinha tem muita coisa boa. Não tem tanta violência quanto passam nas reportagens", diz. "Muitas comunidades não têm projetos como o nosso tênis. Se a gente tem, é melhor aproveitar", ensina.

Vítor Hugo da Silva, um dos quatro professores da escola, acredita que pelo menos oito garotos da Rocinha têm chances de se destacarem como atletas. Todos eles treinam na Rocinha, mas também na Tênis Route. "Meu conselho é: com o esporte e com os estudos, eles podem tudo. Eles não podem deixar ninguém dizer que eles não podem ir atrás dos objetivos e dos sonhos que eles têm", diz.

O professor bate na tecla, no entanto, de que o foco de um projeto numa comunidade carente como a Rocinha não passa necessariamente por formar campeões das quadras, mas, principalmente, fora delas.

"Vou ficar muito feliz se acontecer de surgir um campeão. Mas só de estar deixando esses garotos longe das coisas erradas da nossa comunidade, fazendo deles cidadãos, já me sinto feliz", pondera. Mas, claro, é bom não duvidar. "O diferencial desses alunos é a vontade. A vontade deles é de se tornarem um novo Fabiano."

Quem sabe para os Jogos de Tóquio, em 2020, não teremos um jovem egresso de uma comunidade novamente na quadra? Não só como boleiro, mas agora com a raquete na mão e na disputa por medalhas!

  • Mauro Pimentel / HuffPost Brasil
  • Mauro Pimentel / HuffPost Brasil
  • Mauro Pimentel / HuffPost Brasil
  • Mauro Pimentel / HuffPost Brasil
  • Mauro Pimentel / HuffPost Brasil
  • Mauro Pimentel / HuffPost Brasil
  • Mauro Pimentel / HuffPost Brasil
  • Mauro Pimentel / HuffPost Brasil
  • Mauro Pimentel / HuffPost Brasil
  • Mauro Pimentel / HuffPost Brasil
  • Mauro Pimentel / HuffPost Brasil

Também no HuffPost Brasil

Close
NBA na Rocinha: Esporte e amor pela comunidade
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção