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A Vila Autódromo venceu a Olimpíada: Conheça a comunidade que resistiu às desapropriações no Rio

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Quando a Praia de Copacabana explodiu de alegria com o anúncio da Olimpíada no Rio de Janeiro, em 2009, ninguém poderia imaginar que lá em Jacarepaguá, na zona oeste da cidade, já haviam brasileiros se preparando para disputar os jogos. Eles não são craques no futebol, tampouco atletas de elite. Mas se tornaram imbatíveis em lutar pelo lugar em que vivem. Nos últimos sete anos, o treino foi diário na Vila Autódromo - comunidade vizinha ao Parque Olímpico. Entraram como zebra na partida e enfrentando um adversário disposto a tudo para desocupar a região.

Ameaça, pressão e até mesmo agressão não faltaram. Nada disso adiantou. A vila lutou e pode dizer com orgulho que venceu as Olimpíadas. A dois dias do início dos jogos, o Brasil já tem sua primeira medalha de ouro na categoria resistência. Das mais de 600 famílias que viviam no local, 20 conseguiram permanecer na terra. Nesta semana, a prefeitura entregou as chaves das novas casas.

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Sandra recebeu a chave da sua nova casa no último dia 30 de julho

"As pessoas não acreditavam que era possível resistir. Foi uma luta desigual, com muita pressão psicológica", conta Sandra Maria de Souza, 44, que vive há 25 anos na Vila Autódromo. "Nesses últimos sete anos, têm sido uma briga de formiga contra elefante", conta a moradora.

O Brasil nunca enfrentou nenhuma guerra civil na sua curta história, mas quem visita a Vila Autódromo tem a impressão de que o bairro foi totalmente bombardeado. O inimigo, nesse caso, é a própria cidade do Rio. Até 2014, a comunidade pulsava. Crianças jogavam bola e exploravam o bairro com suas bicicletas. O parquinho estava sempre lotado. Todos os vizinhos se conheciam e o tráfico de drogas passava longe do bairro.

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A Vila Autódromo virou alvo da especulação imobiliária porque está localizada em um ponto estratégico dos jogos olímpicos no Brasil. A vila é espremida entre os novos estádios e hotéis e a lagoa de Jacarepaguá, na zona oeste da cidade. Um terreno plano, de fácil acesso, com um cartão postal de causar inveja em qualquer morador da zona sul carioca. O planejamento dos organizadores dos jogos era construir as principais vias de acesso ao Parque Olímpico e transferir os moradores para um conjunto habitacional do programa Minha Casa, Minha Vida - o conjunto Carioca, que fica a dois quilômetros de distância da Vila Autódromo.

Apesar de tudo o que passamos, essa casa tem o sabor da vitória. Nosso direito de ficar foi respeitado e brigamos o tempo todo para que isso acontecesse. É uma nova história, a vida segue e a luta continua.

Hoje, a comunidade encolheu. Há apenas duas calçadas e uma igreja. À sua volta, onde antes haviam centenas de casas, sobrados e puxadinhos, sobrou um descampado e muitas histórias escondidas no chão da Vila Autódromo. "Apesar de tudo o que passamos, essa casa tem o sabor da vitória. Nosso direito de ficar foi respeitado e brigamos o tempo todo para que isso acontecesse. É uma nova história, a vida segue e a luta continua", diz Maria da Penha, de 51 anos, moradora da Vila desde 1994.

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Maria da Penha representa a resistência na Vila Autódromo. Agredida durante as desapropriações, a paraibana bateu o pé e não saiu da comunidade

Qualquer um que passe pela Vila Autódromo e pergunte por Dona Penha vai receber uma resposta com um sorriso no rosto. De frágil, ela só tem a aparência. A paraibana virou o símbolo de resistência da comunidade. Penha foi uma das primeiras a bater o pé e negar qualquer proposta de indenização que chegasse em sua porta. "Eu tenho um amor por essa terra, foi o lugar em que fui mais feliz na minha vida. Decidi não sair porque tenho direito de ficar aqui", afirma.

A empregada doméstica chegou aos sete anos de idade no Rio de Janeiro. Morou na Rocinha, onde conheceu o marido Luiz e construiu uma nova família. "Me mudei para a Vila Autódromo porque sempre gostei de ter espaço. Sempre sonhei em ter uma casa grande, criar minha filha. Foi um sonho quando cheguei aqui", conta.

E foi um sonho que virou realidade. Durante anos, Penha e Luiz juntaram todas as economias para construir o novo lar. "Me lembro até hoje do dia em que chegamos. Foi bem no meio da Copa do Mundo, jogo entre Brasil e Holanda. Não tínhamos nada em casa, mas a primeira coisa que fiz foi montar nossa televisão. Estávamos muito felizes", lembra Luiz Cláudio Silva.

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Só é possível ver o antigo terreno onde ficava a casa de Luiz e Maria atrás das grades que separam a Vila Autódromo do Parque Olímpico

Duas décadas depois daquela vitória por 3 a 2 em cima dos holandeses, Penha e Luiz só conseguem ver o terreno onde ficava a antiga casa por trás das cercas do Parque Olímpico. "Me lembro como se fosse hoje daquele 8 de março de 2015. Acordei às seis da manhã e mais de 200 guardas municipais estavam na frente da minha casa", diz Penha. "Coloquei minhas coisas na rua às pressas", relembra.

Foi nesse momento que vi como somos fortes unidos. Todos me ajudaram, como se fossem eles na minha pele.

Não sucumbir à pressão do governo teve seu preço. A família de Penha morou durante semanas na igreja da comunidade e necessitando de favores dos vizinhos. "Foi nesse momento que vi como somos fortes unidos. Todos me ajudaram, como se fossem eles na minha pele", destaca.

A chegada da Olimpíada e o risco de perder o lar fez Penha aprender a se empoderar, a lutar pelo seu pedaço de chão. Em cada protesto, ela esteve presente. Em cada desapropriação, resistia. No dia 3 de junho de 2015, a Vila Autódromo virou um palco de guerra. De um lado, a Polícia Militar. Do outro, um cordão humano de moradores pedindo respeito nas desapropriações. "Tentaram nos tirar a força. Apanhamos tanto naquele dia, quebraram meu nariz e um idoso foi agredido", relembra.

Desapropriações

A Vila Autódromo não foi a única comunidade que sofreu com as desapropriações no Rio de Janeiro. A capital fluminense construiu um legado de remoções para organizar as Olimpíadas no Rio. De acordo com relatório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), entre 2009 e 2015, mais de 23 mil famílias (o equivalente a 90 mil pessoas) foram removidas de suas casas pela prefeitura devido às recentes intervenções urbanas ou sob o argumento de que moram em zonas de riscos.

"O projeto Olímpico encobre um outro projeto, que é a cidade do mercado, do acionista. Quem não se encaixa nesse perfil, não pode estar nela", avalia o defensor público João Helvécio, do Núcleo de Terras e Habitação da Defensoria Pública do Rio de Janeiro.

Muitas das famílias removidas não receberam sequer indenização. Os argumentos são os mais sórdidos possíveis e a Justiça concordou com isso.

João é responsável pela maioria dos processos que os moradores movem contra a prefeitura questionando irregularidades nas remoções. Para ele, a Olimpíada representa a exclusão. "Quem não compra ou investe está fora do jogo", critica. "Muitas das famílias removidas não receberam sequer indenização. Os argumentos são os mais sórdidos possíveis e a Justiça concordou com isso", afirma.

A Vila Autódromo, por exemplo, recebeu nos anos 90 do Governo do Rio de Janeiro uma autorização para utilizar a área durante 99 anos. O que representava tranquilidade para a comunidade virou pesadelo com o anúncio dos jogos olímpicos. "No começo, a prefeitura prometeu que não iria retirar ninguém. Depois, mudou de idéia e começou a remoção forçada", conta Helvécio.

Plano Alternativo

Não foi só de resistência que a Vila Autódromo conseguiu sobreviver nesses últimos anos. Em 2013, os moradores foram desafiados pelo prefeito Eduardo Paes a desenvolver um plano alternativo que viabilizasse a permanência da comunidade. "Nos juntamos todos para pensar em alternativas. Ele nos desafiou pensando que não conseguiríamos em tão pouco tempo a achar uma alternativa. E conseguimos", conta Sandra.

A parceira da Vila Autódromo foi a equipe técnica da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da UFRJ. Poucos meses depois do desafio, os moradores apresentaram o Plano Popular de Urbanização. O projeto custava menos de R$ 14 milhões, nem 5% do que foi gasto pela prefeitura com as remoções - valor que ultrapassa os R$ 300 milhões. "A proposta era melhorar em vez de destruir. Toda a rede de drenagem seria reconstruída, casas novas seriam feitas e até mesmo uma creche seria disponibilizada para os moradores", explica Regina Bienenstein coordenadora assistente do Centro de Estudos e Projetos Urbanos da UFF.

Ficou claro para a gente que o objetivo da prefeitura era retirar as famílias. Não importa o que fizéssemos, nada seria aceito.

O projeto foi enviado ainda em 2013 para o governo municipal, mas não houve acordo por parte da Prefeitura. "Fizemos todos os ajustes que els pediram. Criamos saídas para o Parque Olímpico, retiramos as casas que ficavam na beira da lagoa", relembra Bienenstein. "Mas ficou claro pra gente que o objetivo da prefeitura era retirar as famílias. Não importa o que fizéssemos, nada seria aceito", defende.

Depois que as negociações foram rompidas, a prefeitura do Rio adotou a tática de assediar os moradores. Indenizações milionárias para alguns, ameaças para outros. Quando nenhuma dessas duas alternativas funcionavam, a Justiça era acionada para retirar os moradores a força, como aconteceu com Penha. "Me sinto triste em pensar que muitos foram embora, mas gostariam de estar aqui. E isso seria possível se houvesse o mínimo de respeito pelos nossos direitos", critica.

A família de Iran Souza, de 38 anos, não resistiu a tanta pressão. Com a mulher e os três filhos, ele decidiu deixar a comunidade para viver no Residencial Carioca, em Curicica. Eu não queria ter saído, mas pensei na minha família. Os agentes da prefeitura iam todos os dias na minha casa para me ameaçar. Acabei aceitando o apartamento", conta.

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Prefeitura prometeu apartamento quitado para os ex-moradores da Vila Autódromo, mas cobranças não param de chegar na casa de Iran

No acordo, a prefeitura prometia entregar o apartamento de três quartos com o financiamento quitado. Mas a realidade é totalmente diferente. Todos os meses, a caixa de correio de Iran está repleta de cobranças da Caixa Econômica Federal. "Os valores começaram a chegar e cheguei até ficar com meu nome sujo por isso", diz.

Meu coração aperta em pensar que deixei tudo para trás. E hoje ainda me pergunto o porquê de tudo isso. Precisava retirar tanta gente para um evento de duas semanas?

Dentro do apartamento, os sinais de problemas na construção são visíveis. As paredes estão rachadas, o encanamento central rompeu na primeira semana. Os azulejos desgrudaram da parede e do piso. "Haja dinheiro para pagar financiamento e consertar tantos problemas. Tente imaginar se isso aconteceria se precisassem remover um bairro na zona sul. A história seria bem diferente", afirma Iran.

Motorista da Uber, Iran passa todos os dias em frente a comunidade em que um dia viveu. A saudade não faz questão de se esconder. "Meu coração aperta em pensar que deixei tudo para trás. E hoje ainda me pergunto o porquê de tudo isso. Precisava retirar tanta gente para um evento de duas semanas?".

Olimpíada

Atrás das cercas que rodeiam a Vila Autódromo, milhares de atletas e turistas vão circular nas próximas semanas. Provavelmente poucos saberão o que está por trás das vinte casas brancas ao lado do Parque. Nenhum dos poucos mais de cem moradores foram convidados para ultrapassar a barreira divisória e ver o evento que tanta tristeza causou. "Para mim, a Olimpíada vai deixar um legado muito triste. O brasileiro não foi consultado se queria os jogos. Eu não fui. Faltou respeito com as favelas e o povo carente", destaca Penha.

O que passamos só foi mais uma repetição do ciclo da história. É o descendente de escravos, que constrói novas regiões e que quando elas valorizam são expulsos sem mesmo um até logo.

Na casa de Sandra, Olimpíada é um assunto morto. Ninguém fala ou ousa comentar. "Por que assistiria a um evento que só nos trouxe sofrimento?", indaga. "O que passamos só foi mais uma repetição do ciclo da história. É o descendente de escravos, que constrói novas regiões e, quando elas valorizam, são expulsos sem mesmo um 'até logo'".

Na sexta-feira (5), milhões de espectadores vão acompanhar a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Mas a televisão de Luiz, recém-instalada na casa nova, não vai estar ligada como na Copa de 1994. "A gente precisa parar de usar o esporte como desculpa para o lucro. Sou professor de educação física, amo esportes, mas a minha audiência eles não terão."

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