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Marido perde esposa para o câncer, mas leva adiante o desejo dela de salvar pessoas

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Quase todas as organizações beneficentes têm alguma história emocionante em sua origem. Quase todas foram inspiradas por pessoas que demonstraram coragem extraordinária, mesmo quando estavam doentes.

Rosie Choueka é uma dessas pessoas. Sua história é feita de generosidade e perseverança.

Quando Rosie entendeu que sua guerra contra o câncer terminal estava perdida, ela se muniu de força ainda maior para lutar por todas as outras pessoas, em vez de por ela própria.

família
Elliot e Rosie Choueka com seus dois filhos.

A vida de Rosie terminou de modo precoce e trágico em 2015, devido a um câncer de mama secundário (ou terminal). Ela tinha apenas 38 anos.

O câncer de mama secundário é aquele em que o câncer de mama se espalha para outras partes do corpo.

As pesquisas nessa área contam com financiamento escasso. Para resolver esse problema, a entidade Breast Cancer Now (Câncer de Mama Agora) aumentou os recursos para pesquisas sobre câncer de mama secundário, que agora representam 18% de seus gastos totais.

“O câncer de mama secundário precisa ser priorizado nas pesquisas, já que é ele, em última análise, a razão pela qual mulheres morrem de câncer de mama. E as pesquisas nesta área são cruciais para nossos objetivos para 2050”, diz um porta-voz da entidade beneficente.

Antes de falecer, Rosie fez vários pedidos a seu marido, Elliot. Um deles foi que ele criasse uma organização beneficente que financiasse pesquisas sobre câncer de mama secundário, para que, um dia, outras mulheres em situação semelhante à dela possam sobreviver.

Depois da morte de Rosie, Elliot mergulhou de corpo e alma na criação de uma entidade beneficente que não apenas contasse a história de sua mulher, mas que “dure mais tempo que todos nós”.

Chamada Secondary1st (Secundário em Primeiro Lugar), a entidade foi fundada em 28 de junho e criou uma parceria estratégica com a organização Breast Cancer Now, o que significa que os recursos que ela levanta são gastos exclusivamente com pesquisas sobre o câncer secundário de mama.

É devido à ausência de pesquisas nessa área que Rose Choueka não está viva hoje. E isso é algo que o marido dela quer mudar a qualquer custo, para que outras famílias não sejam obrigadas a passar pelo mesmo sofrimento que a dele.

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Rosie e Elliot depois de se casarem, em 2004.

Rosie tinha 37 anos quando encontrou uma massa, como uma bolota, no seio. Depois de fazer exames, recebeu o diagnóstico de câncer de mama primário.

“Fomos saber que ela tinha câncer de mama triplo negativo, que é muito raro e é uma das formas mais agressivas do câncer”, explica Elliot.

“Quando recebemos a notícia, fizemos inúmeras perguntas. Não me lembro se choramos na hora, mas sei que choramos
quando entramos no carro e telefonamos aos pais de Rosie.”

“Nossa intenção era que eu ligasse para os pais dela para lhes transmitir a notícia, porque seria duro demais para a própria Rosie fazer isso. Mas, no fim, eu desabei completamente e foi ela quem teve que contar aos seus pais.”

Depois do diagnóstico, Rosie fez uma lumpectomia, seguida por sessões de quimioterapia entre agosto e novembro de 2014.

Algumas das sessões de quimio duravam oito a nove horas.

“Foi horrível acompanhá-la passando por isso. A quimioterapia é debilitante”, diz Elliot. “A ironia da maioria dos tipos de câncer é que é o tratamento que deixa a pessoa mal. A pessoa não se sente doente com o câncer, inicialmente –obviamente, se deixá-lo sem tratar, vai acabar ficando muito doente mesmo. Mas foi o tratamento que a enfraqueceu demais.”

filhos do casal
Natalie, 8 anos, e Joseph, 5, os filhos de Elliott e Rosie.

Elliot diz que foi muito difícil contar aos filhos que Rosie estava com câncer. Joseph, o filho mais novo do casal, nasceu profundamente surdo e tinha apenas 4 anos de idade quando Rosie recebeu o diagnóstico. A filha deles, Natalie, tinha 7, mas ainda era pequena para compreender plenamente o que estava acontecendo.

“Não dissemos nada às crianças no primeiro momento”, contou Elliot. “Joseph era muito pequeno. Falamos para Natalie que a Mamãe não estava bem, que ela teria que fazer uma cirurgia e que tomaria um remédio, a quimio, que a faria sentir-se muito mal e que talvez lhe provocasse queda de cabelos. Não usamos a palavra ‘câncer’.”

Elliot não sabia o que podia fazer para ajudar sua mulher, então ligou para o disque-ajuda da Breast Cancer Care para receber conselhos sobre o que poderia fazer. Ele comenta que, em última análise, o que o ajudou foi o fato de que Rosie se conformou com a situação e que ela própria pesquisou tudo a fundo.

“Ela não tentou negar que tivesse essa doença”, ele comenta. “Era algo que ela precisava enfrentar e dar um jeito. Ela seguiu o tratamento, continuou a trabalhar. Não queria enfiar a cabeça na areia, como se fosse uma avestruz. Mas, ao mesmo tempo, queria continuar com a vida normal.”

Depois de concluir o tratamento primário, Rosie recebeu alta do oncologista e do cirurgião de mama. Estava melhorando, finalmente.

Mas cinco dias mais tarde ela encontrou outra bolota e voltou ao hospital. Foi submetida a uma bateria de exames, e os resultados foram arrasadores: o câncer tinha chegado ao seu fígado. Ela estava com câncer secundário de mama.

O tratamento seguinte foi quimioterapia outra vez, mas um ciclo mais intenso.

“Foi dificílimo”, conta Elliot. “Acho que foi após seis ciclos desse tipo de quimio que uma das enfermeiras disse a Rosie que todas as outras mulheres que tinham seguido esse tratamento só tinham conseguido fazer um ciclo. E ela já tinha feito seis. Ela insistiu que faria tudo e que superaria tudo.”

As sessões de quimioterapia começaram antes do Natal de 2014. O tratamento para encolher o câncer estava funcionando, mas estava tendo impacto negativo sobre seu hemograma. Sua contagem de hemácias caía constantemente.

Rose recebeu transfusões de sangue para tentar se fortalecer, mas isso não foi o bastante.

“O oncologista explicou que ela teria que parar de fazer a quimioterapia, senão a própria quimio a mataria”, explicou Elliot.

família
Elliot, Rosie e seus filhos, Natalie e Joseph.

Nesse momento o casal começou a preparar seus filhos para dizer a eles que Rosie talvez fosse morrer.

Ela foi aceita para passar por radioterapia interna seletiva, um tipo especial de radioterapia voltada a combater o câncer em seu fígado. Mas, para fazer o tratamento, teve que parar de fazer a quimio.

Durante uma brecha entre os dois tratamentos, a família foi passar férias em Israel. Foi então que Rosie ficou muito, muito doente.

“Dois dias depois das férias começarem ela teve um vírus gástrico, mas insistiu que não precisava ir ao médico”, contou Elliot.

Os dias foram se passando e ela foi ficando cada vez pior.

“É só quando olho as fotos daquela época que eu percebo como ela estava mal”, diz Elliot.

A família voltou das férias no dia 31 de maio de 2015, e no dia seguinte Rose foi ao hospital. O cirurgião de mama quis interná-la de imediato. Rosie insistiu que podia voltar para casa, mas na manhã da terça-feira ela já estava recebendo soro com morfina.

“Daquele momento em diante foi um declínio lento e constante”, Elliot recorda.

“Rosie tinha sintomas muito estranhos. Ela caiu quando quis ir ao banheiro. Quando ela tentava tomar água ou outra coisa, não conseguia manter os braços erguidos, e o copo caía.

“Todos pensamos que o câncer tivesse chegado ao cérebro dela – era seu maior medo. Mas fizeram uma tomografia cerebral, e o resultado foi que as toxinas no sangue dela estavam tomando conta de seu corpo, porque o fígado tinha parado de funcionar, e é o fígado o responsável por purificar o sangue.”

Na sexta-feira seguinte Rosie foi transferida para a clínica de cuidados paliativos Marie Curie, em Hampstead.

“Lembro que estávamos na ambulância, indo do hospital para a clínica, e Rosie estava bem animada, bem desperta, e estávamos conversando”, Elliot recorda. “Ela comentou sobre a ironia, porque estávamos voltando para o lugar onde nos conhecemos. Nossa vida a dois terminaria no mesmo lugar onde começou.”

Em seus momentos finais de vida, Rosie estava muito fortemente medicada e passava boa parte do tempo dormindo. Foi nesse momento que Elliot teve que explicar aos filhos que “Mamãe ia morrer”.

Ele recorda: “A última vez em que eles viram Rosie foi na quinta-feira antes de ela morrer. Eu não tive coragem de lhes dizer que seria a última vez que eles a veriam. Naquele dia eu os mandei darem adeus a ela. Mas, obviamente, eles não devem ter entendido direito o que isso queria dizer.”

Cinco dias depois da visita final das crianças ao hospital, Rosie faleceu.

“Eu tinha telefonado para Natalie pela manhã para lhe desejar um bom dia na escola e perguntei se ela tinha algum recado para a mamãe. Ela falou para mandar um beijo”, diz Elliot. Ele estava passando aqueles dias ao lado de Rosie na unidade de cuidados paliativos.

“Voltei para o quarto de Rosie, lhe dei um beijo e ela me beijou de volta. E uns cinco minutos mais tarde ela se foi.”

a ultima foto
A foto final da família junta.

Nos meses que antecederam sua morte, Rosie cuidou do que precisaria ser feito quando ela não estivesse mais presente.

“Ela me deixou três cartas”, explica Elliot. “Uma era uma carta de quatro páginas, explicando o que eu deveria fazer imediatamente depois de ela morrer. A carta terminava com ‘não se esqueça de comer’.”

“Ela me deixou uma carta cheia de suas recordações de nossa vida juntos, e ela escreveu uma carta dizendo quais de seus pertences preciosos deviam ficar com quais amigos e familiares.

“Ela tinha organizado caixas de lembranças para as crianças e tinha começado a escrever cartões de aniversário para as crianças. Ela tinha comprado cartões para 20 anos, mas só conseguiu escrever nos cartões para os próximos três aniversários deles.”

“Rosie pediu que eu seja sepultado ao lado dela. Ela me contou como queria que as crianças sejam criadas. Me falou que queria que eu encontrasse outra companheira e não passasse a vida sozinho. Ela era completamente altruísta.”

E, num gesto que talvez tenha sido o mais importante para ela, Rosie pediu a Elliot que criasse uma organização beneficente para levantar recursos para pesquisas sobre câncer secundário de mama.

Depois da morte de Rosie, Elliot começou a criar a entidade, ao mesmo tempo em que lidava com a vida, cuidava dos dois filhos pequenos e trabalhava em tempo integral como diretor de criação da Experion.

A Secondary1st é algo do qual Rosie com certeza sentiria orgulho.

O objetivo da entidade é canalizar recursos para pesquisas sobre o câncer secundário de mama e para conscientizar a população sobre a doença.

Kris Hallenga, fundadora da organização Coppa Feel, recebeu o diagnóstico de câncer secundário de mama sete anos atrás.

Ela diz que a falta de consciência do público em relação à doença é um problema enorme que precisa ser combatido.

“Frequentemente ouvimos falar em câncer ‘avançado’, ‘metastático’, ‘de quarto estágio’ e ‘secundário’. Sabe de uma coisa?

Todos esses termos querem dizer a mesma coisa. E todos acabam conduzindo à morte”, ela disse ao HuffPost UK.

“O câncer que é encontrado em uma área e não sai dessa área, por exemplo a mama, não mata a pessoa. É quando ele se espalha para seus órgãos e cresce até chegar a um tamanho que impede o funcionamento normal dos órgãos vitais que ele passa a representar uma ameaça de morte.”

Hallenga diz ainda:

“Quando meu câncer de mama foi diagnosticado, havia um clima de urgência, a ideia de que eu faria uma mastectomia e ficaria bem. Uma semana depois, já percebemos que o câncer já tinha se alastrado, e a urgência cresceu exponencialmente. Em lugar de ‘vamos curar isto daqui’, a ideia passou a ser ‘vamos ver por quanto tempo conseguimos manter você viva’.”

“Não é preciso apenas mais dinheiro para pesquisas sobre câncer secundário –também é preciso uma mudança de atitude. Sete anos se passaram e eu continuo aqui, e assim como eu há milhares de outras pessoas convivendo com o câncer todos os dias. Quanto antes o público foi informado sobre o câncer secundário, melhor.”

Katie Goates é a executiva sênior de comunicações sobre pesquisas na Breast Cancer Now. Ela explica que a dificuldade com o câncer secundário de mama é que os tumores secundários não são operados, de modo que os pesquisadores não têm acesso a tumores com os quais fazer experimentos.

Segundo ela, para que o câncer secundário de mama possa ser tratado há uma série de perguntas que precisam ser respondidas:

“Por exemplo, como impedimos o câncer de se espalhar, em primeiro lugar, e como o impedimos de tornar-se um câncer secundário de mama? Mesmo quando ele se espalha, algumas pessoas apresentam células cancerosas que ficam dormentes e então voltam a manifestar-se como câncer secundário de mama.

Além disso, os cânceres secundários têm facilidade em adquirirem resistência ao tratamento, depois de um período de tempo. Precisamos entender por que isso acontece.”

Ainda há um longo caminho a percorrer antes que possamos começar a salvar vidas de pessoas com câncer secundário de mama. Mas, com a ajuda da Secondary1st, quem sabe isso comece a acontecer em menos tempo.

A morte de sua mulher foi motivo de sofrimento indescritível para Elliot nos últimos 12 meses, mas ele diz que agora é chegada a hora de olhar para frente.

“Você se acostuma pouco a pouco à ausência da pessoa. Ela ainda está presente, mas não está", ele diz.

“Rosie era o tipo de pessoa que se dava bem com todo o mundo. Era uma pessoa que gostava de gente. Ela era inteligentíssima, mas nunca fazia ninguém sentir-se menos inteligente ao lado dela. Ela era uma ótima mãe, uma filha ótima filha, uma esposa maravilhosa e advogada de sucesso tremendo.”

A coisa mais importante para ele, agora, é continuar a viver a vida, lançar uma entidade beneficente bem-sucedida em nome de Rosie e nunca deixar seus filhos se esquecerem de quem foi a mãe deles.

“Natalie me pede todas as noites para lhe contar uma história sobre a Mamãe”, Elliot revela.

“Tenho centenas de fotos de Rosie, então geralmente pego uma delas a esmo, a gente olha para a foto e eu lhe digo onde ela foi feita e o que estávamos fazendo. Natalie não dorme sem que eu lhe conte histórias.”

Elliot acrescenta: “Rosie sempre vai estar presente nas fotos, nos vídeos e nas nossas recordações. Ela nunca vai sair de nossas vidas.”

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Rosie Choueka jamais será esquecida.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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