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Lenda do judô, Geraldo Bernardes transforma pessoas como Rafaela em campeãs no esporte e na vida

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Uma cirurgia delicada, duas pontes de mamária e quatro de safena é um sinal para parar. Pode até ser, mas o técnico de judô Geraldo Bernardes, 73 anos, fez outra análise: "se eu sobrevivi, é porque ainda tenho algo a fazer". Uma parte dessa missão fez a alegria dos brasileiros nesta segunda-feira (8) com o primeiro ouro na Rio 2016.

Em 2000, o judoca - que até então já tinha participado de quatro olimpíadas (88, 92, 96 e 2000) - deixou o comando da seleção brasileira. Em vez de se aposentar, decidiu colocar o quimono novamente e buscar talentos nas comunidades carentes do Rio de Janeiro. Um desses foi Rafaela Silva, a ouro olímpico. Popole Misenga e Yolande Bukasa, refugiados congoleses no Brasil que estão na Rio 2016, também são treinados por Geraldo.

geraldo bernardes

Os atletas do judô refugiados Yolande Mabika e Popole Misenga posam com o treinador Geraldo Bernardes durante visita à Vila Olímpica

“Entre colocar o pijama ou ajeitar o quimono e recomeçar, escolhi a segunda opção. Conquistas esportivas são como páginas viradas, glórias passageiras. Fiz uma boa carreira como atleta e, como técnico, ajudei na conquista de seis medalhas olímpicas, mas tudo ficou pequeno diante do que faço hoje, que é transformar pessoas como Rafaela, que tinha poucas perspectivas, em campeãs no esporte e na vida”, disse à Confederação Brasileira de Judô neste ano.

A decisão de Geraldo, de deixar a elite do esporte para se dedicar a comunidades carentes, foi bastante criticada.

“Ouvia as pessoas dizendo que eu estava por baixo com os 'pobrinhos'. Mas sempre acreditei nos atletas que vêm de comunidades. Esporte de alto rendimento é sacrifício. E eles estão acostumados a dar tudo de si”, disse ao jornal O Globo.

Três anos depois da guinada na carreira, os talentos do Judô Comunitário Geraldo Bernardes Body Planet já eram bicampeões cariocas. No mesmo ano, um dos poucos brasileiros a usar a faixa vermelha (segunda mais alta após a preta), o técnico incorporou seu projeto ao Instituto Reação, do seu pupilo, o medalhista olímpico Flávio Canto.

Com cinco polos espalhados pelas comunidades do Rio, o instituto atende mais de 1,2 mil crianças, adolescentes e jovens a partir dos 4 anos. Um dos polos é o da Cidade de Deus, onde as irmãs Rafaela e Raquel Silva começaram a treinar.


Esporte que transforma

A história de Geraldo no judô começou quando ele tinha 15 anos. Treinava escondido dos pais, que só descobriram quando ele apareceu na televisão para fazer uma demonstração. Na época, o judoca já era casado e campeão carioca.

“Não era comum que os pais levassem os filhos para fazer esportes; lutar então era visto como coisa de marginal”, explicou ao One Round.

“Participei nessa época (em 1963) de muitas competições, alguns tirei vice-campeão, terceiro lugar, fui campeão carioca por alguns anos e depois dei uma parada nas competições, passei a dar aulas, como hobby, pois eu trabalhava no Banco Nacional e não dava para se sustentar apenas com o judô.”

A carreira de técnico começou em 1979, com um convite para ser um dos treinadores da equipe brasileira de judô em um campeonato mundial em Paris. Em 2000, se despediu da seleção: “quando saí, tinha três coisas para fazer: falar mal de quem havia me tirado; botar o pijama, pois já havia feito muita coisa na carreira; ou começar um trabalho novo”.

Graças ao novo trabalho, vimos Rafaela Silva brilhar na Rio 2016.

A atleta quase desistiu do esporte após a derrota nas Olimpíadas de Londres 2012, quando perdeu para a húngara Hedvig Karakas ao tentar aplicar um golpe ilegal. Negra, recebeu como resposta dos brasileiros uma enxurrada de protestos racistas.

Os comentários abalaram a atleta, que entrou em depressão.

Foi Geraldo que fez Rafa persistir. “Fizemos uma operação para recuperá-la. Não podíamos perder um talento assim.”

O ouro dela foi vitória da dedicação da judoca — claro, com o incentivo do mestre:

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