Huffpost Brazil

No que depender de Winona Ryder, pessoas sensíveis não serão tachadas de loucas ou fracas

Publicado: Atualizado:
Imprimir

winona ryder

Não dorme, não toma banho, se comunica com o filho por meio de luzes, enxerga figuras estranhas e se recusa a se comportar com serenidade e decoro quando é isso que se espera de uma "mãe sensata".

"Ficou louca", nós, espectadores, logo concluímos ao acompanhar o desespero de Joyce Byers diante do desaparecimento do filho, Will, no seriado Stranger Things.

Mas essa "loucura" se revela crucial para o desenrolar da trama, e caso você já não esteja a par do desfecho dessa bem-sucedida produção do Netflix, bom, vamos zelar pelo seu direito a uma vida sem spoilers, ainda mais aqueles explícitos.

Joyce, que cria dois filhos sozinha, é interpretada pela norte-americana Winona Ryder, que falou sobre importantes questões de saúde mental em uma entrevista à New York Magazine.

Ela não poupou críticas aos estigmas criados a quem se mostra vulnerável ou é tachado de louco - especialmente no caso das mulheres.

"Tem uma parte do roteiro em que uma pessoa diz [sobre Joyce] 'Ela teve problemas de ansiedade no passado'. Várias pessoas entenderam isso como 'Ah, você sabe, ela é louca', e eu penso 'Tá, peraí, ela está batalhando'. Duas crianças, um pai [das crianças] malandro, e ela trabalha muito duro para criá-las. Quem não ficaria ansiosa?"

Na entrevista, Winona diz que sensível frequentemente é usada como algo ruim, como um eufemismo para fraco ou louco. E o mesmo ocorre com ansiosa.

Conhecida por filmes como Edward Mãos de Tesoura e Garota, Interrompida, ela diz que é comum pensarem nela como uma pessoa supersensível e frágil. "E eu sou supersensível, e não acho que isso seja algo ruim. Para fazer o que faço, eu preciso continuar aberta."

Ao produzir e estrelar Garota, Interrompida, Winona queria mostrar que os conflitos retratados no filme poderiam ocorrer com praticamente qualquer garota. E ao tentar derrubar o tabu em cima dos problemas de saúde mental, a atriz acabou ficando estigmatizada como alguém não saudável mentalmente.

Em 1999, em uma entrevista ao programa da jornalista norte-americana Diane Sawyer, Winona falou, pela primeira vez, sobre sua depressão. Ela descreve suas emoções e, depois, diz à entrevistadora que sentiu vergonha de ter tido depressão em meio à vida privilegiada que tinha.

Ao falar de dificuldades, conflitos e ambivalência, Winona não só deu um tom realista e imperfeito à vida de cada um de nós, como também inspirou algumas pessoas a procurarem ajuda, como ela lembra na entrevista à NY Mag.

"Não me arrependo de ter desabafado sobre a depressão porque pode até soar muito clichê, mas algumas mulheres me disseram 'isso significou muito pra mim'. Significa tanto quando você percebe que uma pessoa não estava bem, e mesmo assim se sentia envergonhada e tentava esconder o problema... e isso inclui toda aquela história de sensibilidade e fragilidade. De fato eu tenho estas características, e não acho que tenha algo de errado com elas. Houve vezes em que senti tudo de maneira intensa e praticamente com vergonha, mas eu precisei superar isso."

stranger things

Voltando para a ficção, Joyce só é louca porque se diferencia dramaticamente do que é considerado saudável. Porém, no caso dela, que vive a própria "loucura" como realidade, e no nosso caso, espectadores, que embarcamos com ela, o limiar entre loucura e normalidade fica bastante borrado, e essa falta de fronteira não só revela lucidez de onde menos esperamos, como também se mostra vital.

Parece que estamos falando de vida real, não?

Viver bem é o tipo de desejo tão universal que se tornou um direito. Mas não há fórmula ou mágica que o garanta, o que deixa, para cada um de nós, a difícil tarefa de descobrir e pavimentar o próprio caminho. A newsletter de Equilíbrio vai trazer a você textos e entrevistas sobre saúde mental, angústias, contradições e alegrias da vida. Assine aqui para receber novidades no fim de semana.

LEIA MAIS:

- Afinal, o que é ser 'normal'?

- ‘Mas você não parece estar deprimido': 22 relatos sobre o que não está visível na depressão

- Como é viver com ansiedade: 15 relatos dos nossos leitores sobre angústias diárias

Também no HuffPost Brasil

Close
Indiana ilustra emoções de pessoas ansiosas
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção