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7 histórias tão cariocas que parecem até ficção

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O Rio de Janeiro é uma terra de personalidade única, percebida tanto pelos turistas como pelos locais. Selecionamos sete histórias engraçadas, emocionantes e inspiradoras, 100% Cariocas - ou seja, que, de tão maravilhosas, só poderiam ter acontecido no Rio.

O calote da recompensa

“Há um tempo estávamos atendendo um cliente que bebeu demais e resolveu tirar a dentadura para ficar mais à vontade. Ele enrolou a prótese em um guardanapo e a deixou em cima da mesa enquanto se divertia. O garçom pensou que se tratava de um papel sujo e jogou os dentes no lixo. Ao perceber o equívoco na hora de pagar a conta, o cliente desesperado convocou todos que estavam no bar lotado a procurarem pelo objeto perdido, prometendo uma recompensa de 200 reais. Depois de quase uma hora de busca, um garoto encontrou a dentadura... Mas o dono só pagou 50 reais e pediu para parcelar o restante em três vezes. É claro que o jovem jamais viu a cor desse dinheiro (risos)!” - Sergio Rabello, dono do bar Galeto Sat's, em Copacabana.

Quando um taxista mudou o endereço da Urca

cordão do boitatá
Foto: Flickr/Rodrigo Soldon

Aquele carnaval era a primeira vez em que Pedro Cyrino, psicólogo de 31 anos, retornava ao Rio, depois de um ano trabalhando em São Paulo. A maratona de blocos começou às 8h no Leblon e foi até o fim da tarde, quando Pedro convenceu os amigos a irem até um bloco na Urca. Já cansado, o grupo dormiu no táxi. Também cansado, o taxista viu a oportunidade de encerrar logo o turno. Parou o carro no meio do caminho e gritou acordando os rapazes: “Desçam, aqui é a Urca.” Pedro ficou furioso quando percebeu que estavam no bloco errado, no Leme. Ia chamar outro táxi, mas aí… Patrícia Diniz, 35 anos, mais conhecida como "A MULHER MAIS LINDA QUE PEDRO JÁ VIU" o olhou. O psicólogo convenceu os amigos a ficarem onde estavam.

Ele e a moça compartilhavam a paixão pelo carnaval. Sem celular, os dois combinaram de se encontrar novamente à moda antiga: embaixo de uma estátua na Praça XV, no bloco do Cordão do Boitatá, dali a quatro dias, às 8h. No local e data marcada, Pedro procurava por Patrícia, mas não tinha esperanças de encontrá-la no meio da multidão. “Ela era muito bonita, achei que nem ia me dar bola”, conta o rapaz apaixonado, que escalou um poste na tentativa de avistá-la. Deu certo.

“Até hoje agradeço pela malandragem do taxista, que me levou ao bloco errado para encontrar a pessoa certa”, conclui Pedro. O psicólogo voltou a morar no Rio por Patrícia e hoje eles estão casados e grávidos. O bebê, em homenagem ao carnaval, vai se chamar Eva.

O dia em que Romário perdeu de virada

“Eu tinha 15 anos e estava na praia com meu pai no domingo de manhã. Na noite anterior, o carro dele tinha sido roubado. O clima estava baixo astral. De repente, ele perguntou se eu queria acompanhá-lo em um jogo do Flamengo no Maracanã. Saímos da praia correndo e partimos para o estádio. Ao chegarmos, os ingressos tinham acabado. Não desistimos e pagamos caro por bilhetes de cambista para as cadeiras que ficavam embaixo da arquibancada. A partida já havia começado quando entramos.

Até o segundo tempo, o adversário, Fluminense, ganhava por 3 a 1. Era a primeira vez em que eu via Romário, meu grande ídolo, jogando contra o meu time ao vivo. A torcida deles gritava ‘olé’ para cima de nós e eu só queria ir embora. Eis que, no final do jogo, o milagre aconteceu! O Flamengo virou o placar em menos de vinte minutos: ganhamos por 4 a 3. Depois de todos os perrengues, deu tudo certo. Foi o jogo mais emocionante ao qual já assisti em um estádio.” - Renato Senna, 25 anos, jornalista esportivo fissurado por futebol.

Queria ser jogador e hoje é um técnico campeão

tabajaras
Foto: Flickr/Bioregional

O sonho de Alexsandro de Azevedo, o Lekinho, produtor cultural de 29 anos, era ser jogador de futebol. Mas a necessidade de ajudar a mãe a manter a casa o desviou do objetivo e, aos 20 anos, ele teve seu primeiro emprego com carteira assinada, em um supermercado no Saara, Centro do Rio de Janeiro. Depois que casou e teve o primeiro filho, Lekinho percebeu que poderia ajudar a realizar o sonho dos jovens da comunidade onde mora, o morro dos Tabajaras, na Zona Sul. Junto a um grupo, assumiu a liderança do projeto Lajão, da Associação Futuro Legal, inspirado em uma iniciativa que já existia por lá, mas que estava abandonada. Lekinho hoje coordena o time de futebol do Lajão, que já venceu dois campeonatos entre comunidades da cidade. “Com perseverança, ganhamos respeito na comunidade e mudamos a vida das pessoas”, afirma Lekinho. O projeto realiza atividades culturais e esportivas para mais de 200 crianças, jovens e adultos, ajudando a mantê-los afastados do tráfico.

O romance de Carnaval que rolou em dezembro

Mangueirense fanática, Manuela Carnaval, mestranda de 25 anos, era amiga de Rodrigo Tarsiano, engenheiro de 24 anos, desde o Ensino Médio. Ela nutria pelo rapaz, que é Portela, um sentimento maior e já tinha perdido as esperanças de ser correspondida. Foi numa feijoada da Portela (quem diria!), em pleno 2 de dezembro, Dia do Samba, que seu destino mudou. Depois de um domingo inteiro curtindo marchinhas da velha guarda, cujas frases afirmavam que a Portela é o lugar perfeito para se apaixonar, Rodrigo começou a se engraçar para ela de uma forma diferente. Na rampa de saída da escola de Madureira, o casal se beijou pela primeira vez. “Uma das músicas da escola compara a águia da Portela na Sapucaí ao Espírito Santo. Eu digo que a águia fez milagre e mudou o pensamento dele a meu respeito”, brinca a moça. Desde então, os dois compartilham juntos a paixão carnavalesca que Manuela carrega no nome.

A Julieta que fugiu do Romeu em um mototáxi

shakesfunk
Foto: Andressa Martins/Cia Completa Mente Solta

No baile funk:
Romeu: - Pô, tu é a Julieta, filha do capitão do BOPE?
Julieta: - É, né? Ninguém é perfeito. Mas você é Romeu, filho do dono do movimento. Quer saber? Seu pai ganha mais que o meu!
Romeu: - Ih, já tá de olho na minha grana!
Julieta: - Qual é? Sai fora! Eu só quero é curtir o baile!

O diálogo entre as versões cariocas de Romeu e Julieta compõe o texto da peça “Shakesfunk”, um espetáculo criado por jovens moradores de favelas, que mistura trechos de peças de Shakespeare com experiências dos próprios atores em suas comunidades. A ideia da peça, escrita em “favelês” - como os moradores definem o estilo de falar característico dos morros cariocas -, surgiu em 2010, depois que os alunos da Cia Completa Mente Solta assistiram à atuação de Marcio Januário, artista e diretor da companhia de teatro, de 51 anos, em uma peça que reunia trechos das obras do poeta inglês. “Esses jovens veem a vida dos pontos mais altos da cidade, encontram beleza e energia criativa onde ninguém vê e criam em grupo alternativas para transformar o mundo em um lugar mais justo, tolerante e belo”, diz Marcio. Em Shakesfunk, Julieta, filha do capitão do BOPE - a tropa de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro -, se recusa a morrer, larga Romeu, filho do dono do movimento, e foge com um mototaxi. Por causa da interpretação tipicamente carioca dos clássicos britânicos, o grupo já recebeu prêmios e, em 2015, representou o Brasil no Shakespeare Festival, na Alemanha, com sucesso de público e crítica.

A origem do jeitinho carioca

Michelle Strzoda, de 34 anos, pesquisava o passado da região quando decidiu ir toda semana ao Passeio Público do Rio. Rodava também pelos camelôs da rua do Passeio e pela rua do Ouvidor conversando com vendedores ambulantes e pedreiros. Em suas visitas, Michelle foi notando a diversidade das pessoas e a efervescência das conversas que lá aconteciam. "Essa atmosfera parisiense-luso-afro-tupinambá não se encontra em nenhum outro lugar do mundo", analisa. "O espírito característico do carioca não existiria sem influência dos tupinambás, sem o gingado dos africanos e a presença do europeu. A mistura é nossa referência cultural.” Além de esclarecer um pouco da história do jeitinho carioca, os passeios inspiraram um livro. Ali nasceu O Rio de Joaquim Manuel de Macedo, a primeira obra da escritora, que sentencia: "O Rio mostra sua personalidade através das rodas de conversa dos cariocas."

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