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Eles não são vítimas: Grupo tenta desconstruir machismo dos agressores de mulheres

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São 18h30 da tarde de uma segunda-feira nublada em São Paulo. Em uma sala apertada, aos fundos de uma casa no bairro Pinheiros, zona oeste da capital, 12 homens formam uma roda. Não é um encontro de amigos, nem uma reunião apenas para colocar o papo em dia. Alguns deles até preferem se manter em silêncio, outros desandam a conversar e debater. Estamos no meio de homens que são réus por agredirem as companheiras no único grupo do tipo na capital.

O HuffPost Brasil acompanhou o último encontro do grupo no primeiro semestre, que acontece uma vez por semana no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. Em sete anos de trabalho, o coletivo recebe autores de delitos considerados "leves" pela Justiça, como ameaça psicológica à parceira e lesões corporais.

Esses tipos de grupos estão previstos desde a criação da Lei Maria da Penha, em 2006, que recomenda a criação de estruturas em atenção aos autores da violência. É a última etapa do ciclo da lei, como uma forma de coibir que a violência contra a mulher volte a acontecer. No Brasil, existem apenas 40 grupos reflexivos.

Nenhum deles chega aqui interessado ou estimulado em participar do grupo. Em geral, eles vêm indignados e revoltados, como se eles fossem a vítima da situação

Para chegar até a sala de Pinheiros, a Justiça de São Paulo reúne mais de cem homens em uma grande audiência mensal, no Fórum da Barra Funda. Os réus que aceitam participar do grupo podem ter suas futuras penas revistas, caso tenham uma presença assídua nos encontros.

agressores

"Nenhum deles chegam aqui interessados ou estimulados em participar do grupo. Em geral, eles vêm indignados e revoltados, como se eles fossem a vítima da situação", conta o psicólogo Leandro Andrade, que estuda grupos reflexivos desde 2006 e, desde 2009, é voluntário do Coletivo.

M.L. chega atrasado na reunião. Puxa uma cadeira e se senta bem na entrada da sala, de costas para a porta. Ele ainda está nos primeiros encontros do grupo. Fica bastante reticente com a presença da reportagem, mas se solta ao ouvir os outros colegas. M.L. se considera "vítima" de um sistema que protege a mulher.

"Eu realmente bati nela, com um soco na cara. Admito que na hora perdi a cabeça e enchi ela de porrada", conta. "Meu caso até apareceu no Datena naquela época, mas me deram um espaço mínimo para contar minha versão do caso. A mídia e a Justiça defendem a mulher. Infelizmente tudo é parcial", reclama.

O maior medo dos participantes é serem interpretados como monstros pela sociedade. Por isso, preferem o anonimato. No grupo, há advogados famosos, pedreiros, vendedores e até mesmo policiais. Todos têm vergonha de mostrar o rosto. "Não me filma porque se virem meu anel minha carreira vai acabar", diz L.O., um conhecido advogado criminal, que agrediu a mulher em 2015.

"Todos eles tiveram algum motivo para estar aqui, mas eles não se reconhecem naquele agressor monstruoso que aparece na Justiça. Por isso eles se descolam da realidade de que aquilo que eles fizeram é uma violência", explica Andrade.

O trabalho dos psicólogos nos primeiros encontros é fazer com que o homem se reconheça como agressor e não como vítima. Descartar o personagem de que foi 'apenas uma vez'. "Esses casos em que eles foram autuados são violência e que eles são responsáveis. Só assim há uma chance de o grupo fazer a diferença na vida deles. É um trabalho de formiga para desconstruir o machismo do dia-a-dia", afirma o psicólogo.

A decisão de sair de perto eu aprendi aqui no grupo. Se fosse antes, a gente teria brigado feio

A cada encontro, os homens discutem um tema. Na segunda-feira em que a reportagem esteve lá foi diferente. Um dos membros pediu a palavra, quis desabafar sobre a sua situação. Ele estava fora de casa havia quase uma semana.

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"Estou na casa dos meus pais. Minha mulher começou uma briga porque viu uma mensagem da minha ex no celular. Ela veio para cima de mim e eu saí de perto", conta. "Se ela chamasse a polícia eu seria preso porque já tenho uma 'Maria da Penha' nas costas. A decisão de sair de perto eu aprendi aqui no grupo. Se fosse antes, a gente teria brigado feio", contou.

M.L., o membro iniciante, intervém e alega que muitas vezes as mulheres é que provocam a agressão. "O homem quando sai do trabalho não vai no carro no caminho de casa pensando: 'Ah, quando chegar vou bater na minha mulher'", diz acreditar. "Mas a mulher fica em casa só se preparando e dizendo 'quando ele chegar, eu vou ficar provocando'", diz M.L..

Ex-machista

No canto da sala, F.P. é um dos homens mais experientes no grupo. Está na sua décima reunião. Sempre que um membro tenta culpabilizar a mulher - como fez M.L. -, ele intervém. Advogado, ele tenta mostrar o outro lado para os homens mais revoltados com a situação. "Do mesmo jeito que o homem perde a cabeça, a mulher também pode perder. Não acho que ela fique pensando em casa pensando em te provocar", respondeu ao colega.

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F.P. aceitou conversar com o HuffPost Brasil fora da reunião, desde que sua imagem fosse preservada, e assumiu: "Não tenho nenhuma vergonha de dizer que era machista. Achava que a mulher deveria ser submissa ao homem e foi aí o meu grande erro", conta.

A última relação dele foi baseada na crença em que o homem é o 'provedor' e a mulher é a 'obediente'. E foi em acreditar nesse cálculo que as agressões à ex-esposa aconteceram. "Foi um momento bem difícil, fiquei sem chão quando aconteceu. Pra mim é uma coisa que me envergonha a cada dia em que penso", diz.

A cada reunião percebo que meus comportamentos não eram adequados e que era preciso mudar, era preciso aprender a ser um homem diferente. Comecei a mudar minha relação com as mulheres

Logo depois da primeira audiência, F.P. aceitou fazer parte do grupo reflexivo. No começo, era apenas uma formalidade. Ele pouco falava ou interagia com os outros agressores. "Eu não achei que fosse acrescentar muito e que seria uma obrigação, sem vantagem nenhuma", lembra.

Ao longo dos encontros, o advogado se tornou o balanço do grupo. Comentava, orientava os outros homens e compartilhou sua própria história. "A cada reunião percebo que meus comportamentos não eram adequados e que era preciso mudar, era preciso aprender a ser um homem diferente. Comecei a mudar minha relação com as mulheres", revela.

Nunca mais encosto mais um dedo em uma mulher. Não é por nada, mas por causa da lei. Hoje, tenho medo de mulher

A reflexão de F.P. o levou a um novo relacionamento. Quis o destino que fosse com uma mulher feminista, independente e questionadora. Foi a prova final de que o grupo fez diferença na vida do agressor. "Eu sou diariamente pautado que as posições são iguais e aprendo com ela todos os dias. Consigo colocar em prática o novo homem que pretendo ser daqui pra frente."

Nem todos os homens, no entanto, têm a mesma reação que F.P.. O impacto é diferente em cada agressor que passa por aquela sala. Um dos participantes, por exemplo, afirma que sente "medo das mulheres". "Nunca mais encosto mais um dedo em uma mulher. Não é por nada, mas por causa da lei. Hoje, tenho medo de mulher", reflete.

A reincidência dos homens que passam pelo grupo reflexivo é pequena: 8% deles voltam a agredir uma mulher. "A nossa finalidade não é criar bons maridos ou bons homens para as mulheres. Mas sim criar homens que reconheçam que esse modelo machista é um projeto que tende ao fracasso", afirma Leandro Andrade. "O que espero após os 16 encontros é que o homem saia no mínimo estranhando esse machismo. Conquistando apenas esse passo já considero um trabalho feito", conclui.

Da ex-relação, F.P. leva a herança da agressão e mais dois filhos - uma menina e um menino. E foi em nome dos filhos que ele tirou o maior aprendizado que podia do grupo. "Eu tenho obrigação de mostrar para eles que as coisas mudaram. Para minha filha não aceitar jamais uma relação de abuso e para o meu filho nunca se achar melhor em uma relação apenas por ser homem".

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