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Da cadeira de rodas ao tablado: Irlândes fez até bicos na construção civil para chegar a Olimpíada

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kieran behan

Quando vista de longe, no meio da arena, enquanto exibem seus corpos fortes e executando séries de tirar o fôlego, a vida dos atletas pode até atrair por ser uma rotina recheada de desafios.

Contudo, a realidade da grande maioria dos que disputam a Olimpíada passa bem longe do glamour. Os obstáculos a serem superados são os mais diversos possíveis, seja pela dificuldade exigida nos treinos de alta performance, ou, até mesmo, contratempos da vida pessoal dos competidores - inimagináveis para quem os vê ali, com tanto brilho no olhar.

Exemplo disso é a trajetória do ginasta irlandês Kieran Behan. O atleta de 27 anos sequer chegou próximo do pódio olímpico em sua participação na Rio 2016, mas só o fato de estar ali surpreende quem conhece um pouco de sua história.

Here's a pic from the Irish champs this weekend #Maltese #Beast 😜 #gr8weekend #RingsChamp💪🍀

Uma foto publicada por Kieran Behan (@kieranbehanirl) em

Se hoje ele chama atenção pelos saltos, flexibilidade, força e equilíbrio, é impensável que ele já tenha sofrido com o drama de nunca mais poder usar suas pernas.

Aos 10 anos, Behan foi submetido a uma cirurgia para a retirada de um tumor na perna esquerda, mas acabou tendo complicações neurológicas e ele ficou sem andar durante um ano.

Em 2003, Behan sofreu um acidente nas barras paralelas e precisou usar novamente a cadeira de rodas. Ele ficou mais três anos sem poder considerar qualquer atividade física por conta da queda, já que havia sofrido danos neurológicos que o impediram de ter autonomia em atividades de coordenação motora simples, como mover a cabeça na direção certa ou sentar na cama sozinho.

Mas ele não se deixou abater. Recuperou suas atividades motoras e continuou a praticar a ginástica artística. Em 2010, confiante para disputar o Campeonato Europeu, ele sofreu um rompimento do ligamento poucas semanas antes da competição. Muitos interpretariam o fato como uma mensagem direta para que ele abandonasse o seu sonho de ser um atleta olímpico, e outra vez Behan nos dá uma lição de perseverança e paciência.

Um ano depois da lesão ele estava na Copa do Mundo, onde conquistou três medalhas - feito inédito para um ginasta de seu país. E em 2012 ele se tornou o segundo atleta da Irlanda a competir nos Jogos Olímpicos. Porém, o drama continuou presente: sofreu duas quedas e ficou na 53ª posição. Ali, ele havia prometido a si mesmo de que voltaria a competir em uma Olimpíada.

A chegada na Rio 2016

Não suficiente toda a dificuldade que já havia superado, Behan precisou lidar com mais um obstáculo antes de aterrissar no Rio de Janeiro.

O contexto político e econômico da Europa afetou diretamente o seu país. Sem patrocínio, o atleta precisou dividir o seu tempo nos ginásios com o trabalho na construção civil.

"A Irlanda não é um país de destaque da ginástica e passou por uma crise econômica nos últimos anos. Não havia dinheiro ou patrocínios para que eu pudesse me dedicar somente aos treinos. Para chegar ao Rio, eu tive que trabalhar", contou Behan à BBC Brasil.

E foi o que fez. Além de dar aulas de ginástica, Kieran Behan passou a fazer bicos como pedreiro. Ele disse ter perdido a conta das vezes em que o cansaço foi um adversário bem mais assustador do que qualquer exercício que faz nos aparelhos.

"O corpo doía, mas eu precisava continuar acreditando. Era a única maneira de seguir na ginástica e de realizar o sonho de chegar novamente a uma Olimpíada. Fui ao inferno e voltei".

One job done for the day. Now off to training 💪🏼#RoadToRio #gymnast #builder #olympics #knackered

Uma foto publicada por Kieran Behan (@kieranbehanirl) em

No evento teste da Olimpíada ele conquistou a sua segunda chance de participar dos jogos.

"Tudo o que queria era a chance de cumprir minha rotina de solo sem queda. Passei por muita coisa na vida que me fez pensar se não valia simplesmente ter ido fazer outra coisa. Mas não teria me perdoado se não tivesse tentado".

O desejo de chegar a final

Behan veio sozinho para o Rio de Janeiro. As passagens aéreas para os pais estavam muito acima da família suburbana do Reino Unido.

As chances de fazer uma final na Arena Olímpica do Rio eram pequenas, e o atleta sabia que precisaria arriscar uma série mais difícil no solo e dar o seu melhor para tentar chegar o mais perto possível dos primeiros colocados.

Porém, ele lesionou o joelho e acabou deixando a arena de muletas.

Do outro lado do oceano Atlântico, sua mãe, Bernie Behan assistia aflita à queda do filho e só conseguiu ter notícias do atleta no dia seguinte da competição. Ele compartilhou sua emoção em entrevista ao jornal local Balls.ie.

"Tivemos uma conversa emocionada através do Skype às 4h da manhã após a competição. Ele não conseguia pregar o olho, estava preocupado com o joelho e sua carreira. Tudo o que queria era poder abraçá-lo. Estávamos a milhares de quilômetros... Então, sim, foi dificil, mas eu sei o quanto ele é grande. Ele me surpreende. Suas realizações. Sua capacidade de resistência, e outra vez, você só quer saber de onde ele tira sua força de continuar. Ele é muito alegre. Ele já passou por tanta coisa, e ele sempre vai voltar mais forte."

Bernie sabe mesmo o filho que tem. Behan conseguiu melhorar em 15 posições o seu resultado em Londres e finalizou sua participação na Rio 2016 na 38ª colocação. Mais do que uma medalha, a resiliência do atleta inspira a todos.

"Aprendi a não me desesperar com as más notícias. Você sempre encontra algo de positivo em qualquer situação".

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