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O tal do segundo lugar é mesmo tão distante assim do primeiro?

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Seja em uma competição oficial ou em um ranking informal, lá está ele: o segundo lugar.

Também conhecido como vice-liderança, o pódio não tão alto, o nome que não puxa a fileira dos demais nomes, o QUASE primeiro lugar, o “estive tão perto” e o “não foi desta vez”.

Qual o problema do segundo lugar e por que ele é tão pouco exaltado em nossas vidas, ou então é festejado com “um tiquinho” assim de lamentação?

Problema nenhum. E não é só porque este texto parte de uma autora vascaína, ou seja, forçosamente habituada à característica constante de um time carinhosamente aloprado como Vice da Gama (eu não poderia omitir meu sugestionado ponto de vista).

O fato é que existe uma realidade socioeconômica e cultural que faz que o segundo lugar seja localizado muito mais perto da derrota do que da vitória.

thiago pereira

O nadador Thiago Pereira, honroso segundo lugar em Londres 2012

Quem explica é a psicanalista e linguista Monica Seincman, coordenadora do Núcleo de Psicanálise com Crianças do Centro de Estudos Psicanalíticos.

“No nosso sistema capitalista, em que o individualismo fala tão alto e que funciona à base do narcisismo, vivemos a partir de ideais: ou é tudo ou é nada. O que está entre estes dois polos não serve ao ideal. Comemorar o segundo lugar é admitir que você não é perfeito e não chegou à perfeição.”

Em um momento de Olimpíada, em que uma medalha de prata concedida ao Brasil é algo bastante comemorado, temos aí o ensejo para relembrar o valor da segunda posição no pódio, que pode simplesmente ser resumido a... um baita mérito!

felipe wu

Felipe Wu, todo orgulhoso com sua medalha, e os competidores Xuan Vinh Hoang e Pei Wong, ouro e bronze

Por alguns segundos, o atleta paulista Felipe Wu, 24 anos, manteve a liderança na disputa olímpica de tiro de pistola de ar de 10 metros. Mas o vietnamita Xuan Vinh Hoang superou o ótimo desempenho de Wu e levou a medalha de ouro.

Wu bem poderia ter focado no “quase”, no “faltou pouco”, ou pensado em derrota, como cruelmente nos direcionamos a pensar, mas ele simplesmente admirou a performance do oponente e festejou sua merecida medalha de prata, que passou a sintetizar a grande vitória de um cara que passou anos treinando em uma garagem. O bronze foi concedido ao também vitorioso atleta chinês Pei Wong.

Equivocadamente, a exaltação ao segundo lugar se tornou uma espécie de sinônimo de acomodação, como se perder do primeiro lugar – e ganhar de todos os demais – só pudesse ser enxergado como trampolim para alcançar a liderança: “Da próxima vez, serei o(a) primeiro(a)”.

De alguma maneira, temos esquecido que o segundo lugar pode resistir a ser usado como meta de vida para o primeiro lugar; em vez disso, ele pode ser a festejável conclusão de um percurso, como foi para Felipe Wu.

Não se trata, portanto, de ignorar uma competição, mas sim, de vivenciá-la com outro espírito. “A competitividade saudável respeita regras e considera o outro e o grupo”, pondera Seincman.

emanuel rego alison cerutti 2012

A dupla Emanuel Rego e Alison Cerutti, que nos presenteou com a medalha de prata em 2012

Os Jogos Olímpicos que premiam o segundo lugar, contraditoriamente, são também o espaço de uma exaltação altamente idealizada da (suposta) perfeição humana.

Seincman destaca que as competições são eventos coletivos em que os atletas representam aqueles que por eles torcem.

“O ‘equilíbrio emocional’ aqui é o desejo de se tornar uma máquina fria para atingir os resultados esperados, ou seja, o primeiro lugar. Para isso, vale todo esforço para a criação e desenvolvimento de tecnologias para que os homens possam cada dia mais estarem mais próximos do ideal, do invencível.”

Segundo a psicanalista, isso faz que muitos atletas dediquem toda uma vida para momentos fugazes de superação, vitória e fama.

Tal dedicação deveria incluir a preparação para derrotas, uma vez que elas serão uma inevitável realidade. É curioso perceber as expressões de alegria e orgulho de cada atleta que entrou na cerimônia de abertura da Rio 2016. A simples presença deles ali já indicava um momento de conquista.

esquiva falcão

Olha a alegria assumida do boxeador Esquiva Falcão! Ele foi medalha de prata em 2012

Mas quando os jogos começam, o desempenho abaixo do esperado em uma competição, no entanto, faz de toda aquela confraternização inicial apenas uma lembrança, como se só houvesse perdas entre a vitória e a derrota.

A expectativa de sermos representados por super-atletas que vão além da nossa (reles mortais) capacidade física fica ainda mais evidente quando pensamos nos Jogos Paralímpicos, que serão realizados entre 7 e 18 de setembro.

“A competição entre seres limitados não é muito prestigiosa em nossa sociedade, vide, por exemplo, a proporção de público e mídia entre os eventos olímpicos e os paralímpicos. A partir do momento em que são reconhecidas e aceitas as limitações, a vitória se torna um conceito relativizado, podendo significar um avanço nas condições prévias dos competidores.”

Com a relativização da vitória, lembra Seincman, “o primeiro lugar não terá o mesmo valor e os melhores índices não serão mais uma meta uniforme para todos”.

Derrotas na vida são inevitáveis, assim como no esporte, que funciona à base de ranqueamentos. As perdas, assimiladas como fracassos por alguns, muitas vezes servem como motores para desempenhos melhores em outras oportunidades.

“O fracasso e a derrota, quando passíveis de assimilação e elaboração, fazem que cada um possa se avaliar, se aperfeiçoar ou reconhecer seus limites. Eles tornam possível encontrar caminhos alternativos para as realizações.”

summer olympics brazil 2012 volleyball

A seleção vitoriosa de vôlei masculino no segundo lugar, depois de um sofrido jogo contra a Rússia, em 2012

torcida olimpíadas

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