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Chegou a hora de parar de corrigir a gramática das pessoas, diz linguista

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A verdadeira raiva — o tipo que resulta em socos e uma enxurrada de palavrões — parece surgir apenas a partir de alguns tópicos. A maioria é de enlouquecer porque diz respeito a questões complexas, leis e crenças que ativamente causam danos: o esgotamento dos recursos naturais, o apoio a certos candidatos políticos que falam mal de mulheres e imigrantes...

Mas há também aqueles assuntos que causam rachas, que, confusamente, conseguem despertar raiva apesar de serem totalmente sem importância. Preferências alimentares (#timedopão). Escolhados melhores jogadores de futebol. E o mais corrosivo combustível da raiva: escolhas gramaticais.

“Escolhas” é um importante termo esclarecedor, pelo menos de acordo com Oliver Kamm, linguista que escreveu recentemente um livro sobre o problema do pedantismo Accidence Will Happen (“morfologia irá acontecer” em livre tradução).

Ele próprio um pedante em recuperação, Kamm agora defende a forma mais ousada de descritivismo, argumentando que, se os humanos usam uma palavra fora de seu significado tradicional, o novo e criativo significado passa a ser válido, simplesmente pela virtude de ter sido usado.

Por isso, “literalmente” pode significar “em sentido figurado” e “irregardless” pode significar “regardless” (ambas palavras significam “independentemente”, mas a primeira é considerada incorreta por alguns gramáticos, apesar de ser usada desde o começo do século 20).

Advérbios — provavelmente a parte mais acalorada no debate sobre o discurso — são bem-vindos no mundo de Kamm, assim como separar infinitivos e frases que começam com “e”.

Com regras tão louvavelmente flexíveis, pareceria que Kamm poderia aceitar uma pilha de salada de palavras como um ensaio aceitável ou uma enxurrada de tuítes como um argumento convincente. Não é o caso.

Kamm valoriza o estilo em lugar de regras rígidas, mas opera sob uma importante regra linguística: as palavras que trabalham contra costumes modernos estão proibidas.

Abaixo, ele discute sua vida como um “perfeccionista reformado” e sua aversão pela ofensiva palavra “authoress” (forma arcaica para “autora” em inglês).

Você chama o pedantismo de chato e de uma série de outras coisas. Já foi pedante? O que o ajudou a se libertar dessa linha de pensamento?

Ah, definitivamente. Digo no livro que sou um perfeccionista reformado. Eu era bem moderado, felizmente deixando de lado preposições e juntando particípios, mas realmente acreditava que era importante agarrar rápido os supostos significados tradicionais de “disinterested (desinteressado)”, “enormity (enormidade)” e similares. Tinha receio de que pudéssemos corroer a capacidade de diferenciação se as abandonássemos. E eu estava errado.

O que me fez mudar foi perceber que a linguagem não é um artefato cultural delicado, mas uma parte integral de ser humano. Descobri isso ao ler o que os especialistas em linguagem — linguistas, gramáticos e cientistas cognitivos — dizem a respeito. Fiquei fascinado.

A linguagem — que todas as sociedades humanas têm em imensa complexidade gramatical — é muito mais interessante do que o pedantismo.

Quais são alguns exemplos de mudanças linguísticas que foram atestadas naquela época e aceitas — e até mesmo amadas, por sua eficiência ou evocação — hoje?

A linguagem está sempre mudando. Alguns estudiosos acreditam que ela tende a uma maior eficiência ao longo do tempo, mas não é uma opinião unânime de forma alguma. As palavras mudam suas definições, novas palavras entram na linguagem e as convenções estilísticas e regras de gramática mudam.

Uma das mudanças mais dramáticas na gramática inglesa é o constante declínio da inflexão: mantemos apenas em alguns pronomes (we/us = nós/nos e who/whom = que/cujo).

Isto não torna o inglês nem um pouco menos expressivo ou evocativo do que era no tempo de [Geoffrey] Chaucer [filósofo inglês do século 14]: é apenas diferente.

Você enfatiza que, quando falamos sobre a linguagem, devemos discutir estilo em vez de “correção” — esta abordagem em relação à linguagem tem limites?

É possível, claro, cometer erros gramaticais ou de significado. Mas quem usa fluentemente o inglês raramente comete erros. Pode achar que sim, mas, na verdade, sua absorção, desde a tenra idade, das regras gramaticais é de uma complexidade e especialidade extraordinárias. Por isso penso que o ensino de idiomas é melhor focado na necessidade de se expressar para o público certo.

Os linguistas se referem ao “registrar” — os diferentes estilos e faixas de formalidade que adotamos para públicos específicos. Não resume tudo o que é preciso para uma escrita e fala eficaz, mas isso não é destacado o suficiente nos guias de uso.

Você tem um “erro” gramatical favorito?

Gosto de separar infinitivos, sabendo que eles não apenas estão de acordo com a gramática do Inglês Padrão, como também estão em conformidade com sua prosódia (já que tipicamente alternam sílabas tônicas e átonas). Separar infinitivos não é apenas certo, mas o dever de um escritor de estilo.

Você menciona em seu livro algumas palavras — tais como “authoress” — que são quase sempre injustificáveis. Quais são algumas outras e o que, para você, torna uma palavra injustificável?

Uma palavra é injustificável quando é usada em desafio aos costumes modernos. “Authoress” [autora] é um termo desrespeitoso para o qual não há um equivalente masculino. O uso de “he” [ele] como pronome genérico no singular também não é mais justificável.

Os advérbios são parte de um debate acalorado recentemente; muitos escritores dizem que são irrelevantes e indicam que um verbo mais específico poderia ser usado. O que pensa dos advérbios?

Os advérbios são essenciais. Os escritores que recomendam cuidado contra os advérbios estão falando bobagem.

O linguista Geoff Pullum cita o slogan de uma conhecida loja de departamentos britânica: “Never knowingly undersold” (Nunca intencionalmente o mais barato).

Qualquer um que acredite que os advérbios sejam dispensáveis supostamente não teria objeções de reescrever isso como “Undersold (O Mais Barato)”.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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