Huffpost Brazil
Amauri Terto Headshot

6 vezes em que Elke Maravilha foi (com perdão do trocadilho) maravilhosa

Publicado: Atualizado:
ELKE
David Drew Zingg/ Acervo Instituto Moreira Salles
Imprimir

Elke Maravilha morreu nesta terça-feira (16), aos 71 anos, no Rio de Janeiro. Ela estava internada na Casa de Saúde Pinheiro Machado havia quase um mês, por conta de uma cirurgia para tratar uma úlcera. A artista sofreu falência múltipla dos órgãos.

Nascida Elke Georgievna Grunnupp em Leningrado, atual São Petersburgo, na então União Soviética (hoje Rússia), Elke trazia a diversidade no sangue. Era filha de uma alemã com um russo. Seus avós eram um azerbaijano e uma mongol.

Emigrou com os pais para o Brasil ainda criança, para morar em Minas Gerais.

Antes da fama, trabalhou como professora, bancária, tradutora, e intérprete. Poliglota, era fluente em 8 idiomas, além do português: alemão, italiano, espanhol, russo, francês, inglês, grego e latim.

No início dos anos 70, iniciou sua carreira como modelo. Também foi atriz, cantora e apresentadora. Ela alcançou fama nacional ao participar como jurada de programas de calouros de Chacrinha (a quem chamava de Painho) e Silvio Santos ("a pior pessoa do mundo").

Transgressora e de opiniões fortes, Elke sempre desafiou convenções estéticas e de gênero. Gostava de se montar com maquiagens chamativas, penteados e roupas extravagantes. Uma drag queen nascida mulher. Por conta do seu visual, chegou a apanhar na rua.

Durante a ditadura militar, passou 6 dias na cadeia por desacato.

O motivo? Revoltou-se quando viu cartazes que davam Stuart Angel como procurado pela polícia. Militante de esquerda, o rapaz era filho da Zuzu Angel, estilista para quem trabalhava. E àquela altura, já estava morto, depois de torturado pelos militares.

Enquadrada na Lei de Segurança Nacional, Elke teve sua cidadania brasileira revogada e permaneceu apátrida por décadas. Anos mais tarde, tornou-se cidadã da Alemanha. E não quis mais passaporte brasileiro. No entanto, nunca escondeu seu carinho pelo Brasil. O irmão da artista, Frederico Grunnupp, confirma:

"O Brasil foi o melhor lugar para ela. Minha irmã tinha muito respeito por todos aqui. O Brasil foi a tábua de salvação dela e da nossa família. O país abraçou a Elke, o povo sempre foi muito generoso com ela."

A seguir, você acompanha 5 depoimentos em que Elke Maravilha desafiou paradigmas de imagem e comportamento, comprovando que era realmente um ícone do showbiz brasileiro à frente de seu tempo.

1. Quando apoiou a comunidade LGBT

elke

Nesta entrevista de 2015, Elke comenta o beijo entre as atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, na novela Babilônia, e sintetiza uma história de respeito e apoio à comunidade LGBT.

“Amor é o que agrega. Uma das frases de Sófocles [dramaturgo Grego 495 A.c e 406 A.c] dizia: ‘Eros Anicate Mahan’, que em grego quer dizer ‘O amor é invencível nas batalhas’. Vai crucificar alguém porque a mãe natureza o fez diferente? Tem que respeitar a mãe natureza! O Deus que fez o gay. Nasceram assim, a mãe natureza não erra! Chegaram ao ponto de querer curar gay… Foi a única vez que senti vontade de sair do país!”

2. Falou abertamente sobre aborto

elke

Elke se casou oito vezes, mas nunca quis ser mãe. Ela falou abertamente sobre isso em diferentes entrevistas. Neste depoimento feito em 2014, ela compartilha sua experiência com o aborto, assunto cuja discussão se faz urgente.

"Eu tive consciência plena, não fiz filho porque eu não sei educar uma criança, e porque não posso ter âncoras, filhos são âncoras. Inclusive fiz abortos. Sem a menor culpa, porque, eu não saberia educar uma criança. Quando você fizer um filho, você tem que estar consciente de que está dando a vida e está dando a morte. Quanto mais velha eu fico mais eu acho que acertei.”

3. E sobre suas experiências com drogas

elke

Também nem 2014, Elke Maravilha compartilhou sem reservas detalhes de suas experiências com as drogas, assunto ainda rodeado de tabus no Brasil.

“Maconha é relaxante. Eu fumando maconha, já fumei muitas vezes, durmo, porque eu já sou relaxada, não é algo de que eu precise. A cocaína é uma droga de poder, dá a sensação de que você é poderosíssimo. Eu não preciso dessa sensação de poder, mas tem gente que se sente uma merda tão grande, que precisa dessa sensação. Também já fumei crack, o crack é uma euforia, eu não preciso, mas criança de rua não precisa? Precisa. Para você tirar uma pessoa do crack, além do problema físico, você tem que dar uma coisa mais gostosa pra ela. E outra coisa, droga não é pra fuga, é pra encontro. A minha geração tomou drogas pra autoconhecimento, agora eu não vejo mais gente tomando droga pra autoconhecimento, eu só vejo ou pra curtir, ou pra fugir.”

4. Também detonou a “ditadura da magreza”

elke maravilha

Dona de estilo próprio e não-convencional, Elke Maravilha criticou fortemente a chamada "ditadura da magreza" instaurada nas últimas décadas. "Isso é uma burrice", disse a artista durante um evento de moda plus size:

“Muitas se sentem inferiores e rejeitadas. Mas isso é culpada da ditadura da magreza. Isso é uma burrice! A pessoa tem quer ser o que é, oras. As pessoas, na verdade, deveriam educar melhor seus filhos, sem preconceitos, sem essa merda de atraso que vivemos. Dessa forma, as meninas não precisariam de concurso para elevar a estima.”

5. Lamentou: “Deus errou na mão com a gente”

Adepta do politeísmo (que acredita na existência de múltiplas divindades), Elke fez na entrevista acima (aos 0m53) uma notável reflexão sobre juventude, conhecimento e velhice, a partir da criação do ser humano pelos "deuses'.

“Os deuses erraram feio na mão com a gente. Todos os animais, quando os deuses fizeram, eram lindos e magníficos. Olha o tigre... Olha a zebra... A cobra... Até a minhoca os deuses acertaram. Na hora da gente, eles fizeram uns macacos pelados horríveis, pretensiosos. Não sabíamos pra que viemos. Então, meu amor, é dever de casa aprender. E quem se considerar pronto ou um pacote fechado, tem que deitar e morrer (...) Principalmente na minha idade (à época com 69 anos), as pessoas acham que não precisam mais [aprender], acham que já sabem tudo. Puta que pariu! Velho burro é foda. Porque vocês jovens ainda podem ser burros, mas eu não posso mais.”

6. E declarou seu enorme amor pelo Brasil


elke

Nesta entrevista ao jornal Extra, no início de 2015, Elke foi questionada sobre o que a deixava triste. Não titubeou ao dizer:

“Eu amo o Brasil. O Brasil foi ressurreição para nós. Meu pai fugiu do campo de concentração na Sibéria. Era um prisioneiro político. Três países recebiam imigrantes naquela época: Nova Zelândia, Canadá e Brasil. Ele escolheu o Brasil. Então, quando fazem mal ao país eu fico muito puta. Ver que brasileiro não gosta do país me deixa muito puta (diz brava). Eu sou capaz de matar pelo Brasil, sabe? Matar mesmo. Pá! Eu sou! Adoro ladrão de banco. Odeio gente que rouba o povo, entende? Por isso eu não tive filho: posso dizer que adoro ladrão de banco? (risos). Meu pai, ferido de guerra, estava disposto a morrer e lutar pelo país, e o próprio brasileiro se lixa. Acho isso muito feio.”

Vai deixar saudades!

TAMBÉM NO HUFFPOST BRASIL:

Close
5 motivos pelos quais Cher é um ícone feminista e LGBT
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção