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Ubaitaba é 'cidade das canoas' em tupi. E foi de lá que surgiu Isaquias Queiroz

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isaquias queiroz

Em tupi-guarani, Uba significa canoa e Tava, cidade.

Não tinha como ser diferente. Ubaitaba se tornou a capital da canoagem no país, mesmo que ainda não tenha esta legenda no mapa, e exporta atletas de alto nível para o mundo.

Entre o time de cinco atletas que se prepararam para a Olimpíada, por exemplo, três são da região, inclusive o medalhista de ouro e bicampeão mundial Isaquias Queiroz.

Na modalidade, dos últimos dez torneios nacionais, oito foram vencidos por ubaitabenses. Além disso, Jefferson Lacerda, o primeiro atleta a competir na canoagem brasileira em Jogos Olímpicos, também é de lá.

Mas o que faz da cidade de 20 mil habitantes ter tamanha vocação?

No mapa, o Rio de Contas não passa de uma pequena linha que separa Ubaitaba de Aurelino Leal, distantes a mais de 300 km da capital, Salvador. Porém basta um olhar mais aproximado da região para entender que a tal linha, na verdade, separa, organiza e movimenta toda a vida do lugar.

Lá, é comum ver adolescentes se oferecendo para fazer a travessia dos passageiros de uma margem à outra da avenida fluvial. E de canoeiros a canoístas, foi um pulo. Ou, melhor, algumas remadas.

“Todo mundo lida desde criança com a canoa nativa. Desde cedo a gente brinca de remar. Os gestos da remada e a forma de equilíbrio são parecidos com a canoa de competição”, disse Luciana Costa, medalhista de bronze do Mundial de 2010 em entrevista à IstoÉ.

Para além da mobilidade cotidiana, a travessia é também simbólica para os moradores da região. Durante muito tempo, o outro lado da margem, na cidade de Aurelino Leal, abrigava a única estação de trem da região.

Vencer a correnteza do rio se tornou, então, uma metáfora para os jovens canoeiros que sonhavam em conquistar o mundo.

De Ubaitaba para o mundo

Isaquias Queiroz transformou a metáfora em realidade. E foi além!

Em 2011, ele venceu o Mundial Júnior, disputado na Alemanha, e garantiu o ouro na prova de C1 200m e a prata no C1 500m. Nunca um canoísta brasileiro havia obtido tal título nas categorias.

De lá pra cá, Isaquias ficou sob os olhares atentos dos treinadores e passou a fazer parte do programa “Projetos Especiais”, criado pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), visando a Olimpíada. Desde então passou a treinar em São Paulo, na represa Guarapiranga e na raia olímpica da USP, sob os cuidados de Jesús Morlán, espanhol considerado um dos melhores técnicos do mundo em canoagem de velocidade.

Mas a trajetória do medalhista passou por alguns percalços antes do ouro Olimpico. A infância pobre certamente foi um de seus maiores desafios. Filho de dona Dilma, servente da rodoviária, quando tinha três anos sofreu um acidente no fogão de casa e quase perdeu a vida para as queimaduras. Aos 5 anos, ele foi vítima de um sequestro por criminosos na região. Mas voltou para casa. Não suficiente os sustos já vividos, aos 10 anos, caiu de uma árvore, teve hemorragia interna e perdeu um dos rins - o acidente deu nome ao apelido: "Sem rim."

A infância travessa foi acompanhada pelo cuidado e apoio da mãe guerreira - o pai faleceu quando ele ainda era novo - e o encontro do moleque cheio de energia com a canoagem aconteceu de em um projeto social que incentivava o esporte.

No início era só mais uma brincadeira, ou melhor, mais uma preocupação. Todos os dias ela ouvia dos conhecidos que precisava aquietar o garoto, pois o seu corpo sem o órgão não iria aguentar o esforço da canoa. No entanto, para ela, saber que ele estava no esporte era uma espécie de segurança, já que trabalhava o dia todo para sustentar a família.

O desempenho do garoto tão logo chamou atenção de Figueroa Conceição, na época auxiliar técnico de Jefferson Lacerda e responsável pelo projeto social. Eram 200 crianças para aprender a remar e Isaquias se destacou por sua desenvoltura na água.

"É um atleta que foi descoberto em uma dessas competições que a gente faz. Eu ia nos colégios, fazia as campanhas, e vinha uma gleba de meninos. Figueroa era meu auxiliar e tomava conta deles. Foi o “descobridor” de Isaquias. Nos primeiros anos, ele já colocava Isaquias para competir sempre em uma categoria acima, e o menino ganhava de todo mundo", lembrou Lacerda.

O reconhecimento

A brincadeira virou coisa séria e o atleta vem alcançando o reconhecimento na modalidade. Na Rio 2016, ele garantiu um ouro e uma prata, e as conquistas das medalhas enchem de orgulho não só Dona Dilma, mas todo o Brasil.

Na cidade das canoas, as pessoas deixam suas casas para irem assistir o conterrâneo em um telão instalado pela prefeitura local em um ginásio. A euforia é tanta que nos dias de provas de Isaquias o local é 'invadido': a festa simplesmente não termina.

E o atleta de 22 anos não vê a hora de poder compartilhar com a cidade que o projetou. Em entrevista à ESPN, Isaquias se orgulha de ter "colocado Ubaitaba no mapa":

"É, pus Ubaitaba no mapa, estou muito feliz com essa vitória aí, mas é esperar chegar em Ubaitaba agora para comemorar com a torcida e meus amigos da turma ‘Viva a Bagaceira'. Espero poder chegar lá e comemorar bastante."

LEIA MAIS:

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