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'É um segundo ato de violência', diz fotógrafo considerado culpado por perder a visão

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SERGIO SILVA
Sérgio Silva perdeu visão ao ser atingido por bala de borracha da PM | Reprodução / Facebook
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Três anos após perder a visão de um olho por ter levado um tiro de bala de borracha da Polícia Militar enquanto cobria uma manifestação em São Paulo, o fotógrafo Sérgio Silva se sentiu novamente alvo da violência do Estado. "É um segundo ato de violência", afirmou ao HuffPost Brasil.

Na última terça-feira, o juiz Olavo Zampol Júnio, da 10ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, considerou Sérgio culpado por ter sido atingido enquanto trabalhava nos protestos de junho de 2013 e negou o pedido de indenização.

Na noite de 13 de junho de 2013, o fotógrafo foi um entre os mais de 100 feridos durante protesto pela tarifa zero. A data marcou uma mudança nos atos devido à truculência dos policiais ao reprimir os manifestantes de modo violento. Desde então, não houve qualquer investigação por parte das forças de segurança do estado de São Paulo sobre o caso de Sérgio.

A indignação do fotógrafo após ser considerado culpado em vez de vítima se agravou devido à forma como a decisão judicial foi tomada, sem escutá-lo. Ele irá recorrer, mas lamenta a morosidade do Judiciário.

"Além desse absurdo completo que é transformar vítima em culpada, tem um agravante porque o juiz que tomou essa decisão sobre o meu caso - não sei se isso é uma prática normal, mas pra mim é um absurdo - mas não teve testemunha. Eu não participei da audiência. Não foi ouvida nenhuma testemunha da minha parte. (…) Incomoda bastante não ter uma decisão judicial democrática."

O pedido de indenização foi de R$ 1,2 milhão, referentes aos danos moral, estético e material, mas para Sérgio a luta é por uma questão moral.

Ele lembra que no caso do cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Ilídio Andrade, morto após uma explosão em uma manifestação no Rio na mesma época, um manifestante foi preso. "Santiago não foi culpado pela morte dele. Ele foi vítima. Agora, quando o Estado age, o absurdo dessa lógica é que me deixa indignado", afirma o fotógrafo.

Na época do tiro, Sérgio trabalhava como freelancer para a Futura Press e ficou quatro meses em recuperação. Seu primeiro trabalho após a agressão foi com vídeo gravado em ambientes fechados. "Me deu condição e tempo para ir aprendendo como era enxergar a partir de um olho só", conta.

"O processo de retomar pra rua demorou muito tempo. Um ano e, quando eu fui para uma manifestação, eu fui com muito medo. O que muda é isso. Hoje quando eu vou cobrir um ato eu vou com muito medo."

Jurisprudência

Sérgio ressalta que sua história não é um caso isolado. Em 2014, a 2ª Câmara Extraordinária de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo negou recurso em que o fotógrafo Alexandro Wagner Oliveira da Silveira pedia indenização por danos morais e materiais.

Durante manifestação em 2000, ele foi atingido por uma bala de borracha disparada pela PM e perdeu parcialmente a visão. "A Justiça de São Paulo está criando precedentes para que isso seja cada vez mais comum", afirma Sérgio.

Nas redes sociais, outros fotógrafos e profissionais da imprensa demonstraram apoio por meio da tag #CulpadoporFotografar.

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