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Bárbara desabafa sobre racismo e diz que vai com tudo pelo terceiro lugar: 'Bronze também é medalha!'

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Buda Mendes/Getty Images | Buda Mendes via Getty Images
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A goleira Bárbara conquistou todo o Brasil com sua postura maravilhosa na Rio 2016 -- dentro e fora de campo.

Ela demonstrou ter muita raça e um companheirismo sem igual com as demais meninas da seleção de futebol.

Depois de defender dois pênaltis contra a Austrália, em um momento extremamente tenso, e classificar a seleção brasileira para a semifinal, a atleta sofreu um episódio de racismo nas redes.

O membro do Conselho Federal de Administração (CFA), Marcos Clay, postou em seu Facebook "Eu odeio preto, mas essa goleira do Brasil tinha chance", juntamente à foto de Bárbara.

Para além do racismo, há também o machismo escancarado de Clay ignorar as capacidades de Bárbara enquanto jogadora e pensá-la como um objeto certo para o seu consumo.

Em entrevista ao Globo Esporte, a atleta disse que chegou a chorar depois que viu a publicação, mas mostrou novamente sua grandeza para superar psicologicamente a violência que sofreu e ir para a semifinal de cabeça erguida:

"É muito triste. Qualquer pessoa que passe por uma situação dessas é realmente triste. Eu cheguei a chorar. Conversei com minha mãe, conversei com meus familiares. Mas eu tinha um objetivo maior. Meu objetivo maior era a Olimpíada, a medalha de ouro. Eu jamais iria deixar que nada e nem ninguém atrapalhasse meu trabalho e nem a minha concentração porque eu estava vivendo um momento único. Talvez daqui quatro anos eu não esteja mais aqui, não esteja mais como titular. O momento que estou vivendo é meu. Não seria uma pessoa dessas que iria atrapalhar. Não sei nem como lidar, chamar uma pessoa assim. Não sei nem se é ser humano uma pessoa dessas."

E completou:

"Ele é um dentro de 210 milhões de pessoas que estão torcendo pela gente que admiram o futebol feminino, admiram minha cor, admiram outras cores. Ele seria só uma pessoa querendo chamar atenção e eu fingi que nada aconteceu. Fiz o meu trabalho, acredito que fiz muito bem e não seria uma pessoa dessa iria interferir."

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Mesmo tendo lutado com muita garra, as meninas da seleção não conseguiram ir para a final em busca do ouro inédito. Bárbara chegou a defender outro pênalti contra as suecas na semi, mas infelizmente não deu.

A seleção brasileira já tem duas medalhas de prata olímpicas, chegando muito perto do primeiro lugar. Contudo, agora é a vez do bronze, com um dinâmica diferente da prata, porque é preciso ganhar uma partida para levá-lo. E a goleira faz questão de falar: "Bronze também é medalha!".

"A torcida, o país inteiro, o mundo sabem que a gente lutou, fez de tudo que a gente poderia fazer. Demos o nosso máximo. Claro, fica aquele receio que poderia ter dado mais, porque a bola não entrou. Sempre fica esse porquê das coisas. Mais uma vez a gente fica se perguntando: por que não aconteceu? Sendo que tudo estava conspirando a nosso favor. Mas infelizmente as coisas acontecem na hora certa e momento certo. A gente acredita que não aconteceu porque não era o nosso momento. Mas a gente não vai deixar de batalhar, batalhar pelo futebol feminino, por uma conquista de uma medalha de ouro inédita tanto no Mundial quanto nas Olimpíadas. Isso só faz com que a gente possa se fortalecer mais e mais. Mas agora temos a disputa pelo bronze e vamos brigar por ela."

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Incentivo ao futebol feminino

A goleira comenta que a maior frustração em não ganhar o primeiro lugar no pódio é pensar nas portas que seriam abertas ao futebol feminino depois disso: "A gente sabe que o desenvolvimento de qualquer modalidade com a medalha de ouro é explosivo", diz.

Ela ainda conta que quando a seleção levou a segunda medalha de prata em 2008 não teve tanta repercussão quanto o momento que as meninas estão vivendo agora, ainda mais em uma Olimpíada no Brasil, por isso é essencial aproveitar essa visibilidade:

"O que a gente vê hoje é que as coisas estão melhorando. A cada ano está melhorando. Menos preconceito, mas ainda não acabou. Ainda falta estrutura, tem racismo. A gente briga por muitas coisas no nosso país. Coisas que outros países não brigam. Temos que brigar não só pela nossa modalidade, mas por muitas outras coisas. Levando para o meio do futebol feminino, a gente quer que realmente mude. Já teve uma mudança. A gente vê pessoas comprando camisas nossas, exibindo na internet com orgulho. Isso chega a me arrepiar. Nunca aconteceu isso na história do futebol feminino. Isso é fenomenal. Vamos em busca do bronze para honrar nosso trabalho e agradecer à torcida."

E ainda falta um longo caminho pela frente.

Diferente da seleção masculina, a feminina não é profissionalizada aqui no Brasil. Ou seja, não há clubes de futebol feminino e as meninas da seleção jogam em times fora do Brasil. Também não há convocação como no masculino, é uma seleção permanente de futebol.

Fora isso, a discrepância entre o prestígio e incentivo ao futebol masculino e feminino são gritantes. De acordo como o projeto Gênero e Número da Agência Pública, a jogadora Marta fez 103 gols pela seleção e ganha 3,9 mil dólares por gol, enquanto Neymar, que fez 50 gols, ganha 290 mil dólares por cada um deles.

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