Huffpost Brazil
Amanda Mont'Alvão Veloso Headshot

O filho que ela só conheceu depois da tragédia de Columbine

Publicado: Atualizado:
Imprimir

columbine

“Nosso caçula era observador, curioso e reflexivo, com uma personalidade tranquila. Atento ao que acontecia ao redor, paciente, calmo e de riso fácil, Dylan era capaz de transformar a rotina mais comum em algo divertido. Ele topava qualquer coisa – um menino sociável, afável, que adorava fazer coisas.”

Esta é Sue Klebold descrevendo a infância de seu filho mais novo, Dylan.

A partir de memórias afetuosas como essa, ela tenta, há 17 anos, conectar esta realidade com uma outra, totalmente oposta e trágica: Dylan Klebold foi um dos dois adolescentes que, portando fuzis e bombas, atiraram aleatoriamente na Escola de Ensino Médio Columbine, em Littleton, no Colorado, Estados Unidos, matando 13 pessoas e ferindo outras 24. Doze vítimas eram crianças da escola e a 13ª era um professor.

Dylan e Eric Harris, o outro autor dos disparos, se mataram depois da chacina. Dylan tinha 17 anos. Eric, 18. O crime ocorreu em 20 de abril de 1999.

Desde então, milhões de pessoas demandam respostas dos pais dos garotos, da administração da escola, dos educadores, das leis que permitem o acesso a armas, dos desenvolvedores de games violentos.

A tragédia de Columbine se instalou de forma permanente no imaginário popular. Com frequência é revisitada por meio de crimes com perfis semelhantes, como os tiroteios em massa em Virginia Tech (2007) e Sandy Hook (2012).

columbine
Memorial dedicado às vítimas de Columbine

O cinema também se debruçou sobre o assunto, com a ficção Elefante (Gus Van Sant, 2003), vencedora da Palma de Ouro em Cannes, e o documentário antiarmamento Tiros em Columbine (Michael Moore, 2002), vencedor do Oscar.

Ainda que na seara da especulação dos motivos para o tiroteio em massa, o bullying e a gravidade de seus efeitos passaram a ser discutidos ativamente nas escolas.

Passados 17 anos, Sue, a mãe de Dylan, ainda persegue a dolorosa e incômoda pergunta que ela se fez naquele 20 de abril de 1999: "Como a vida de um garoto promissor pôde ter chegado a esse desastre - e sob a minha guarda?"

Ela não só formulou o questionamento, como fez dele um motor da nova vida que surgiu ao se tornar, aos olhos do mundo, a mãe de um adolescente assassino. Ou, pelas palavras de alguns, “a mãe de um monstro”.

Sue escancara suas buscas no livro O Acerto de Contas de uma Mãe – A Vida Após a Tragédia de Columbine, lançado recentemente no Brasil pela Verus Editora. Por mais que saibamos o fim desta tristíssima história, assim como os detalhes divulgados com sensacionalismo na época, ainda há um desconhecimento fundamental, que está diretamente ligado à perplexidade diante do ódio e da crueldade com que os adolescentes atacaram a própria escola.

columbine
Dylan Klebold e Eric Harris

Sue tenta extrair pistas, fatos e motivos que expliquem os atos deste filho que ela só começava a conhecer, na intimidade, depois da tragédia. O Dylan que ela conhecia e amava havia sido dissimulado com ela, com o marido e com o irmão mais velho.

“Nos escombros de Columbine, o julgamento do mundo foi compreensivelmente rápido: Dylan era um monstro. Mas essa conclusão também foi equivocada, pois reduziu a pouco uma realidade muito mais complexa. Assim como em todas as mitologias, a crença de que Dylan era um monstro servia a um propósito maior: As pessoas precisavam acreditar que reconheceriam o mal entre elas.”

Na medida em que vídeos e anotações de Dylan eram revelados, após a tragédia, Sue se via às voltas com a desconstrução da imagem que tinha do garoto, com a finitude de sua própria imagem como a mãe de um adolescente dócil e parceiro, e com o horror de conhecer as intenções íntimas e concretizadas do filho. Junto a isso, ela precisava lidar com a imagem que lhe atribuíram: De uma mãe omissa, que não conseguiu detectar os planos violentos do jovem que tinha em casa. Todas essas revelações exigiram um grande e tumultuado trabalho de luto.

“Tom e eu éramos pais amorosos, atenciosos e participativos, e Dylan era um adolescente animado e carinhoso (...) A normalidade de nossa vida antes de Columbine talvez seja a parte mais difícil de entender da minha história. Para mim, é também a mais importante.”

Ao se propor conhecer o filho, a negação é a primeira a comparecer – ela e o marido, Tom, não conseguiam acreditar que o Dylan deles pudesse ser capaz de tamanha atrocidade. Autoridades chegaram a divulgar que Eric teria um perfil psicopata homicida, enquanto Dylan seria um depressivo suicida. A combinação dos dois foi fatal.

Assumir que o filho foi autor da chacina, com intenção de matar, e não alguém coagido a participar, trouxe para Sue a responsabilidade pelo desespero, dor e sofrimento das famílias das vítimas. Era mais do que empatia por aquelas pessoas. O caminho que ela faz, portanto, não é de exoneração ou catarse, mas sim, de responsabilização.

"Não é fácil contar minha história, mas, se a compreensão e os insights que obtive na terrível provação de Columbine puderem ajudar alguém, então eu tenho a obrigação moral de compartilhá-los. Falar abertamente sobre isso é assustador, mas é a coisa certa a fazer. É extensa a lista de coisas que eu teria feito diferente se soubesse. São meus fracassos."

columbine
Sete estudantes e o professor mortos na tragédia de Columbine. As fotos foram retiradas do livro escolar de 1998

Ao longo do livro, Sue se expõe e apresenta um vastíssimo leque de emoções trazidas por omissões, descobertas, dores e até desejos de morrer por não suportar a realidade. Mas ela não só suporta como se mobiliza a partir da nova vida que tem: Ao procurar as motivações de Dylan, ela se torna uma ativista da saúde mental ao quando descobre que o filho escondeu uma depressão e um incontornável desejo de morrer, revelados só depois que ela teve acesso à intimidade dele, por meio de anotações, e conectado com planos de violência. Os assassinatos cometidos por Dylan foram o caminho dele para o suicídio.

Sue lamenta o fato de Dylan ter sofrido sozinho porque ela não suspeitou que ele estivesse deprimido. Não fossem os escritos dele, ela não suspeitaria. "Seus amigos mais próximos, garotos com quem ele conviveu todos os dias durante anos, não sabiam quanto ele estava desesperado. Alguns se recusam a acreditar nessa caracterização até hoje. Mas eu era a mãe dele. Eu deveria saber", ela se recrimina.

"Dylan poderia ter cometido suicídio mais tarde em sua vida; isso eu não tenho como saber. Eric poderia ter planejado e executado uma versão do plano para destruir a escola, sozinho ou com outro adolescente. Ele poderia ter passado pela crise sem violência, ou ido em frente e cometido um ato de terror em outro lugar e em outra época. O que eu sei é que Dylan mostrou sinais de depressão, sinais que Tom e eu notamos, mas não fomos capazes de decodificar. Se soubéssemos o suficiente para entender o que aqueles sinais significavam, acredito que poderíamos ter evitado a tragédia de Columbine."

Adolescentes têm uma grande habilidade em esconder ou camuflar o que estão sentindo ou os problemas emocionais que possuem. Supomos isso quase como uma obviedade; então, por que isso some de perspectiva quando estamos falando dos reais desejos de um jovem? Ao entrevistar uma dezena de profissionais da saúde mental, cada novo conhecimento traz consigo um sem-número de arrependimentos e impotências, e Sue chega a fantasiar a reescrita de uma história cujo final foi insuportavelmente infeliz:

"Eu gostaria de ter escutado mais em vez de dar sermões; gostaria de ter me sentado em silêncio com ele em vez de preencher o vazio com minhas próprias palavras e pensamentos. Gostaria de ter reconhecido os sentimentos dele em vez de tentar tirá-los de sua cabeça, e de nunca ter aceitado as desculpas dele para evitar uma conversa."

Mas Sue não se rende ao martírio, não terceiriza a culpa para o fácil acesso às armas e, mesmo sendo alvo de hostilidades bastante cruéis (algumas são descritas no livro), em nenhum momento ela pede compreensão ou solidariedade. Ela sabe que sua vivência é solitária. A narrativa é dolorosa, e a compaixão e a admiração aparecem na medida em que embarcamos com ela nesta jornada de impotência brutal.

Mas o livro não serve ao expurgo dos demônios dela, e sim à mobilização em torno da saúde mental, um assunto que requer prevenção e cuidado especializado, assim como uma lesão no joelho ou uma pressão elevada. E ela sabe que a saúde mental está cheia de estigmas. "A ideia de que pessoas com transtornos cerebrais são perigosas está entre os mitos mais destrutivos e instaurados que há, e é, em grande parte, falsa."

Sue então se perguntava como falar de doenças mentais e violência sem contribuir para o estigma. Ao consultar profissionais especializados para escrever o livro, ela ouviu uma importante afirmação do neurocientista Kent Kiehl:

"A melhor maneira de eliminar a crença de que pessoas com problemas de doença mental são violentas é ajudá-las para que não sejam violentas."

Com afirmações cuidadosas e amparada por especialistas, além de um trabalho de prevenção do suicídio que já soma 10 anos, Sue faz reflexões sobre o suicídio, a possibilidade de prevenção e o efeito devastador que ele tem.

"É claro que Dylan não cometeu suicídio simplesmente. Ele cometeu assassinato; ele matou pessoas (...) Em seus últimos dias, Dylan virou as costas a uma vida de educação com valores éticos, à empatia e à sua própria consciência. Tudo o que aprendi corrobora minha crença de que ele não estava pensando com clareza."

Revisitar a própria experiência e conhecer realidades similares não mudam o passado e não respondem à pergunta inicial de Sue – talvez ela nunca vá saber como o amado filho dela foi capaz de tudo aquilo. As atitudes dele tampouco adquirem um sentido. O que resta, para ela, é tentar evitar que haja outras histórias assim.

“A agonia pelas vidas perdidas ou destruídas pelas mãos do meu filho, e pela dor e sofrimento causados em suas famílias e amigos, permanece comigo todos os dias. Ela nunca desaparecerá, enquanto eu viver."

Ao contrário das teorias que rapidamente se difundiram - os garotos eram góticos, faziam parte de uma seita que cultuava a morte, eram membros de uma facção chamada "Máfia do Sobretudo" - , Dylan, coautor do massacre de Columbine, era o que se chamaria de "adolescente normal". Talvez essa seja a revelação mais desconcertante.

A história da família Klebold, agora contada com detalhes por Sue, se transforma em uma advertência, um alerta para as questões emocionais mais profundas das crianças e adolescentes, o que exige um olhar ainda mais atento das famílias e das escolas.

A partir das informações colhidas nestes últimos 17 anos, o sofrimento de Dylan se tornou palpável para Sue, e o destino que ele escolheu dar para a vida em sofrimento resultou na tragédia que conhecemos hoje. No caso de Columbine, entre as possíveis "feições do Mal", enfrentar um problema de saúde mental como forma de evitar o massacre teria sido muito mais possível do que lidar com as abstrações comumente usadas para definir acontecimentos brutais como esse: "monstruosidade", "sociedade violenta" ou "competitividade nas escolas".

Columbine chocou o mundo ao mostrar que o “Mal” não trazia uma aparência, ou era previsível. Era desconhecido, concreto e chocantemente humano.

columbine
Capa do livro escrito por Sue Klebold; ao lado, ela durante entrevista à ABC News

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV - Centro de Valorização da Vida. O atendimento é gratuito. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar uma base de dados com redes de apoio disponíveis.

Viver bem é o tipo de desejo tão universal que se tornou um direito. Mas não há fórmula ou mágica que o garanta, o que deixa, para cada um de nós, a difícil tarefa de descobrir e pavimentar o próprio caminho. A newsletter de Equilíbrio vai trazer a você textos e entrevistas sobre saúde mental, angústias, contradições e alegrias da vida. Assine aqui para receber novidades no fim de semana.

LEIA MAIS:

- Quebrando o silêncio em torno do suicídio

- Ansiedade, cyberbullying e pensamentos suicidas estão aumentando entre jovens alunos, indica relatório

- Crianças vítimas de bullying precisam de apoio, não de antidepressivos, alerta ativista

- Quando termina a tristeza e começa a depressão?

Também no HuffPost Brasil

Close
Acesso a tratamento para problemas mentais é negado para quase 25% dos jovens e crianças no Reino Unido
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção