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Kleber Mendonça Filho sobre classificação 18 anos para 'Aquarius': 'Postura injusta e conservadora'

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SONIA BRAGA AQUARIUS
Sonia Braga em cena de 'Aquarius' | Divulgação
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Desde que Aquarius foi exibido no Festival de Cannes, em maio deste ano, está claro que o novo trabalho do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho é o principal filme brasileiro de 2016.

Tanto o cineasta quanto o elenco – encabeçado por Sonia Braga, Maeve Jinkings e Humberto Carrão, entre outros – protestaram contra o governo interino de Michel Temer (PMDB) no tapete vermelho do festival francês. A repercussão foi enorme mundo afora: os artistas receberam flores e pedradas pela manifestação. Já a crítica, empolgada, recebeu a obra com elogios rasgados.

Aquarius não está tendo uma carreira normal. Estreou em Cannes e foi vendido para mais de 50 países, chegando no Brasil com uma força muito grande, por causa do que o filme é”, conta o diretor em entrevista ao HuffPost Brasil, nesta quarta-feira (24). “Isso gera uma energia positiva para o filme.”

kleber mendonca filho

A discussão política ao redor deste que é o segundo longa-metragem – o primeiro é O Som ao Redor (2012) – de Mendonça Filho continua forte até hoje.

Só neste mês, o crítico de cinema da rádio CBN Marcos Petruccelli, publicamente avesso à obra do diretor pernambucano, foi selecionado pela Secretaria do Audiovisual (SAv) para se juntar à comissão que vai escolher o longa brasileiro a disputar vaga no Oscar de 2017, na categoria de melhor filme estrangeiro.

Mendonça Filho escreveu uma carta aberta na Folha de S.Paulo sobre o assunto. “[Petruccelli na comissão do Oscar] É algo próximo de um escândalo”, disse ao HuffPost Brasil.

Além disso, o Ministério da Justiça deu a Aquarius classificação indicativa de 18 anos. O motivo alegado é a presença de “sexo explícito” e “uso de drogas” – há uma cena de orgia em que aparece um pênis ereto.

“Não acho que esteja de acordo, principalmente por causa dos precedentes de outros filmes brasileiros”, disse o diretor, alegando que a classificação não é proporcional ao conteúdo sexual em Aquarius.

Segundo Mendonça Filho, outros filmes brasileiros com fortes cenas de sexo lançados recentemente, como Praia do Futuro (14 anos) e Tatuagem (16 anos), não receberam o mesmo tratamento. “Eu acho que os parâmetros ficam confusos”, opina.

kleber mendonca filho
O cineasta pernambucano no Festival de Cannes, em maio

Aquarius é um filme sobre a vida, sobre a vontade de viver sua vida. Não faz parte da sinopse a vida amorosa de um personagem, não faz parte a relação da personagem com sexo. E o elemento sexual é muito, muito, muito curto e pontual.”

O diretor disse que o relatório recebido sobre a classificação indicativa é “muito profissional e completo. É como se fosse uma máquina que tivesse feito. E sem, ao meu ver, olhar para o filme”.

“O Ministério da Justiça fez um trabalho que me parece sério, mas que parece também se ater a questões extremamente técnicas. A boa classificação vai pelo que o filme significa e pelo que ele é. É uma análise técnica demais”, contou.

“Há também uma intepretação de que há sexo explícito e isso não é verdade. Não tem nada disso. Aquarius não pode ser colocado na mesma prateleira que Ninfomaníaca”, disse, referindo-se ao drama do diretor dinamarquês Lars von Trier, com cenas de sexo explícitas.

No longa, Braga dá vida a Clara, uma jornalista que se recusa a vender seu apartamento para o prédio dar espaço a um empreendimento imobiliário.

Apoio de cineastas a Mendonça Filho

Outros cineastas brasileiros de porte demonstraram apoio ao pernambucano. Anna Muylaert, diretora de Mãe Só Há Uma, abriu mão de submeter inscrever seu filme na disputa por uma vaga no Oscar. O mesmo fez Gabriel Mascaro, com Boi Neon.

“A cultura está unida e muito forte. Quando Gabriel e Anna fazem isso, mostra que a gente realmente acredita na cultura e em fazer as coisas de maneira correta e honesta”, disse o diretor de Aquarius.

O cineasta crê que essa “possível represália” – “não tenho informações internas dos bastidores da política”, pondera – não vai impedir o drama de continuar a atrair os holofotes.

“É uma postura injusta e conservadora. Quem sabe, existe uma coisa por trás”, falou. “A reação negativa é gigante, nacional e internacionalmente.”

Silvia Cruz, diretora da Vitrine Filmes, distribuidora de Aquarius no Brasil, disse ao UOL ter recebido a novidade com surpresa. “Eles alegam cenas de sexo e drogas, mas são cenas curtas e que não deveriam ganhar uma classificação de 18 anos”, afirmou.

O pernambucano disse que o pedido de revisão na classificação foi negado – “não sei se essa resposta final tem algum tipo de viés” –, mas acredita no amplo questionamento que a situação tem enfrentado. “Realmente, é muito suspeito que Aquarius esteja mais uma vez sendo pivô de uma questão dúbia dentro desse governo interino.”

Apesar do imbróglio, Mendonça Filho não demonstra estar abatido ou em dúvida.

“É um filme fora de controle. Se alguém está tentando conter esse filme, eu diria que está impossível de conter desde Cannes.”

Aquarius estreia no Brasil na quinta-feira, 1º de setembro. Assista ao trailer abaixo:

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