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Verônica Hipólito fez da corrida sua salvação: 'O que era difícil se tornou a melhor coisa da vida'

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VERONICA HIPOLITO
Verônica Hipólito pode dar ao Brasil medalhas na Paralimpíada | Reprodução/Facebook
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“Estou com 20 anos mas acho que já vivi mais do que muita gente.”

O jeito brincalhão, o sorriso no rosto e as gírias na fala não escondem toda a meninice que há dentro dela. Mas a frase da atleta Verônica Hipólito resume muito bem a sua trajetória: desde 2013, quando começou a competir no atletismo paralímpico, ela tem vivido anos de muita intensidade e maturidade.

A velocista conquistou o ouro no campeonato mundial paralímpico aos 17 anos. De lá pra cá, foi ouro nos Jogos Para Sul-Americanos de 2014 e no Parapan 2015. Este ano, ela é uma das grandes favoritas para o pódio na Rio 2016.

Verônica foi diagnosticada com um tumor no cérebro em 2008. Três anos depois, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) que afetou os movimentos do lado direito do seu corpo.

O momento mais delicado de sua carreira, no entanto, é mais recente. No ano passado, às vésperas do Parapan de Toronto, ela foi diagnosticada com uma síndrome rara chamada Polipose Adenomatosa Familiar.

A atleta precisava passar por uma cirurgia para retirar o intestino grosso. Corajosa e resignada, ela optou por adiar o procedimento para poder competir.

Diante do extenuante desafio, físico e emocional, a jovem brasileira garantiu nada menos do que três ouros, uma prata e mais três recordes: os dois melhores tempos em Parapan-Americanos, nas corridas de 100m e 200m, e o menor tempo das Américas nos 400m.

De volta ao Brasil, ela enfrentou a cirurgia. “Achei que ia ser mais fácil, porém foi bem mais difícil. [O hiato nos treinos] Durou nove meses. Não sei se estava preparada para isso”, comentou em entrevista ao HuffPost Brasil.


Não foram poucos os obstáculos da recuperação, mas quem a vê tão sorridente reconhece que ali há uma fortaleza praticamente inabalável. A garota que é considerada um prodígio por muitos não se acha heroína, mas revela que treinou duro e teve muito apoio para voltar a fazer o que mais ama: correr.

Voltei a correr. Voltei a competir num evento teste para o Rio 2016, com mais de 300 atletas de 24 países. Fui campeã nos 100m e 400m rasos, fazendo a terceira e a primeira melhores marcas do mundo nesse ano. Crises passam. Sério, parece que é o fim do mundo às vezes, mas te juro que não é. Palavra de quem foi do céu ao inferno N vezes nessas últimas 45 semanas. Tenha a mente flexível, os pensamentos otimistas, metas claras e a certeza de que tudo passa. Tudo passa. Menos as gentilezas que fizerem por você. Obrigada a todos que me apoiaram, mandaram vibrações positivas, e ficaram ao meu lado. Obrigada pelas mensagens de incentivo, por tanto amor e por tanta gentileza ! ❣❤️ Querem saber a real ? Tudo isso é NOSSO ! VALEU GALERA ! A volta foi em GRANDE estilo ! 😊👊🏼👊🏼🙏🏻 #VaiMagrela Foto : Fernando Maia / CPB / MPIX

Uma foto publicada por Verônica Hipólito (@vehipolito) em


A seguir, os melhores trechos da entrevista:

HuffPost Brasil: O que significa ser atleta para você?

Verônica Hipólito: O esporte foi a minha salvação. Foi o que levantou a minha autoestima, o que me fez fazer amigos. Todas as vezes que eu fiquei doente, em todos os tumores que eu tive, depois do AVC, a corrida me estimulava. Quando eu perdi parentes... Quando eu vi amigos que eram do atletismo e que não conseguiram continuar e foram para caminhos com outros desfechos, eu chorava muito no início, mas depois eu começava correr e eu deixava isso para trás.

Não foi do nada, não foi do dia para noite. Eu não tive o AVC e acordei no dia seguinte campeã mundial do para-atletismo. Mas é uma coisa que me motiva. Todo treino para mim é difícil, tudo na vida vai ser difícil, mas vão ter momentos que você vai lá e vai dar o seu máximo. E o que era difícil vai se tornar a melhor coisa da sua vida.

Você é mulher, jovem, mas já é campeã mundial. Como você lida com a pressão para estar no pódio da Rio 2016?

Se você encarar isso como uma pressão, ai você vai se cobrar muito e de uma forma negativa. Tudo pra mim é expectativa. Se você trata a cobrança de uma forma negativa, ela vira pressão. Se você trata de uma forma positiva, vira incentivo. Eu penso muito isso, inclusive em relação as pessoas que estão me pressionando. Se existe alguém que vira pra mim e fala: 'você tem que ganhar a medalha', é porque em algum momento eu dei motivo para que ela acreditasse em mim. Então eu prefiro pensar que eles estão acreditando em mim e não pressionando. Você entra na prova bem calma. Vou para me divertir e vou dar o meu melhor. Quero que o meu melhor seja o 1º lugar, todo mundo quer. Mas, se não for, eu tenho que sair de lá me divertindo.

As mulheres enfrentam o machismo em todas as esferas da vida, inclusive no esporte. Porém, na Olimpíada elas roubaram a cena. Como você enxerga esse processo?

Nas Olimpíadas, eu já fiquei muito feliz que estão focando nas mulheres. Começou com o boom do judô e aí começaram a dizer: "as meninas estão dominando esse jogos". Foi pro futebol até! E como eu também sou mulher, vejo muito as pessoas olharem com desdém o feminino ainda. "Ah, porque o masculino é mais forte, e mais rápido, e mais x y z." Agora eles estão vendo que são categorias diferentes, mas que as duas têm o mesmo encanto. Os meninos vão ver as meninas ganhando medalhas, vão ver que lutar como uma menina, correr como uma menina, levantar peso como uma menina não é uma coisa ruim; pelo contrário, é uma coisa absurdamente boa que pode te render uma medalha de ouro nos jogos. E eu quero ser mais uma dessas meninas... Que tanto mulheres como homens possam olhar pra mim e dizer: "Nossa eu quero correr como ela".

Se você tivesse que deixar uma mensagem para outras pessoas que querem começar no esporte, qual seria?

É um passo de cada vez. Quando você se der conta, você vai ser aquilo que não imaginava ser. Não ligue para rótulos ou para limitações. Quando alguém disser que você não vai conseguir, é só uma pessoa falando. Porque quem vai fazer acontecer é você. Eu fiz e muita gente tá fazendo.

E para aquelas pessoas que ainda não acreditam na Paralímpiada...

Uma coisa é certa: não são deficientes, cadeirantes ou só os amputados. São atletas de alto rendimento. A gente tem muita emoção e diversão em todas as provas. Você não vai ver os 'coitadinhos' disputarem. Quem treina 8h por dia 6x na semana não é só por brincadeira. Mas eu queria acrescentar um comentário: a parte educacional também é muito importante. Eu sou a exceção. A maioria dos atletas não conseguiu estudar. Muitas vezes a própria escola duvida da capacidade deles. Não veem o esporte como uma profissão. Não acreditam que é possível. Treino não é brincadeira. Tem que ter paciência e incentivar. A gente tem muito material humano de qualidade. Os atletas viajam o mundo, conhecem gente, se transformam. Olha isso! Tem que ter mais bolsa. O esporte é cultura. Assim como a educação. Com o atletismo, eu ampliei minha visão de mundo. O que eu pensava que era o meu mundo era muito pequeno e se tornou insuficiente. Agora, eu quero conhecer e conquistar tudo! Mas sei que nunca vou conseguir porque é muita coisa!

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