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Grávida e com medo no maior campo de refugiados da Alemanha

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rascha aldujaile
Rascha al-Dujaile cozinha para a família em seu abrigo temporário em Berlim

Rascha al-Dujaile fugiu do Iraque, mas ela e sua família continuam presas num campo de refugiados no antigo aeroporto Tempelhof, em Berlim. A mãe de cinco está grávida de novo, e teme ter de cuidar de um recém-nascido nas difíceis condições do abrigo.

BERLIM – Mais de 1 milhão de refugiados chegaram à Alemanha no ano passado em busca de uma vida melhor. Mas, como Rascha al-Dujaile, 25, seu marido e seus cinco filhos, muitos estão em campos lotados, com poucas chances de encontrar uma moradia permanente no curto prazo.

Al-Dujaile está grávida de oito meses e vive no abrigo Tempelhof, um antigo aeroporto em Berlim. Mais de 1.200 refugiados vivem no abrigo, passando dias e noites em enormes hangares.

Al-Dujaile e seus filhos fizeram a perigosa travessia da Turquia para a Alemanha em janeiro. O marido tinha vindo alguns meses antes. O bebê deve nascer no mês que vem, e ela provavelmente terá de cuidar dele no abrigo emergencial, com banheiros compartilhados e cubículos que servem de quartos. Embora os assistentes sociais afirmem que o abrigo não é lugar para um recém-nascido, não há moradias permanentes no momento, e a família terá de continuar esperando.

moradia sem teto nem porta
Rascha al-Dujaile e sua família dividem um cubículo que não tem porta nem teto

Rascha al-Dujaile conta sua história com suas próprias palavras: o casamento ainda jovem, a fuga da guerra e a vida no campo de refugiados.

Saindo de casa

"Nossa casa ficava na periferia de Bagdá, perto do front de Fallujah. Um dia, fomos visitar amigos. No caminho, uma bomba atingiu nossa casa. Não estávamos lá na hora. Mas vimos assim que voltamos. Não era mais seguro para as crianças.

Dissemos “OK, temos de sair”, mas não tínhamos para onde ir. Então decidimos vir para cá [Alemanha].

refugiados aeroporto tempelhof
Al-Dujaile e seus cinco filhos viajaram de barco para a Grécia, em seguida, fez a caminhada árdua para a Alemanha

Meu marido foi primeiro para a Europa, e eu vim depois, com as crianças. Fui do Iraque para a Turquia de avião. Da Turquia, atravessamos pelo mar, e era um caminho mortal. Tinha muito medo do mar, não achei que fôssemos sobreviver. Deus nos salvou.

Fiquei agarrada aos meus filhos o tempo todo. Os dois menores estavam no meu colo, os outros três do meu lado. Estava sempre de olho neles.

Entramos na Grécia, depois passamos por Macedônia, Sérvia, Croácia, Eslovênia e Áustria, até finalmente chegar à Alemanha. Eles andaram ao meu lado o tempo todo, sempre chorando. Foi difícil, tinha de mandar eles ficarem em silêncio.

Achei que não veria meu marido de novo. Fiquei pensando que alguém poderia levar meus filhos, porque estava sozinha e sou mulher.

Sempre cruzamos as fronteiras à noite, e dormíamos na rua. Meus filhos e eu choramos muito. É difícil acreditar que finalmente estamos juntos."

Noiva aos 16

"Conheço meu marido desde que sou criança, ele tem parentesco com minha família. Ele se apaixonou por mim e esperou eu crescer e terminar meus estudos. Terminei o ensino médio e saí da escola. Estávamos apaixonados, então parei de estudar e casei quando tinha 16 anos.

Às vezes fico em pânico e não consigo respirar. Ontem à noite, achei que minha alma não estava respirando, precisava sair. Fui para o lado de fora, tirei o véu e sentei no escuro. O ar lá de dentro estava pesado demais,

Não deixo meus filhos saírem do quarto e não deixo eles brincarem do lado de fora. Uma criança empurrou minha filha e ela ficou inconsciente. E um dos meus filhos está doente.

viver num aeroporto
Mais de 1.200 refugiados vivem dentro antigos hangares do aeroporto Tempelhof

Só queremos um lugar para morar. Um lugar onde as crianças possam brincar, descansar, dormir. Aqui não temos nada disso, não há conforto.

Estávamos sofrendo no Iraque, mas talvez estejamos sofrendo ainda mais aqui. Tínhamos medo das bombas. Mas morávamos numa casa e tínhamos estabilidade. Aqui não há estabilidade; o único benefício é a segurança."

Grávida e sozinha

"Antes de chegar, nos disseram que a Alemanha ajuda famílias que têm crianças. Não espera que deixariam a gente ficar num lugar desses.

Tenho pensado: o que vou fazer depois de dar à luz? Quem vai cuidar das crianças? Quem vai comigo para o hospital? Minha família sempre estava comigo quando tive meus filhos no Iraque. E tinha onde deixá-los. Mas aqui não posso fazer isso. Não posso deixá-los sozinhos no abrigo, porque ninguém vai cuidar deles.

Se meu marido não puder ir ao hospital por causa das crianças, vou ter meu filho sozinha. É muito, muito difícil.

crianças
Os filhos de Al-Dujaile no abrigo

Ouvi falar que muita gente odeia os refugiados e diz: “Os refugiados causam problemas”. Mas meus filhos mais velhos estão animados com a escola aqui. Quando viram outras crianças indo para a escola, perguntar por que eles não podem ir também. Disse que eles teriam de esperar até chamarem seus nomes. Eles ficaram muito felizes quando finalmente puderam ir para a escola."

ATUALIZAÇÃO: Depois da publicação da matéria, Al-Dujaile conseguiu se mudar para outro abrigo de refugiados. Assistentes sociais encontraram outro lugar e organizaram a mudança. Agora a família tem um quarto próprio e uma cozinha.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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