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Em discurso de defesa, Dilma Rousseff se emociona e diz: 'Hoje eu só temo a morte da democracia'

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DILMA
Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Em discurso no plenário do Senado diante dos 81 senadores, a presidente afastada, Dilma Rousseff (PT), optou por um tom político em sua defesa final no processo de impeachment. Ela negou as acusações de crime de responsabilide e sustentou o discurso de golpe.

"Estamos a um passo da consumação de uma grave ruptura constitucional. Estamos a um passo da concretização de um verdadeiro golpe de Estado", afirmou. A petista também destacou que é importante estar "do lado certo da História mesmo que o chão ameace nos engolir de novo", em uma referência à ditadura militar. "Viola-se a democracia e pune-se uma inocente", disse Dilma.

"Sei que mais uma vez na vida serei julgada e por ter minha consciência absolutamente tranquila em relação ao que fiz no exercício da Presidência da República, que venho pessoalmente para olhar nos olhos de vossas excelências e dizer com a serenidade de quem nada tem a esconder que não cometi nenhum crime de responsabilidade."

A presidente afastada se emocionou ao lembrar o câncer linfático que enfrentou em 2009. "Por duas vezes vi de perto a face da morte: quando fui torturada por dias seguidos, submetida a sevícias que nos fazem duvidar da humanidade e do próprio sentido da vida; e quando uma doença grave e extremamente dolorosa poderia ter abreviado minha existência. Hoje eu só temo a morte da democracia", afirmou.

Dilma sustentou que é alvo de uma elite conservadora que não aceitou o resultados das urnas em 2014, que chamou de "o governo de uma mulher que ousou ganhar duas eleições presidenciais consecutivas". A presidente afastada também agradeceu às mulheres, "parceiras incansáveis" na "batalha onde a misoginia e o preconceito mostraram suas garras".

Ao final do discurso, Dilma pediu que os senadores votassem contra seu impeachment. "Faço um apelo final a todos os senadores: não aceitem um golpe que, em vez de solucionar, agravará a crise brasileira. Peço: votem contra o impeachment. Votem pela democracia".

Ditadura

No início da fala, Dilma fez um paralelo com a ditadura militar e disse que o impeachment viola a vontade popular dos 54 milhões de votos conquistados e que não pode ser punida pelo "conjunto da obra". "No passado com as armas e hoje com a retória jurídica pretendem atentar contra a democracia", afirmou.

"Na luta contra a ditadura, recebi no meu corpo as marcas da tortura. Amarguei por anos o sofrimento da prisão. Vi companheiros e companheiras serem violentados e até assassinados, Na época eu era muito jovem. Tinha muito a esperar da vida. Tinha medo da morte, das sequelas da tortura no meu corpo e na minha alma, mas não cedi. Resisti a tempos de terror. (…) Não mudei de lado apesar do peso da injustiça nos meus ombros."

A petista também destacou que a aceitação da denúncia foi resultado de um ato de revanchismo do presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). "Se eu tivesse me acumpliciado com a improbidade, com o que há de pior na política brasileira, como muitos não tem pudor em fazê-lo, eu não correria o risco de ser condenada injustamente", afirmou.

Mais uma vez, a presidente afastada reconheceu erros e admitiu que algumas medidas políticas não foram tomadas. Por outro lado, ao final da fala, se defendeu tecnicamente das acusações de forma breve e disse não ter desrespeitado a legislação brasileira.

Ela também sustentou que não o governo de Michel Temer significa uma ruptura com avanços sociais e 13 anos da gestão do PT.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve com Dilma no domingo para acertar detalhes da fala.

Ao chegar ao Congresso, pela Chapelaria, a presidente afasta foi recepciona com flores. Ela chegou acompanhada por Lula e pelo cantor Chico Buarque.

Após o discurso da petista, senadores poderão fazer perguntas, assim com os advogados de acusação e de defesa. Os trabalhos foram interrompidos por cinco minutos.

Ao começar a sessão, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, afirmou que faixas, cartazes, aplausos, vaias, e qualquer outro tipo de manifestação são proibidos e que caso a regra fosse descumprida, a sessão seria suspensa e o responsável punido.

Desde o início da manhã, o trânsito na Esplanada dos Ministérios foi interrompido. Manifestantes a favor de Dilma começaram a se concentrar por volta das 8h30 na barreira de segurança próxima ao Congresso.

Convidados

Entre os 40 convidados da petista no plenário, estão ex-ministros como Aloizio Mercadante, Jaques Wagner, o presidente do PT, Rui Falcão, além de Lula.

Representando os movimentos sociais, estão Vagner Freitas, presidente da Central Única de Trabalhadores (CUT) e Guilherme Boulos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Além de Chico Burque,a atriz Letícia Sabatella também está entre os convidados de Dilma. Na noite de ontem, artistas e intelectuais publicaram um carta contra o impeachment, que chamam de "o mais sinistro ataque à democracia" desde 1964.

Na noite de domingo, Lula publicou uma foto ao lado de Chico Buarque.

Do lado dos apoiadores do impeachment, há 30 convidados, entre eles, o líder do Movimento Brasil Livre. Kim Kataguiri e Luiz Phillipe de Orleans e Bragança, líder do grupo Acordo Brasil e membro da família real do Brasil.

Votos

São necessários 28 votos para que a petista volte a comandar o País, mas na votação da pronúncia, fase intermediária do processo, ela obteve apenas 21. A expectativa é que a votação aconteça na madrugada de terça-feira (30) para quarta-feira (31).

A presidente afastada é acusada de crime de responsabilidade pela edição de decretos sem autorização do Congresso e pelas pedaladas fiscais — atrasos de repasses do Tesouro Nacional para o Banco do Brasil no Plano Safra.

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