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Terapia segundo Jout Jout: 'Você abre a ferida e depois a cicatriza de verdade'

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Seja por ser associado a "coisa de gente louca" ou por motivos financeiros, o fato é que cuidar da saúde mental não é uma prioridade para a maioria das pessoas.

Verdadeiro hit na internet, Julia Tolezano, a vlogueira Jout Jout Prazer, sacou que o preconceito é o motivo de muitas pessoas para não experimentar uma sessão de terapia ou de análise, e em um vídeo bem-humorado, ela tratou do assunto com a leveza necessária para se chegar a mais e mais pessoas:

"Algumas pessoas acham que, pra você ir ao psicólogo, você precisa ter sérios problemas neurológicos e mentais, e ser uma pessoa completamente perturbada, com vozes na cabeça. Não é só nesses casos que a gente vai ao psicólogo (...) Quando você é uma pessoa que não escuta vozes, não vê coisas e não tem sérios distúrbios psicológicos, você também pode ir a um psicólogo."

Jout Jout usa o vídeo para fazer "uma apologiazinha rápida à psicologia e a ir à terapia".

"Tem também o pessoal que acha que não precisa ir no psicólogo – 'eu não preciso de ninguém para me analisar, já está tudo resolvido' – e aí, associa ir ao psicólogo com uma fraqueza, porque se você é uma pessoa sinistra de verdade, você resolve seus próprios problemas, você se autoanalisa. Você conversa numa mesa de bar e já resolveu tudo."

Com linguagem acessível, ela faz uma bela e precisa definição da vida: um acumulado de vivências que vão nos soterrando.

"Você tá lá, existindo. Anos existindo. Aí você acumula o quê? Traumas , dores, sofrimentos, coisas boas, vivências em geral. E essas coisas vão acontecendo e vão ficando uma em cima da outra e aí, quando você vê, você tá soterrado em vivências."

E, ao mexer nesse amontoado aparentemente inofensivo, questões, angústias e sofrimentos começam a aparecer:

"Aí você me pergunta: 'pra que eu vou fazer isso, desenterrar coisa que já tava enterrada, já tava ótimo'. Aí está o problema: não tava ótimo, porque tava enterrado, num tava resolvido essas coisas. Só deu aquela abafada que num resolve nada. Essa abafada só deixa ali, e aí um dia você tá tomando um sorvete e aquele negócio vem. E você fala ‘como aquele sorvete desencadeou isso?’ Não sei, mas tinha alguma coisa a ver com o sorvete."

A resistência a mexer nas feridas aparece, claro:

"Você resiste, 'não, muita dor, não quero isso, isso é um sofrimento, eu não tinha nem mais esse problema na minha vida, já tava tudo resolvido agora vou voltar esse sofrimento de novo, não quero' (...) E aí você vai e desgasta aquele assunto e aí, quando você vê depois de uns dias, aquilo finalmente está de fato resolvido, porque você desenterrou, conversou sobre, e aí você resolve aquilo na sua cabeça. Você abre a ferida e depois você cicatriza a ferida de verdade, você não deixa só um furúnculo inflamado que aparentemente tá ok, mas tá cheio de pus nojento lá dentro, com um pelo encravado ainda por cima."

Terapia ainda é tabu

Fazer uma terapia ou uma análise e lidar com o sofrimento ainda são um tabu para os brasileiros, como revelou uma pesquisa inédita do Market Analysis. Apenas 2% dos adultos dos principais centros urbanos do Brasil fazem psicoterapia. É o mesmo resultado verificado em 2002, quando a primeira medição foi realizada.

Porém, 30% das pessoas consultadas admitem que têm muito interesse em fazer terapia, o que mostra um distanciamento entre a vontade e a concretização.

Os mitos financeiros acabam sendo o principal obstáculo. De um lado, fazer terapia é visto por 46% das pessoas consultadas como um luxo reservado para a elite, onde só quem é abastado pode pagar as sessões. Esta leitura é reforçada pela percepção desfavorável de que a psicoterapia não vale o que custa – é o que pensam quase 4 em cada 10 brasileiros.

"Se você quer investir no seu autoconhecimento e nessa longa viagem que é se trabalhar e se descobrir e se entender, vale cada centavo de investimento. Em nenhum segundo da minha vida eu fiquei tristinha por pagar meu psicólogo", diz a vlogueira, que sugere as clínicas-escola como opção para uma terapia gratuita.

Bárbara de Souza Conte, conselheira do Conselho Federal de Psicologia (CFP), destaca que o custo de um tratamento não é somente financeiro:

“Tratar-se também implica em entrar em contato com os aspectos destrutivos e sofridos de si mesmo. Este é um custo que muitas vezes o sujeito não quer reconhecer e se implicar. O SUS oferece uma escuta possível dentro das possibilidades, como em CAPs, com o atendimento à álcool e drogas, psicoses, família. O SUS tem muito a ser aperfeiçoado, mas é uma forma de oferecer atendimento clínico a uma faixa da população que não tem acesso ao atendimento privado.”

A pesquisa apurou também o preconceito e o desconhecimento sobre os propósitos de uma terapia: Para 34% dos consultados, apenas quem passa por problemas muito graves precisa fazer terapia.

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