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O humor e a comédia podem ajudar a falar de saúde mental

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Falar abertamente, encontrar luz na escuridão e criar redes de apoio são alguns elementos cruciais para superar problemas mentais. | reprodução
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Em uma noite em 2014, durante o Edinburgh Festival Fringe, em Edimburgo, no Reino Unido, os comediantes estavam relaxando depois de um logo dia no festival de comédia mais agitado do país, quando veio a notícia de que o adorado ator e comediante stand-up Robin Williams havia falecido.

O que se seguiu foi uma mudança dramática no circuito de comédia britânico, empurrando o assunto da saúde mental para o centro das atenções.

Os comediantes que já haviam falado sobre suas doenças mentais no palco chamaram nossa atenção, e um número maior se sentiu mais confortável em fazer o mesmo.

O resultado: No festival Fringe do ano seguinte, o tema sobre saúde mental foi amplamente abordado, com muitas pessoas falando sobre seus problemas no palco (além da realização do primeiro baile de gala sobre saúde mental do festival).

richard herringdurante
Richard Herring durante atuação no Edinburgh Fringe

A comédia sempre desafiou os limites do que é aceitável, mas, quando se trata de saúde mental, existem muito mais artistas falando e brincando sobre o tema.

Existem duas maneiras distintas pelas quais os artistas do mundo da comédia falam sobre saúde mental: muitos se abrem sobre o assunto nos bastidores, nos camarins ou durante as turnês, enquanto outros até mesmo abordam seus problemas mentais no palco e os incluem em suas apresentações.

Comediantes como a australiana Felicity Ward, e os britânicos Doug Segal e Mark Watson têm buscado maneiras sutis de provocar o riso a partir do tema da doença mental. Todos, em algum ponto de suas vidas, sofreram de problemas mentais ou os vivenciaram muito de perto.

Alguns utilizam o humor como forma de lidar com seus próprios problemas mentais, outros aproveitam a notoriedade para educar as pessoas sobre o assunto. E essa é a chave para que possam se ajudar ao mesmo tempo em que ajudam os outros.

Os problemas de saúde mental são melhor abordados por meio da discussão, do diálogo, do que ignorando-os... A comédia, no que tem de melhor, não brinca com as coisas apenas pelo riso, mas estimula a discussão, o debate, a troca de ideias. A comédia está em uma posição para fazer isso porque é divertida, por isso pode ser um caminho para os temas pesados que, de outra forma, as pessoas evitariam.

Mark Watson

“O fato de as pessoas não falarem sobre isso é totalmente incompreensível para mim em todos os sentidos”, disse o comediante australiano John Robertson em entrevista ao The Huffington Post UK. “É a coisa mais útil que você pode fazer porque só pode ser curada pela ‘porra’ da conversa.”

A retórica de Robertson foi compartilhada por vários comediantes que falaram sobre o assunto — eles simplesmente não entendem por que as pessoas têm tanto medo de falar sobre saúde mental. Doug Segal acredita que a razão possa estar no medo das repercussões no ambiente de trabalho.

“Somos todos autônomos”, refletiu Segal. “Se somos nossos próprios chefes, não temos de nos preocupar que alguém no departamento pessoal vai saber que sofremos de depressão, porque nós somos o departamento pessoal.”

john robertson
John Robertson fala sobre uma série de suicídios que o afetaram em sua carreira como comediante

Muitas pessoas que fazem um esforço para rir sobre suas doenças mentais no palco acreditam que o efeito é catártico, oferecendo a chance de se tornar “donos” de seus próprios problemas e atacar as doenças de frente.

Um estudo da Universidade Western Ohio procurou avaliar se as pessoas engraçadas eram mais mentalmente saudáveis ou menos.

Segundo o estudo, as pessoas que faziam piadas sobre si mesmas ou para se sentir melhor sobre seus problemas psicológicos eram mais capazes de lidar com seus problemas do que as que costumavam usar o humor de uma maneira mais agressiva ou autodestrutiva.

Falar abertamente sobre doença mental no palco, juntamente com a natureza terapêutica de compartilhar algo em um fórum público, pode levantar um enorme peso dos ombros dos artistas.

Acabar com esta ideia de que, se existe um rótulo no qual você se encaixa, ele não é a única coisa que o define — acredito que este é o poder da comédia.

Taylor Glenn

“Acho que muitas questões sobre depressão e ansiedade têm a ver com se sentir isolado, envergonhado e inadequado”, disse o artista de cabaré australiano DustyLimitsao HuffPost UK.

“Então, quando você fala sobre esse tipo de coisa muito abertamente, sem rodeios, e as pessoas dão risada, você na verdade sente como se estivesse compartilhando e não sendo julgado por isso.”

Em entrevista ao comedianteRobin Ince, da britânica Radio 4, no documentário “TearsOf A Clown (Lágrimas de Um Palhaço), o também comediante britânico Simon Amstellmanifestou uma opinião semelhante.

“Se eu disser algo realmente vergonhoso na frente de estranhos, e se eles derem risada em vez de me abandonarem, sinto que estou bem no mundo”, disse. “Sinto que sou parte da humanidade em vez de um pedaço quebrado dela.”

Um estudo de 2014 revelou que “fazer luz a partir da escuridão” (nas palavras de DustyLimits) pode ser não apenas um passo positivo para o artista, mas também servir para normalizar as doenças mentais para pessoas que não são normalmente expostas a elas.

“Acho muito terapêutico falar sobre meus problemas para uma sala cheia de estranhos e fazer piada sobre o assunto”, disse DustyLimits ao HuffPost UK.

Outros especialistas acreditam que o riso pode ajudar um indivíduo a ver seus problemas como menos ameaçadores, e que “uma perspectiva bem-humorada cria uma distância psicológica”, o que pode ajudar a superar sentimentos de opressão.

Embora ter a confiança e mentalidade para abertamente minimizar nossos problemas seja algo que a indústria da comédia poderia ensinar à sociedade em geral, o senso de comunidade e abertura nos bastidores dos comediantes também podem ser igualmente valiosos.

No circuito de comédia do Reino Unido, muitos comediantes estão falando sobre seus problemas nos camarins e recorrendo a seus colegas artistas como uma rede de apoio.

“A comédia é um mundo estranho, porque você pode estar em uma sala nos bastidores com outros oito comediantes e ficar sabendo sobre os diagnósticos de todo mundo, a história de saúde mental de todo mundo, sobre o divórcio de todo mundo e suas estranhas taras sexuais, mas não saberá o nome do meio ou onde cresceram”, diz a comediante dinamarquesaSofie Hagen.

O comediante britânico Carl Donnelly disse que fazer comédia pode proporcionar situações estranhas, que levam a conversas profundas e significativas com estranhos simplesmente porque eles estão no mesmo campo de trabalho.

Buscar o riso e fazer o que é familiar para mim, que é tirar sarro disso, ser honesto sobre o quão assustadores foram esses pensamentos e arrancar uma risada daquilo... é a coisa mais poderosa.

Taylor Glenn

“Você pode muitas vezes ir a um festival em algum lugar em outro país... você e outro comediante passam um fim de semana juntos, mesmo não se conhecendo de fato, e você se conecta e conversa sobre as coisas”, disse Donnelly.

“Então eu provavelmente compartilhei mais sobre o que estava acontecendo em minha vida com comediantes que eu nem mesmo conhecia muito bem e vice-versa do que eu compartilharia com amigos próximos.”

Em entrevista ao jornal escocês The Scotsman, o comediante Doug Segal disse que existe até uma rede escondida de grupos nas mídias sociais para que as pessoas do ramo falem sobre seus problemas mentais, compartilhem experiências e se ajudem.

“É endêmico”, disse. “Há uma enorme quantidade de colegas lá.”

juliette burton
Juliette Burton foi diagnosticada com TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), ansiedade aguda, transtorno maníaco-depressivo, bipolaridade, anorexia, bulimia e compulsão alimentar bem como psicose e agorafobia

A comediante britânicaJuliette Burton disse que é importante que os comediantes recorram às redes de apoio, já que a natureza do trabalho faz com que fiquem isolados por longos períodos de tempo.

“Você tem de aproveitar esses momentos quando encontra um amigo com o qual se dá bem, porque você fica sozinho grande parte do tempo em turnê e, se vê alguém que sabe o que está passando, todas as barreiras vêm abaixo”, disse.

Viver bem é o tipo de desejo tão universal que se tornou um direito. Mas não há fórmula ou mágica que o garanta, o que deixa, para cada um de nós, a difícil tarefa de descobrir e pavimentar o próprio caminho. A newsletter de Equilíbrio vai trazer a você textos e entrevistas sobre saúde mental, angústias, contradições e alegrias da vida. Assine aqui para receber novidades no fim de semana.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.


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