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Da guerrilha ao impeachment: A trajetória da primeira mulher presidente do Brasil

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DILMA
Impeachment acaba com 2º mandato de Dilma, iniciado em 2015 | Ricardo Stuckert / Instituto Lula
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Seis ministros citados em denúncias de irregularidades demitidos em seis meses. Sem disposição para negociar cargos e verbas em almoços e jantares com parlamentares. Dilma Rousseff assumiu o Palácio do Planalto resistente às práticas da política em Brasília e deixa o comando do País nesta quarta-feira (31) após perder o apoio dos congressistas e sofrer impeachment no Senado.

Lançada pelo então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, como candidata do PT à Presidência da República em 2010 como a "mãe do PAC", o Programa de Aceleração ao Crescimento, Dilma se destacava pelo perfil técnico, que rendeu a imagem de "gerentona".

Formada em Economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi secretária estadual de Minas, Energia e Comunicação, além de ministra de Minas e Energia e chefe da Casa Civil do governo Lula. Em 2009, foi apontada pela revista Época como uma das 100 pessoas mais influentes do País.

Após eleita, eram horas de reuniões intermináveis no Planalto, onde ela analisava detalhadamente cada planilha, prós e contras de planos do Executivo. O detalhismo e a centralização das decisões traziam lentidão ao governo e renderam à petista a fama do temperamento irascível, avesso a críticas.

"Sou uma mulher dura cercada de homens meigos", dizia desde a campanha de 2010.

Nos primeiros meses de governo, vetou a distribuição de cargos para a base, anunciou corte de R$ 50 bilhões, chegou a ter o apoio de 17 partidos e de 80% do Congresso.

Em maio de 2011, o Ibope registrava 73% de aprovação popular. Ao final do ano, o Brasil havia criado 2 milhões de empregos e superado a Inglaterra, tornando-se a sexta economia do mundo. As demissões dos ministros envolvidos em escândalos renderam o título de faxineira da corrupção e contribuíam para a popularidade.

Em maio, veio a revelação de que a empresa de consultoria do titular da Casa Civil, Antonio Palocci, faturou R$ 20 milhões em um ano.

Em seu lugar, assumiram a articulação política Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti. Se por um lado representavam um aceno à participação feminina na política, por outro, a dupla era vista pelos parlamentares como "café com leite" e controlada pela presidente.

O começo do fim

O primeiro sinal de que o estilo Dilma de governar não estava funcionado veio durante as negociações da votação do Código Florestal, em 2012. O PMDB ameaçou ir contra o governo, e a petista ameaçou demitir os ministros do partido. Lula negociou, e a legenda votou contra o Planalto, mas manteve os titulares na Esplanada.

Na economia, a presidente foi acusada de abandonar o tripé econômico: meta de inflação, superávit fiscal e câmbio flutuante. Ela baixou taxas de juros para fomentar o crédito e adotou a "contabilidade criativa", prática conhecida por maquiar receitas e despesas, de modo a aumentar o superávit primário, dinheiro reservado para o pagamento da dívida pública e indicador de confiança para o mercado financeiro.

À inexperiência política, somavam-se o vocabulário prolixo e as falas enfadonhas e confusas, apelidadas de "dilmês".

Em um dos episódios, durante cerimônia de lançamento de obras do PAC em Porto Alegre (RS), em outubro de 2013, Dilma afirmou que "sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás, o que é algo muito importante”, ao falar do Dia das Crianças.

Com o fracasso das medidas para impulsionar o crescimento, o Brasil voltou a ser a sétima economia do mundo, e a The Economist pediu a cabeça do ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Ganhou corpo o "Volta, Lula", com o ex-presidente apontado nas pesquisas como possível candidato em 2014. Ele tratou de anunciar a candidatura à reeleição de Dilma, apesar de certo descontentamento com a falta de traquejo da petista em Brasília.

Coração Valente

Se na campanha de 2010, Dilma havia acabado de enfrentar um câncer linfático, na disputa pela reeleição, o mote era "o que tá bom, vai continuar" e "o que não tá, a gente vai melhorar", no jingle Coração Valente.

Ao ganhar o pleito com uma diferença de 3,4 milhões de votos, a petista disse estar disposta ao diálogo no segundo mandato e conclamou os brasileiros a "unir o País".

2013, um ano antes das eleições presidenciais, já havia marcado uma mudança na forma como Dilma era vista pela população. Durante as Jornadas de Junho, a aprovação do governo dela havia despencado de 57% para 30% em 20 dias.

Em resposta, o Planalto anunciou o programa Mais Médicos e os royalties do petróleo para educação, além de flexibilizar as regras para concessões. Dois meses depois, a aprovação chegou a 44%, mas não foi suficiente.

No Congresso, o então líder do PMDB na Câmara, deputado Eduardo Cunha (RJ), havia imposto uma derrota ao governo na votação da MP dos Portos, em maio daquele ano.

A derrocada na articulação política ganhou um empurrão na reforma ministerial de 2014, quando Aloizio Mercadante assumiu a Casa Civil. Conhecido pelo estilo rígido, tinha postura similar à de Dilma, o que dificultava as negociações com os parlamentares.

Somado a esse cenário, o avanço da Operação Lava Jato expôs o esquema de corrupção na Petrobras e atingiu o PT. Ex-tesoureiro do partido, João Vaccari Neto foi condenado a mais de 15 anos de prisão, por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Falhas na gestão da estatal chegaram também à petista. Dilma era presidente do Conselho de Administração da empresa quando a refinaria de Pasadena foi comprada por R$ 1,18 bi, quase 27 vezes a mais do que o valor pelo qual a empresa americana havia sido vendida em 2005.

Fortalecido entre os parlamentares e irritado com PT após Dilma vetar pontos polêmicos da MP dos Portos, Cunha organizou em 2014 um bloco de partidos aliados e da oposição que passou a atuar contra propostas do Planalto. Em fevereiro de 2015, o peemedebista venceu a eleição para a presidência da Casa.

O desgaste da relação culminou com o rompimento com a petista em julho do ano passado. Por outro lado, o cerca sobre Cunha se fechava. Autoridades da Suíça afirmaram ter bloqueado US$ 5 milhões em contas do deputado e de seus familiares no país, abastecidas por recursos desviados da Petrobras. A acusação levou o deputado a se tornar réu no Supremo Tribunal Federal.

Alvo de um processo no Conselho de Ética desde outubro, que pode levar à cassação do mandato, as negociações do peemedebista com o Planalto se esgotaram em 2 de dezembro. Horas após o PT anunciar que votaria contra ele no Conselho, Cunha acolheu o pedido de impeachment.

Militância e herança

Durante sua gestão, Dilma instalou a Comissão da Verdade, para esclarecer crimes da ditadura militar, procrastinada por Lula, e aprovou a Lei de Acesso à Informação.

Vítima do regime militar, em 2001, a ex-presidente contou detalhes de sessões de tortura, algumas sob comando do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Ela foi colocada no pau de arara, tomou choques elétricos, apanhou de palmatória e foi submetida a socos.

A atuação como guerrilheira levou à prisão dela em janeiro de 1970 no centro de São Paulo. Até dezembro de 1972, ela foi torturada nos porões da Operação Bandeirantes (Oban) e do Departamento de Ordem Política e Social (Dops).

O interesse pela política veio do pai, o búlgaro, Pétar Russév, ligado a movimentos políticos na Europa. Nascida em 14 de dezembro de 1947 em Belo Horizonte, Dilma estudou em colégios particulares de freiras, exclusivos para moças, até a juventude.

Em 1964, ano do golpe militar, entrou no Colégio Estadual Central, escola pública com turmas mistas. Lá, iniciou a militância na Polícia Operária (Polop), organização de esquerda ligada ao movimento estudantil. Foi onde conheceu seu primeiro marido, Claudio Galeano, de quem se separou devido à perseguição na ditadura.

O segundo casamento foi com o advogado Carlos Franklin Paixão de Araújo, com quem fundou o PDT no Rio Grande do Sul, em 1980. Ela permaneceu no partido até 2001, quando entrou para o PT, um ano antes da primeira eleição de Lula.

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