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Valesca Popozuda sobre relacionamento abusivo: 'Eu me calei, mas hoje não'

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Valesca Reis Santos, 37, antes de ser conhecida como Valesca Popozuda, já não abaixava a cabeça para o machismo ou as dificuldades impostas pela vida.

A carioca relata em seu primeiro livro, Sou Dessas: Pronta pro Combate (BestSeller, 192 p., R$ 29,90), histórias de antes iniciar carreira como funkeira.

Ela se relembra de momentos tristes – como o dia, na época de pobreza, em que uma patroa negou alimentação a Valesca e a mãe em um dia de trabalho –, um assédio sexual no camarim – ela reagiu queimando o pênis do homem com um aparelho de babyliss – e um relacionamento abusivo.

valesca

O ícone feminista vai além: dá conselhos para quem está em dificuldades, comenta a vida em família e, não diferente de suas músicas, compartilha mensagens e ideias a favor da autoestima do leitor.

“Eu tenho certeza de que estou falando com uma pessoa especial. Sim, você”, escreveu na introdução. “A minha grande inspiração, o que me fez aceitar o desafio de escrever este livro, foram pessoas como você.”

Logo na capa, Valesca deixa claro que não está diferente: feminista, verdadeira e celebradora da força necessária para superar obstáculos.

Em Sou Dessas, ela narra também sobre histórias dos tempos em que cantava no Gaiola das Popozudas, a carreira como artista independente e liberdade sexual.

A funkeira conversou com o HuffPost Brasil na última sexta-feira (26), na 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, onde ela lançou o livro e o autografou para os “popofãs”.

Falamos sobre o assédio, empoderamento feminino e superação. Leia nossa conversa abaixo:

HuffPost Brasil: Falar sobre você sem falar sobre empoderamento feminino é incontornável. Você sempre foi assim ou houve algum acontecimento em sua vida que te fez você acordar para isso?

Valesca: Eu sempre fui assim, muito forte. No livro, eu conto das dificuldades que minha mãe passou, quando nova. Ela deu duro para me criar. Eu fui vendo isso, o quanto ela era forte, batalhadora, guerreira. Eu tive isso de exemplo. Antes, ela apanhava, ficava quieta, não falava nada, sabe? Ela se fechava. Não tinha a Lei Maria da Penha, como hoje. Ela não tinha com quem conversar além de mim. Eu fui uma criança forte. A gente estava ali juntas, na alegria e na tristeza.

valesca bienal

HuffPost Brasil: Você diz no livro que passou por muitas dificuldades e discriminações. Como você superou isso tudo?

Valesca: É só passando para você aprender. Você cai e levanta. Às vezes, precisa de ajuda para levantar. Isso faz com que você analise como a vida é. Eu paro para pensar sobre meu trabalho, minha família – eu paro para pensar em tudo. Hoje é fácil falar, depois que já passou, mas é fácil também ajudar as pessoas a levantar a cabeça. Eu passei por problemas, mas consegui revertê-los, estou aqui. Não que eu não tenha problemas hoje. Eles existem em qualquer lugar. Mas você tem que ser tão forte quanto eles.

HuffPost Brasil: Uma das histórias é sobre assédio. Você diz que queimou o pênis de homem com aparelho de babyliss. Como isso aconteceu? No que você pensou antes de reagir?

Valesca: Isso foi na época do Gaiola das Popozudas. A gente fazia dois, três, quatro shows por noite. Eu estava no camarim, suada, fui retocar a maquiagem, trocar de roupa. Aí ele [o homem] entrou. Eu estava de shorts e top, ia colocar outra roupa por cima. Ele entrou brincando, mas eu percebi que não era brincadeira. Acho que ele confundiu as coisas. Veio com graça e quando encostou em mim, eu falei “ah, não!”. Eu me virei [para ele] e ele achou que eu ia pegar [no pênis], mas o que pegou foi o babyliss.

HuffPost Brasil: Outra história é sobre um relacionamento abusivo. Como você saiu disso? O que você diria para uma mulher que está em uma situação semelhante?

Valesca: Naquela época, era bem complicado você sair disso. Você tinha que sair se calando, se fechando, sem deixar que as pessoas soubessem. Poxa, ele foi safado, mas eu ia falar? Então eu me calei. Não quis fazer algazarra ou me beneficiar com isso. Mas hoje, não. Hoje a gente tem a liberdade de falar o que pensa e, se sofrer abuso ou assédio, de abrir a boca, colocar no mundo. E não pense que quem está do seu lado, que você vai machucar a pessoa, porque que quem vai sair da história machucada é você. Quem saiu machucada fui eu. Hoje eu tenho prazer de contar essa história no livro, para meus fãs ficarem sabendo o que aconteceu durante toda minha vida. Antes eles só sabiam de algumas coisas, mas agora eles saberão de mais.

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