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'Aquarius', novo filme de Kleber Mendonça Filho, tem grande peso político e causa necessário mal-estar

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Sonia Braga entra sem ser anunciada no salão reservado para a coletiva de imprensa do filme Aquarius. Elegante e bem-humorada, a atriz de 66 anos atrai todos os olhos para si. Ela praticamente flutua em direção à mesa preparada para o diretor, Kleber Mendonça Filho, a produtora Emilie Lesclaux e os colegas de elenco.

“Você não vai me anunciar?”, ela pergunta para ele. O cineasta sinaliza que sim e ela volta para a porta do salão do Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo. “Senhoras e senhores, Sonia Braga”, diz Mendonça Filho no microfone.

Sob aplausos e risadas, a intérprete da também jornalista Clara avança pelo salão acenando para os repórteres. Ela explica: “É uma brincadeira que a gente faz. Ele me anuncia antes das coletivas”. Em marcante retorno ao cinema, a atriz ri sozinha: “Tem que fazer toda uma preparação, entende?”.

“Prometo me comportar daqui para frente”, complementa. Braga, de fato, tem sido só sorrisos na divulgação de Aquarius – o qual tem sido recebido com entusiasmo pela crítica desde a exibição no Festival de Cannes em maio deste ano, quando concorreu pelo prêmio principal do evento, a Palma de Ouro. A magistral atuação da paranaense tem sido destacada entre tantos elogios.

Na coletiva, realizada na tarde da última segunda-feira (29), acompanhavam atriz, diretor e produtora Humberto Carrão (Diego), Maeve Jinkings (Ana Paula), Julia Bernat (Julia) e Bárbara Colen (Clara nos anos 1980). O clima era de expectativa para a estreia do longa-metragem, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (1º).

sonia braga aquarius

Aquarius retrata a queda de braço travada entre a obstinada Clara e uma construtora que quer levantar um empreendimento no lugar do prédio em que a protagonista vive há décadas e construiu uma vida – e que dá título ao filme. O jovem ambicioso Diego, um símbolo do homem branco no poder, é o responsável pela obra. Trata-se do segundo longa-metragem de Mendonça Filho, que em 2012 pegou o mundo do cinema de assalto com o também elogiado O Som ao Redor.

A batalha de uma formiga contra um gigante é narrada pelo pernambucano com destreza: íntimo da linguagem cinematográfica, ele recorre mais uma vez à tensão e à simplicidade para mostrar pessoas comuns em conflitos duros e realistas.

Quando a equipe de Aquarius exibiu a obra em Cannes, usou o tapete vermelho do festival francês para protestar contra o impeachment da hoje ex-presidente Dilma Rousseff (PT); eles se referiram ao processo como um “golpe”, mostrando placas à imprensa mundial, presente na cobertura.

Recebido com aplausos na sessão, especulava-se, a partir dali, que Aquarius venceria a Palma de Ouro e Braga, o prêmio de melhor atriz. No fim, o longa saiu da competição sem prêmio algum, mas não de mãos abanando. O protesto gerou enorme repercussão, os elogios vieram torrencialmente e a distribuição foi vendida para mais de 50 países após o alvoroço. Já estava claro: Aquarius é o grande filme brasileiro de 2016. Sua força é incontrolável.

aquarius bastidores

O filme chamou atenção geral de novo em agosto, quando o crítico de cinema Marcos Petruccelli foi selecionado pela Secretaria do Audiovisual (SAv) do Ministério da Cultura para ser parte da comissão que escolhe o longa brasileiro a disputar vaga na categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar de 2017. Petruccelli é publicamente avesso à obra do cineasta pernambucano. Além disso, o Ministério da Justiça atribuiu ao longa uma classificação indicativa de 18 anos pelas cenas de uso de drogas e de “situações sexuais complexas”, como diz o relatório (Braga e Mendonça Filho comentam o assunto no vídeo acima).

Na ocasião, o diretor disse ao HuffPost Brasil que era uma decisão injusta e uma “possível represália” ao protesto em Cannes.

“É evidente que eu não consigo afirmar que isso é censura ou boicote. Não tenho dados para afirmar. O que posso dizer é que me causa um estranhamento”, diz Jinkings, intérprete de Ana Paula, filha de Clara, em entrevista ao HuffPost.

“Eu não posso deixar de dissociar uma certa ‘má vontade’ para com o filme por parte do Ministério da Cultura. Bom, o ministro [Marcelo Calero] já se manifestou publicamente, recriminando a equipe de Aquarius de maneira, na minha opinião, deselegante.”

A atriz brasiliense argumenta: “Eu já vi cena de cadáver carbonizado em programa vespertino na TV, tipo ‘sei lá o que alerta’, essas coisas. Acho isso muito mais violento e questionável do que uma cena de sexo”.

Neste dia 1º, o governo reduziu a classificação para 16 anos – reconheceu que não há cenas de “sexo explícito” e o “forte” valor cultural da obra já está “garantido”.

“É muito louco o que está acontecendo com Aquarius. Particularmente nesta semana de estreia. É uma semana decisiva, em um momento histórico do nosso País”, diz o diretor.

Agora com o impeachment de Rousseff confirmado, a efetivação de Michel Temer (PMDB) na presidência do País e as ruas já tomadas por manifestações em defesa de ambos, Aquarius estreia trazendo consigo um notório peso político.

Tanto diretor quanto elenco não se esquivam disso. Na coletiva, todos falam bastante a respeito de problemas políticos do Brasil, representatividade feminina na obra do cineasta e machismo no cinema.

“A primeira coisa que eu, assim como outros atores e homens, temos que entender, é que isso acontece. Eu sou privilegiado por ser ator, homem e branco”, diz Carrão.

O ator explica:

“Esse privilégio não deve existir e luto para que isso não aconteça. O que eu posso fazer é não aceitar determinados projetos em que eu acho que isso acontece e me posicionar claramente sobre isso. Eu acabei de dirigir um curta, por exemplo, que só tem mulheres, porque acho fundamental que se crie espaço. Eu sou feminista. Homens precisam entrar nessa briga também.”

Braga crê que a presença predominante do homem no mercado de cinema é sintoma do que a sociedade realmente é.

“As pessoas de poder sempre discutem a sua posição e poder. É mais ou menos isso”, explica. “Os ricos defendem sua riqueza, mas não falam sobre a pobreza. O problema no Brasil não é a pobreza. O problema é a riqueza, porque vão sempre discutir o lugar deles na sociedade. O cinema é a mesma coisa, não se difere da sociedade.”

Com orçamento de aproximadamente R$ 3,3 milhões, o longa filmado em Pernambuco é, de fato, ótimo. Com uma tensão que chega a níveis inimagináveis e uma trilha sonora que é quase uma personagem (veja a playlist abaixo), Aquarius é do tipo que não deixa sua cabeça facilmente após a sessão. Ele causa um necessário mal-estar ao falar sobre o poder da iniciativa privada e hábitos nocivos de instituições.

Braga e Carrão concordam que, na vida real, existem muitos Diegos.

“A tensão é clara e existe. O que eu posso dizer é que os movimentos, com a internet, têm a possibilidade de se organizar [melhor]”, diz o ícone do cinema e da TV. “O Brasil virou um país democrático. O risco de perder essa democracia, que é muito jovem, apavora a todos. Eu tenho confiança que nós vamos conseguir [vencer isso].”

Carrão traça um paralelo entre o drama de Aquarius e o que ele acredita que ocorre hoje no Brasil. “Os Diegos não aguentaram perder as últimas eleições e arranjaram uma nova forma de conseguir tomar o poder”, opina.

O ator continua sua defesa:

“Os Aquarius já estão sendo destruídos. Os direitos de minorias já estão indo embora. É ação e reação. Eles só estão tomando esse poder porque muitos grupos que eles não pensam que deveriam ter direitos estão tendo, mas consequentemente, esses grupos vão fazer mais barulho. Nós vamos fazer mais barulho.”

O cineasta Kleber Mendonça Filho fala que seu próximo filme chamará Bacurau, que ele dirigirá com Juliano Dornelles, que tem assinado a direção de arte de seus filmes. “Pode ser descrito como um cinema de gênero, um thriller com toques de horror”, conta. No entanto, ele não pode dar detalhes por ora. “Quero muito fazê-lo no início de 2017.”

Com Irandhir Santos (Roberval), Carla Ribas (Cleide), Germano Melo (Martin) e a adorável Zoraide Coleto (Ladjane). Duração: 140 minutos. Distribuição: Vitrine Filmes.

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