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'Até as emas do Alvorada sabem que a lei é uma pra Cunha, outra pra mim'

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DILMA ROUSSEFF
Roberto Stuckert/PR
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Dois dias após ter sido afastada definitivamente do comando do País, Dilma Rousseff convocou a imprensa internacional para falar sobre o novo cenário político brasileiro. Em quase duas horas de conversa, a ex-presidente falou sobre o futuro, sobre o jeito brasileiro de fazer política, o famoso ‘toma lá, dá cá’, sobre a relação com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e fez uma forte defesa do direito a manifestações.

“Prefiro a voz rouca das ruas, que o silêncio da ditadura. O silêncio da ditadura eu conheci na pele. (…) Eu sei como começa, a culpa é do manifestante. Primeiro tiram o olho da menina, depois matam. Quem é da minha geração não pode compactuar com isso. O terrorismo do estado é gravíssimo, o poder do estado para reprimir é muito forte."

Dilma também desconfiou que estejam querendo usar o fatiamento da votação do impeachment, que lhe preservou os direitos políticos, para tornar elegível o deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). "Até as emas do Alvorada sabem que a lei é uma pra Cunha, outra pra mim", afirmou.

O ex-ministro José Eduardo Cardozo, que acompanhou a entrevista, anunciou que continuará a questionar o processo na Justiça. Na avaliação dele, não houve “justa causa” para iniciar o processo. “Sem objeto jurídico não tem como ter julgamento político”, afirmou.

Leia os principais pontos da conversa de Dilma com os jornalistas:

Golpe

Estou sendo vítima de um processo de suspensão do meu mandato, a maior pena política que alguém pode ter, por três decretos e um plano safra que não participei, que foram sistematicamente feitos. Estamos diante um golpe, um golpe parlamentar, mas um golpe. No Brasil há grande inconformidade dos golpistas com a palavra golpe.

Plano de governo

Fui eleita com 54 milhões de votos para aplicar um projeto de governo. Que processo é esse que ao mesmo tempo que retira a presidente e antes dela sair começa a executar um programa que não tem respaldo das ruas. Se ele dá direito de usar a condição de vice para assumir a presidência, também tem que usar para assumir o programa que deu o mandato nas urnas.

Votação fatiada

O segundo voto é o daqueles que não consideram que de fato cabia uma punição. São senadores que estavam indecisos, que sofreram pressão, mas votaram no sentido de que eu não teria inabilitação dos meus direitos políticos por oito anos.

Esta é a segunda vez na vida que julgam meus direitos políticos. Em 1972, fui condenada a 4 anos, com julgamento da perda dos meus direitos políticos por 10 anos.

Fato gravíssimo é que me condenaram a pena de morte política ao me tirarem da presidência. Maior pena que um brasileiro pode ter.

Dois pesos e duas medidas não são pouco usuais no nosso País. Esqueçam o que escrevi, esqueçam o que eu falei. Aqui o compromisso com a coerência é muito pequeno, principalmente nas questões grandes.

Futuro da democracia

Espero que nós todos juntos, saibamos reconstruí-la, espero também que ao longo do processo sejamos capazes de ter clareza daquilo que nunca mais pode acontecer, somos uma democracia jovem, que não pode passar pelo fato que de todos os presidentes leitos só quatro cumpriram integralmente o seu mandato.

Manifestações

Sempre convivemos com manifestações contrárias. Nós jamais reprimimos, nós nunca tivemos uma postura antidemocrática do tipo que está em curso hoje no Brasil. O golpe atua como um parasita, um fungo na árvore da democracia.

Um exemplo é o “Fora Temer”. Não é possível isso. Quando você passa a ter medo das palavras é que começa o processo repressivo. Temer as palavras leva isso. Por isso me orgulho muito, durante todo meu governo, nós jamais tivemos medo das palavras. Prefiro a voz rouca das ruas que o silencio das ditadura. O silêncio da ditadura eu conheço na pele.

Eu sei como começa, a culpa é do manifestante. Primeiro tiram o olho da menina, depois matam. Quem é da minha geração não pode compactuar com isso. O terrorismo do estado é gravíssimo, o poder do estado para reprimir é muito forte.”

Eduardo Cunha

As regras que se destinam ao impeachment e ao parlamentar são diferentes. Até as emas do Alvorada sabem que a lei é uma pra Cunha, outra pra mim.

Estou sendo julgada por três decretos de crédito suplementar. Eduardo Cunha tem contas no exterior, acusações de inúmero delatores no sentido de que ele recebia propina. Eu sou julgada. Cunha, não.

Crise econômica

Mandamos projetos (para conter a crise) que foram negados ou aceitos parcialmente, as chamadas pautas bombas. Usaram a situação econômica para expansão do vírus do impeachment, mas tem outra característica que é muito importante, que é a criminalização da política fiscal no Brasil.

É ridículo supor que as causas da crise s são o plano safra e os decretos de suplementação. Isso é ridículo, é subestimar a inteligência das pessoas.

Aliança PT e PMDB nos municípios

Tem vários PMDBs. Não se pode supor que os 35 partidos são programáticos, não tem 35 programas, pode ter um número maior que um ou dois porque tem nuances. O fato de os partidos terem ação homogênea não ocorre no Brasil, não ocorre nas votações no senado, não corre na câmara.

Por que me achavam dura? Porque é difícil, se você tem alguma convicção, ficar no toma lá, dá cá. E eu não recusava algumas coisas.

Lula, PT e novas eleições

Não tenho nenhuma mágoa do PT, não só o Lula ficou aqui comigo em todo esse processo, ele esteve presente aqui comigo, acompanhou a votação comigo. Esteve presente comigo em todas as circunstâncias, me encheu de apoio e carinho. Por ele, eu tenho imensa consideração, além de política, pessoal. É uma perda de tempo tentar me indispor com o Lula.

Quem está querendo eleição direta é o povo na rua, não é só nós.

Janaína Paschoal

Vocês assistiram o comportamento da doutora. O comportamento de uma pessoa cujo as convicções não se parecem comigo, nem do ponto de vista político, nem cultural, nem humano. Não respeito uma pessoa capaz de falar o que falou. Para os meus netos, eu quero um Brasil democrático, cheio de oportunidades. Eles terão, tenho certeza que terão, é não é por causa da doutora Janaína.

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