Huffpost Brazil
Amauri Terto Headshot

Em resposta à 'Sol Nascente', artistas orientais lançam manifesto pedindo o fim da 'discriminação étnica' na TV

Publicado: Atualizado:
Imprimir

familia

A escolha do elenco da nova novela de Globo, Sol Nascente, tem sido considerada um grande retrocesso frente Às discussões sobre representatividade e diversidade na mídia.

A trama aborda a amizade entre duas famílias imigrantes: uma vinda da Itália e a outra do Japão. A história de amor central ocorre entre os personagens Mario de Angeli e Alice Tanaka. É no núcleo oriental da trama que está o problema.

Escolheram o ator Luis Melo (descente de índios com italianos) para interpretar o patriarca da família Tanaka. E para o papel da protagonista escalaram Giovana Antonelli, uma atriz que também não tem ligação com a comunidade japonesa.

A decisão de colocar dois atores de aparência ocidental liderando o núcleo japonês da novela causou indignação na classe artística.

A repercussão negativa ganhou ainda mais força quando veio à público a informação de que o ator Ken Kaneko, com ampla experiência na TV, havia sido cotado para o papel de protagonista, escolha descartada, segundo o autor Walter Negrão, por causa da idade avançada em relação ao personagem.

No entanto, uma observação é válida: Kaneko é dois anos mais jovem que Francisco Cuoco, o outro patriarca de Sol Nascente.

ken

Ken Kaneko foi substituído por Luis Melo na nova novela das 6

Sobre a escolha de Antonelli, Negrão justificou, em entrevista ao site Ego:

''Tentamos achar nos testes uma protagonista japonesa, mas não encontramos uma com status de estrela. Eu precisava disso, a Globo queria uma estrela. Novela tem um custo muito alto, não dá para arriscar''.

Em entrevista ao blog de Mauricio Stycer, do UOL, a atriz Cristina Sano, falou sobre o caso: “Luis Melo é um excelente ator. Nada contra ele nem contra a Globo. A questão é da falta de representatividade. Todos estão muito indignados. Os japoneses estão ao fundo e o núcleo é a Antonelli e o Luis Melo”.

Em resposta ao casting equivocado da novela, cerca de 200 artistas de ascendência asiática criaram o coletivo Oriente-se que, na última quarta-feira (31), lançou em São Paulo um manifesto que pede o fim da “discriminação étnica que ocorre em algumas produções de audiovisual que retratam o oriental de forma estereotipada, preconceituosa e distorcida da realidade”.

No texto, os artistas afirmam que diante de casos como esse - que invalidam as conquistas alcançadas por diferentes minorias na mídia e em outros setores - são necessárias ações afirmativas:

“Entendemos que, frente às desigualdades existentes, não basta rejeitar as práticas de discriminação, mas sim realizar ações que possam corrigir distorções e aproximar indivíduos.

Leia a íntegra do manifesto do coletivo Oriente-se:

Nós, artistas e profissionais das artes com ou sem ascendência oriental, seja japonesa, chinesa ou coreana, reivindicamos por igualdade no tratamento justo a todos os cidadãos, repugnando práticas de discriminação étnica que ocorre em algumas produções de audiovisual que retratam o oriental de forma estereotipada, preconceituosa e distorcida da realidade. Em especial para produções populares de rede aberta como novelas, seriados e comerciais que, atingem a maioria da parcela dos cidadãos brasileiros, influenciam diretamente a sociedade promovendo às vezes, o conceito deturpado e negativo, denegrindo a imagem dos orientais e educando as novas gerações com a visão preconceituosa contra a nossa comunidade.

Somos parte integrante da sociedade brasileira, nascemos, vivemos e contribuímos com muito trabalho para o enriquecimento e desenvolvimento de nossa nação. Ter a presença de atores e artistas orientais em produções de audiovisual em papéis não estereotipados e de forma respeitosa, é o mínimo e o justo que a comunidade oriental brasileira merece em retribuição e gratidão por mais de um século de história em terras brasileiras. Somos brasileiros e exigimos respeito para com todos, independentemente de sua ascendência. A diversidade étnica, social e/ou de gênero é fundamental e necessária para o crescimento de qualquer cidadão.

Entendemos que, frente às desigualdades existentes, não basta rejeitar as práticas de discriminação, mas sim realizar ações que possam corrigir distorções e aproximar indivíduos. É responsabilidade de cada um de nós brasileiros, promover a igualdade no cotidiano, através de nossos atos, trabalhos e postura. É de extrema importância que os profissionais que atuam diretamente na concepção e produção de obras de audiovisual, tenham a consciência de que a sua criação pode influenciar positivamente a nossa sociedade e difundir a diversidade. Cabe também a nós, artistas orientais brasileiros, fomentar a imagem positiva de nossa comunidade, através de nosso trabalho artístico, para que as futuras gerações possam se olhar com a autoestima de um cidadão brasileiro pertencente a esta nação.

São Paulo, 31 de agosto de 2016

Em artigo no jornal Zero Hora, a jornalista e neta de japoneses Jéssica Nakamura tece uma importante reflexão sobre o caso:

“Os japoneses e seus descendentes já estão no Brasil há mais de um século, e vivem na sociedade brasileira como cidadãos de qualquer outra etnia: com famílias multirraciais, amigos e profissões das mais variadas possíveis, incluindo, veja só, a de atores e atrizes (só no coletivo citado são mais de 100). Ainda assim, continuamos sendo rotulados e encaixados dentro dos estereótipos que o olhar dominante criou para nós. (...) Não precisamos de uma protagonista interpretada por uma atriz caucasiana para contar ao público, na estreia da novela, quem somos e como nos relacionamos a sua personagem enquanto permanecemos calados dentro de um templo budista (religião que não é comum a todos nós, por incrível que possa parecer para alguns). (...) Precisamos apenas que nos sejam dadas vozes para falar (sem sotaque) e oportunidades ao menos parecidas com as que os atores ocidentais têm. Só assim conseguiremos deixar de ser vistos como apenas o tintureiro, o feirante, o pasteleiro, o nerd, a melhor aluna da turma. Só assim nossos rostos serão conhecidos o bastante para que não "precisem" mais escalar atores de traços ocidentais para interpretar o patriarca de nossa família.”

É possível acompanhar as ações do coletivo Oriente-se no Facebook e YouTube.

LEIA MAIS:

- Conversamos sobre igualdade de gênero na TV com as atrizes de 'Justiça'

- Viola Davis: 'Fomos alimentadas com uma enorme quantidade de mentiras sobre mulheres'

TAMBÉM NO HUFFPOST BRASIL:

Close
Aberturas de novelas anos 1990
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção