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Bem vindo à eleição mexicano-americana

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TRUMP
Donald Trump destila xenofobia em campanha eleitoral | http://www.huffingtonpost.com/entry/2016-mexico-el
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WASHINGTON – Donald Trump promete construir um muro “ótimo” nos 3.200 quilômetros de fronteira entre o México e os Estados Unidos e também fazer o governo mexicano pagar pela obra.

Vicente Fox diz que seu país não vai pagar “uma porra de um muro”. Hillary Clinton, para não ficar para trás, ataca Trump, chamando o empresário de intolerante e ditatorial, em grande parte porque ele acusou os imigrantes mexicanos de criminosos, traficantes e estupradores.

Até mesmo a aparição de uma travessa de tacos tornou-se um momento chave da eleição presidencial nos Estados Unidos.

Será que Trump estava honrando a cultura mexicana com seu tuíte de 5 de maio ou provocando seus críticos? (Foi provocação, como confirmei depois).

Cidadãos mexicanos não votam em eleições americanas, é claro. Mas, este ano, o México está em primeiro plano nos Estados Unidos, a ponto de causar tensão nos dois países. Dá para curtir uma boa dose de humor negro, mas, quando o México se torna uma questão central, geralmente é sinal de que a política ficou aterrorizante e meio maluca em El Norte.

Quando os americanos forem às urnas em novembro, não somente escolherão um novo presidente (e Congresso), mas abrirão um novo capítulo da longa e contenciosa relação com o vizinho ao sul – uma história que inclui uma guerra real pelo Texas e pela Nova Espanha no século 19 e uma guerra de palavras pelo comércio no fim do século 20.

Este ano, cidadãos americanos de ascendência mexicana que vivem e votam em estados estratégicos podem muito bem decidir o resultado da eleição presidencial.

E está em jogo a política dos Estados Unidos em relação aos imigrantes mexicanos, pois o país passa por uma de suas epidemias periódicas de xenofobia, alimentada por questões de segurança e níveis históricos de imigração do mundo inteiro.

É fácil apontar o momento em que 2016 se tornou a Eleição Mexicana.

Em 16 de junho de 2015, um homem atarracado de cabelo laranja desceu de escada rolante para o lobby de um edifício que leva seu nome na Quinta Avenida, em Nova York. Cercado de câmeras e mármore rosa, ele declarou sua candidatura à Presidência dos Estados Unidos – e sua guerra particular contra o país e a população do México.

O México, disse Trump naquele dia, estava “mandando” para o norte pessoas “que têm muitos problemas. Elas estão trazendo drogas. Estão trazendo crime. São estupradores”.

A solução, disse ele, seria rapidamente encontrar e deportar os estimados 11 milhões de imigrantes não-autorizados nos Estados Unidos – um grupo que inclui milhões de mexicanos – e erguer na fronteira um muro da altura de um prédio de três andares.

Trump forçaria o México a pagar pelo muro, disse ele, ameaçando impedir que os imigrantes enviassem dinheiro para casa.

A candidatura presidencial de Trump foi inicialmente descartada como uma curiosidade, uma vaidade do empresário safado e apresentador de reality shows que gritava das margens mais paranoicas da política americana.

Mas a abordagem inflamável e acusadora de Trump acabou lhe garantindo a indicação do Partido Republicano, e agora ele enfrenta Hillary Clinton na eleição geral. Clinton é a líder de uma famosa máquina eleitoral, com décadas de experiência e contatos.

A estratégia que deu a vitória a Trump nas primárias, porém, agora atrapalha suas chances na eleição de novembro.

Trump está atrás em vários dos estados chave em que teria de vencer, de acordo com o sistema eleitoral americano.

Em 30 de agosto, o The New York Times estimava em apenas 12% suas chances de vitória.

É verdade que a imigração continua sendo um dos cinco principais tópicos da campanha.

Mas 72% dos americanos preferem encontrar uma maneira para os imigrantes sem documentos “ficarem legalmente” nos Estados Unidos.

E apenas 38% apoiam a ideia do muro na fronteira com o México.

Estes números são importantes por vários motivos – e eles são veneno para os republicanos.

Os hispânicos em geral, e os mexicanos em particular, são o maior grupo minoritário nos Estados Unidos. Há 60 milhões de latinos nos Estados Unidos, dos quais cerca de 35 milhões declaram ascendência mexicana.

E cerca de metade dos estimados 11,5 milhões de imigrantes não-autorizados que vivem no país vêm do México.

Quando Trump ataca os imigrantes mexicanos, portanto, ele ataca um grupo muito grande – e influente – dos eleitores americanos.

A regra geral da política americana é que um candidato republicano não consegue ser eleito presidente sem conquistar pelo menos 40% do voto hispânico. O presidente George W. Bush mal conseguiu a reeleição em 2004, obtendo 44% desses votos.

Em 2008, o senador John McCain conseguiu apenas 30% e perdeu para Barack Obama. Em 2012, Mitt Romney obteve 27% e também foi derrotado por Obama.

“Neste momento, parece que Trump vai conseguir diminuir ainda mais esses números – 25%”, diz Simon Rosenberg, da New Democratic Network, um centro de estudos de Washington que se dedica à questão da imigração.

Em maio, quando Trump estava confirmando sua vitória nas prévias republicanas, seu então chefe de campanha descartou a ideia de que o candidato tivesse de conseguir apoio entre latinos e mexicanos em níveis semelhantes ao de Bush.

Como a maioria dos latinos em geral e mexicanos em particular vivem em estados como Califórnia, Nova York e Texas – nenhum dos quais costuma ser competitivo nas eleições presidenciais --, a porcentagem nacional não importa, me disse Paul Manafort.

O que importa é que Trump tenha apoio nos estados com menor número de mexicanos e latinos. Nesses estados, afirmou ele, os eleitores hispânicos teriam menor propensão a basear seus votos em solidariedade étnica e estariam mais imunes à influência de ativistas liberais hispânicos.

Manafort foi demitido desde então, e seu substituto sabe que Trump vai continuar afastando os hispânicos – e os brancos moderados – se mantiver a linha dura contra o México e a imigração.

Nas últimas duas semanas, Trump vem tentando modular, ou pelo menos obscurecer, suas posições passadas.

A proposta do muro continua viva, bem como a teoria de que o México vá pagar pela obra. Idem para sua suposta determinação de encontrar e deportar imediatamente “os maus” – imigrantes sem documentos com ficha policial ou outros problemas sérios.

Mas ele parou de atacar – e até mesmo de mencionar – Gonzalo Curiel, um juiz federal nascido nos Estados Unidos acusado por Trump de ser parcial porque seus pais são imigrantes mexicanos.

E Trump agora diz ter simpatia pelos imigrantes sem documentos que estão nos Estados Unidos há vários anos e levam vidas tranquilas e produtivas.

Nos comícios, diz ele, seus eleitores fazem apelos por esses imigrantes.

“Ele dizem: ‘Senhor Trump, te amo, mas pegar uma pessoa que está aqui há 15-20 anos e agora expulsá-las com suas famílias? É muito duro’”, afirmou ele na semana passada.

Parece improvável que Trump tenha genuinamente mudado de opinião. Na realidade, a suspeita é que sua nova equipe de campanha simplesmente tenha olhado para os números do Colégio Eleitoral e concluído que os hispânicos são um bloco que Trump precisa conquistar se quiser ser eleito.

Enquanto Trump tenta “modificar” suas posições, Hillary Clinton continua deixando claro que prefere um “caminho para a cidadania” para os imigrantes sem documentos. E ela busca cuidadosamente – alguns podem dizer obsessivamente – os votos hispânicos em suas andanças pelo país.

Ela escolheu como vice Tim Kaine, governador de Virgínia – um dos estados que podem pender para os dois lados – e fluente em espanhol. Kaine também é católico, como dois terços dos mexicanos-americanos, e já viajou e trabalhou em vários países da América Latina.

Além disso, já fazendo planos para uma esperada vitória em novembro, ela indicou Ken Salazar, ex-senador e ex-procurador geral do Colorado, como o chefe da equipe de transição.

Ele é descendente de mexicanos – sua família imigrou da Espanha para o que na época era a Nova Espanha cerca de 400 anos atrás.

Mais ou menos 300 anos antes dos ancestrais de Donald Trump chegarem a Nova York, vindos da Alemanha.

Este artigo foi escrito para o lançamento do HuffPost México, em 1º de setembro. Para ler uma versão em espanhol, clique aqui.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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