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Doenças mentais também afetam presidentes

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abraham lincoln

Dada a intensa retórica da campanha presidencial americana, talvez não seja surpreendente que os políticos estejam trocando acusações de insanidade.

No começo de agosto, a deputada Karen Bass, democrata da Califórnia, lançou a hashtag #DiagnoseTrump (diagnostiquem Trump) e uma petição no Change.org afirmando que o candidato do Partido Republicano, Donald Trump, se enquadra nos critérios diagnósticos do Transtorno de Personalidade Narcisista.

Pouco depois, Trump chamou Hillary Clinton de “instável” e, em um comício, disse: “Ela tem problemas”.

Os golpes verbais dos candidatos destacam o estigma persistente das doenças mentais na política.

No passado, admitir problemas de saúde mental significava sentença de morte para carreiras políticas. Mais recentemente, alguns deputados e senadores têm sido mais transparentes em relação aos tratamentos de doenças mentais, mas são poucos os casos.

De qualquer modo, há evidências de que alguns dos presidentes mais adorados da história dos Estados Unidos possam se encaixar nos critérios modernos de doenças mentais.

Ideal heroico?

A Presidência é um cargo de altíssima pressão, mas ao mesmo tempo é visto através de lentes cor-de-rosa pelos americanos.

“Os americanos têm uma visão da Presidência que guarda pouca relação com o que realmente significa exercê-la”, diz Jennifer Mercieca, historiadora da retórica política americana e professora da Universidade Texas A&M. Cientistas políticos falam das “expectativas heroicas” em relação aos presidentes – que eles terão bom coração, serão magnânimos e agirão de acordo com o interesse da população. A saúde física e mental dos mandatários é parte dessa expectativa, disse Mercieca ao Live Science.

Em eleições de não muito tempo atrás, questões de saúde mental eram obstáculos para ambições políticas. Talvez o exemplo mais famosos seja o de Thomas Eagleton, escolhido para ser o vice da chapa democrata em 1972 com o candidato George McGovern.

Semanas depois de sua indicação, Eagleton abandonou a candidatura -- revelou-se que ele tinha sido tratado de depressão com terapia de choques elétricos. Ele viria a ter uma carreira de sucesso no Senado e depois trabalhou como advogado e professor até sua morte, em 2007.

Alguns políticos optaram por falar abertamente de seus problemas de saúde mental. Lynn Rivers, democrata de Michigan que esteve no Congresso entre 1995 e 2003, falou de seu transtorno bipolar.

Sean Barney, democrata que concorre a uma vaga na Câmara pelo Partido Democrata, discutiu seu Transtorno do Estresse Pós-Traumático. (TEPT), causado por seu período no Iraque como fuzileiro naval. Barney ficou paralisado depois de ser atingido por um franco-atirador.

Ruben Gallego, democrata do Arizona, é outro veterano do Iraque que já falou sobre TEPT.

No Executivo, entretanto, candidatos e presidentes não falam sobre o assunto. Quando John McCain disputou as primárias do Partido Republicano em 2000, havia rumores sobre seu estado mental por causa dos anos que ele passou como prisioneiro de guerra durante a Guerra do Vietnã. Ele divulgou seus registros médicos para negar os rumores.

Pressão presidencial

As atitudes em relação às doenças mentais mudaram desde que Eagleton perdeu a chance de ser vice-presidente. Em 1990, o candidato a governador da Flórida Lawton Chiles revelou que estava tomando o antidepressivo Prozac. Seu adversário na primária democrata, Bill Nelson, disse o remédio levantava “sérias dúvidas” sobre a capacidade de Chiles de exercer o cargo.

Mas Chiles venceu a primária e derrotou o então governador republicano e candidato à reeleição na eleição geral. Quando procurado em 2015 pelo site Politico para falar sobre aquela campanha, Nelson disse: “Sabendo o que sei agora, nunca teria dito tal coisa sobre [Chiles] ou qualquer outra pessoa”.

Embora o entendimento das doenças mentais como doenças biológicas – e não como resultado de falha de caráter – tenha aumentado, formas mais sutis de preconceito contra os doentes mentais persistem.

Vários estudos examinaram os preconceitos implícitos contra as pessoas com doenças mentais. Os preconceitos implícitos são sutis e muitas vezes não são percebidos conscientemente.

Os pesquisadores os descobrem com exercícios rápidos de associação de palavras. Pessoas com um viés implícito contra os doentes mentais são mais rápidos em associar a palavra “depressivo” com “desagradável” do que com “agradável”, por exemplo.

Um estudo de 2006 publicado no Journal of Social and Clinical Psychology, por exemplo, descobriu mais atitudes implícitas negativas em relação às pessoas com doenças mentais do que com pessoas com doenças físicas, mesmo entre aquelas que tinham diagnosticados com doença mental.

Um estudo de 2011 na mesma revista descobriu que as pessoas afirmaram ter sentimentos semelhantes sobre depressão e doenças físicas, mas eram mais implicitamente negativas em relação à depressão.

Apesar de tudo, há evidências de que algumas pessoas com doenças mentais tenham chegado à Casa Branca -- e até mesmo ao panteão de presidentes mais admirados.

Um estudo de 2006 no The Journal of Nervous and Mental Disorders tentou avaliar a saúde mental de 37 presidentes norte-americanos, começando com George Washington e terminando com Richard Nixon.

Com ressalvas sobre a dificuldade de fazer diagnósticos psicológicos de pessoas mortas, três psiquiatras analisaram as biografias desses presidentes e concluíram que 18 deles podem ter tido transtornos psiquiátricos em algum ponto de suas vidas. Dez deles pareciam ter sido afetados quando estavam na Casa Branca.

Entre os dez: John Adams, que pode ter tido transtorno bipolar II, uma doença marcada por depressões e períodos de mania de baixo nível. Franklin Pierce, que viu seu filho de 11 anos de idade (seu último filho sobrevivente), esmagado em um acidente de trem logo após sua eleição, pode ter tido depressão e abusado do álcool.

Em pesquisas com historiadores, Abraham Lincoln é regularmente considerado um dos três maiores presidentes americanos de todos os tempos, disse Mercieca. Ele também teve depressão recorrente. Como Pierce, Lincoln perdeu filhos. Edward morreu em 1850, aos 4 anos. William morreu em 1862, quando seu pai era presidente.

Teddy Roosevelt pode ter tido transtorno bipolar I, com mudanças de humor mais extremas do que o transtorno bipolar II, de acordo com o estudo de 2006.

William Howard Taft poderia ter tido um distúrbio do sono relacionado com a respiração. Woodrow Wilson parecia a apresentar sinais de depressão durante seu mandato (ele também teve um acidente vascular cerebral durante a sua presidência).

Calvin Coolidge apresentava sintomas depressivos durante sua passagem pela Casa Branca, assim como Herbert Hoover, escreveram os pesquisadores. Lyndon Johnson assustava seus ministros com humor negro e pode ter tido doença bipolar. Um artigo de 1988 escrito por seu assistente especial Richard Goodwin argumentou que Johnson tornou-se patologicamente paranóico durante seu tempo no Salão Oval.

Finalmente, Nixon mostrou sinais de abuso de álcool, escreveram os pesquisadores.

Alguns desses presidentes foram maus líderes (Pierce figura regularmente no quartil mais baixo em pesquisas com historiadores) e outros foram ótimos (Roosevelt quase sempre aparece no quartil superior nas mesmas pesquisas), segundo rankings publicados recentemente pelo instituto de estudos políticos The Brookings Institution.

Da mesma forma, os oito presidentes que manifestaram problemas psicológicos antes, mas não durante, suas presidências ocupam posições variadas nos rankings publicados pelo Brookings. Ulysses S. Grant, cuja luta com o alcoolismo causou escândalos durante a Guerra Civil, é mal avaliado pelos historiadores.

Já Thomas Jefferson, que se encaixava em critérios de fobia social no início da sua vida, e James Madison, que às vezes parecia deprimido, são ambos considerados presidentes acima da média e são adorados por seu papel na fundação dos Estados Unidos.

Artigo publicado originalmente no Live Science.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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